Lunes, 09 de Marzo de 2026

Guerra amplia tensão entre lula e trump antes de encontro

BrasilO Globo, Brasil 9 de marzo de 2026

A ofensiva dos EUA e de Israel contra o Irã, que resultou na morte do líder supremo ...

A ofensiva dos EUA e de Israel contra o Irã, que resultou na morte do líder supremo iraniano, Ali Khamenei, e alastrou o conflito para outros países do Oriente Médio, elevou o peso da crise na relação entre Brasília e Washington em meio às tratativas para um encontro entre Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump. A expectativa no governo brasileiro é que Lula reitere diante do presidente americano a posição contrária ao ataque, em mais um ponto de divergência política num momento de intensificação do diálogo bilateral. A reunião, contudo, ainda não tem data definida.
O desalinhamento se soma a outros episódios recentes, como a reação de Brasília à captura de Nicolás Maduro e de sua mulher, Cilia Flores, em janeiro em Caracas " classificada pelo governo como "sequestro" " e à posição de Lula contrária às sanções a Cuba.
A diplomacia brasileira enfrenta o desafio de buscar uma posição equilibrada para evitar que as relações com os EUA se deteriorem e retornem ao nível de tensão observado em meados do ano passado, sem deixar de explicitar a posição de Lula, que vai disputar a reeleição este ano. Ao mesmo tempo em que condenou os ataques ao Irã, o Brasil se solidarizou com Arábia Saudita, Bahrein, Catar, Emirados Árabes Unidos, Iraque, Kuwait e Jordânia, apontados como alvos de retaliações iranianas.
busca por equilíbrio
Outro ponto sensível é a proposta de criação de um conselho de paz defendido por Trump, para o qual o Brasil foi convidado. Lula deu sinais de que não vai aceitar, tem criticado a ideia publicamente e defende que o colegiado trate especificamente da reconstrução da Faixa de Gaza, com a participação dos palestinos.
O foco está em comércio e segurança, mas temas sensíveis como Oriente Médio, Venezuela e Cuba também devem fazer parte da conversa. No Palácio do Planalto, a avaliação é que Lula precisará equilibrar princípios e pragmatismo.
Interlocutores em Brasília e Washington avaliam que o primeiro tête-à-tête entre os dois chefes de Estado na Casa Branca, depois de breves conversas em Nova York e Kuala Lumpur, em 2025, dependerá da evolução do conflito no Oriente Médio. Para autoridades que acompanham o tema, manter uma boa relação com o Brasil continua sendo importante para Washington, mas hoje isso está longe de ocupar posição central na agenda da Casa Branca.
Auxiliares do presidente da República esperam que a reunião entre Lula e Trump ocorra na segunda quinzena de março. No entanto, não se descarta a possibilidade de o encontro só acontecer em abril. Ou seja, segue sem data fechada e pode ser adiado diante do novo cenário internacional.
A proximidade ideológica de Trump com o ex-presidente Jair Bolsonaro " condenado por tentativa de golpe de Estado e principal adversário político de Lula " acrescenta um componente doméstico à equação diplomática em pleno ano eleitoral no Brasil. Há ainda divergências internas sobre o impacto político de uma foto com Trump: setores próximos ao presidente avaliam que o risco para a imagem de Lula é elevado, enquanto outros defendem a manutenção do encontro, desde que a agenda privilegie temas de interesse brasileiro.
Ana Garcia, professora de relações internacionais da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), avalia que o conflito provocou uma reordenação de prioridades.
" O governo Trump é um governo de produção de crises permanentes. Se, até há pouco tempo, as tensões estavam em torno das tarifas, agora estão em torno da guerra. Há uma mudança de agenda global impulsionada por essa capacidade de geração de crises " diz.
Para Marianna Albuquerque, da UFRJ, um eventual adiamento pode ser conveniente para os dois lados.
" Para os EUA, permitiria que se centrassem em uma resolução mais rápida, que é o interesse de Trump; para o Brasil, impediria que o contexto ‘sequestrasse’ a pauta e que os assuntos de nosso interesse não fossem tratados " afirma.
Para ela, caso a reunião ocorra, o Brasil tentará "encapsular a crise", priorizando temas como tarifas, sem abandonar a defesa histórica da negociação e do multilateralismo, além de mostrar disposição para eventuais esforços de mediação.
A aposta do Planalto continua concentrada em dois eixos de forte repercussão interna: tarifas e combate ao crime organizado. A decisão recente da Suprema Corte dos EUA de derrubar o tarifaço de Trump alterou o cenário das negociações, mas a criação de uma nova tarifa de 10% sobre o comércio com outros países mantém a preocupação brasileira.
Integrantes do governo avaliam que a "roupagem" do encontro pode mudar, deslocando o foco da contenção de danos para uma agenda mais ampla de comércio e investimentos, com o Brasil apresentando dados como o déficit comercial brasileiro com os EUA.
cautela diplomática
Na área de segurança, Lula pretende aprofundar a cooperação existente entre Ministério da Justiça, Polícia Federal e Receita Federal no combate ao crime organizado transnacional. Interlocutores do governo afirmam que o Brasil quer reforçar a colaboração sem comprometer a autonomia nacional. A hipótese discutida nos EUA de classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas é tratada com cautela em Brasília.
A pauta inclui ainda minerais críticos, tema crescente na relação bilateral depois de JD Vance convidar países a formar uma coalizão para fornecimento, mineração e refino desses produtos.
Equipes técnicas das áreas econômica e de segurança trabalham para mapear convergências e evitar que divergências dominem a agenda presidencial. A orientação é diminuir a troca pública de críticas e fortalecer canais institucionais, como os contatos entre o chanceler Mauro Vieira e o secretário de Estado americano, Marco Rubio.
Michael Shifter, presidente do centro de estudos Diálogo Interamericano, sediado nos EUA, avalia que o encontro tende a ser pragmático e marcado por cautela diplomática, com atenção concentrada sobretudo nas disputas comerciais entre os dois países. Para a presidente do Instituto Igarapé, Ilona Szabó, os dois deverão manter discursos distintos no espaço público.
" Podemos esperar uma diplomacia pragmática e rigidamente administrada. A relação será menos sobre uma visão compartilhada e mais sobre gestão de riscos.
Ricardo Zúñiga, ex-diplomata americano que já serviu no Brasil, acredita que será difícil construir uma agenda positiva neste momento.
" O único caminho é limitar a agenda a temas como minerais críticos, comércio e combate ao crime organizado. Focar numa parceria estratégica " afirma ele, que ressalta que o governo Trump não tem interesse, neste momento, em receber um líder latino-americano crítico às ações contra o Irã dentro da Casa Branca. " Hoje, Trump não ganha nada se encontrando com Lula.
Jonathan Hanson, professor da Universidade de Michigan, lembra que 2026 também será ano eleitoral nos EUA, com a renovação de parte do Congresso. E destaca que o encontro ocorrerá em um momento em que a economia americana dá sinais de desaceleração.
" O Partido Republicano demonstra fragilidade considerável nas pesquisas. Não seria surpreendente que Trump adotasse uma postura menos confrontacional do que no passado " afirma.
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