Lunes, 09 de Marzo de 2026

Caso epstein mancha imagem da família real em ano de centenário de elizabeth ii

BrasilO Globo, Brasil 9 de marzo de 2026

Larry Bonds torce por uma reviravolta de última hora, mas, quanto mais a efeméride se ...

Larry Bonds torce por uma reviravolta de última hora, mas, quanto mais a efeméride se aproxima, aumenta seu temor de que a celebração do centenário de nascimento da rainha Elizabeth II (1926-2022), no próximo dia 21 de abril, não garantirá mais a imaginada multiplicação de libras em sua venda, localizada no Jubilee Market Hall de Covent Garden, no centro de Londres.
" Tudo o que é relacionado à rainha, como as bonecas dela em miniatura, vende pelo menos três vezes mais do que os produtos ligados ao rei. Mesmo se a gente reduzir bem o preço, poucos se animam a levar objetos que lembrem Charles III. A "velha senhora" é quem ainda garante que eu feche o mês no azul, mas até quando? " pergunta o comerciante inglês de 67 anos, preocupado com as sequelas da atual crise da monarquia britânica e seu potencial de turvar a imagem entre os súditos da própria Elizabeth II.
lobby da rainha
Não é percepção exclusiva de quem lucra com o patriotismo para sobreviver. A edição da semana passada da centenária revista New Statesman, instituição do flanco progressista no país, trouxe na capa uma coroa desabada no chão, seus adornos em pedaços. A reportagem resume assim o momento do Reino Unido: "A Coroa em ruínas. Um príncipe detido. Um rei fraco. Um herdeiro problemático: a Casa de Windsor está em perigo."
O texto de Will Lloyd ecoa o sentimento de Larry Bonds ao reunir elementos para mostrar que a crise atual se transformou em uma tempestade perfeita, ainda mais difícil de ser controlada do que outros momentos críticos para a instituição, entre eles a própria ascensão de Elizabeth II e a vida e morte da princesa Diana, dissecados pela História, jornalismo e cultura popular, em peças, filmes e séries, entre elas o sucesso "The Crown". Na equação atual, com o governo do premier Keir Starmer engolido pelo caos, não há a possibilidade de socorro efetivo de Downing Street.
A reportagem da New Statesman também começa com um britânico sem título de nobreza. O sargento Dave Greenhalgh foi vítima de um explosivo no Afeganistão. Lloyd resgatou uma carta escrita pelo pai do militar após ser informado da morte do filho de 25 anos. Nela, o morador de Ilkeston, no coração geográfico da Inglaterra, escreveu "sempre ter afirmado não haver maior sacrifício e honra na vida do que morrer em serviço de Deus, da Rainha e do país". Nesta ordem.
Para os militares britânicos destacados para auxiliar o aliado Estados Unidos na invasão afegã, iniciada em outubro de 2001, "a rainha, comandante em chefe das Forças Armadas, era um ente semidivino. Quando Greenhalgh deu sua vida pela Coroa, ele o fez, em parte, por ela", escreve Lloyd.
A divisão em que o sargento servia é uma das que conduzem as cerimônias oficiais no Palácio de Windsor. E o momento em que as tropas britânicas iniciaram combates no Afeganistão coincide com o da nomeação do então príncipe Andrew, pelo primeiro-ministro Tony Blair, como enviado especial de Comércio e Oportunidades de Negócios nos EUA. Em carta, o então ministro do Comércio e futuro embaixador do Reino Unido nos Estados Unidos, lorde Peter Mandelson, cardeal do Partido Trabalhista, celebrou a escolha do amigo.
Em um período de cinco dias, mês passado, o ex-príncipe e Mandelson foram parar na cadeia por suspeita de terem fornecido informação privilegiada ao financista americano Jeffrey Epstein, que se matou na prisão, de acordo com a polícia, em 2019, após ser confinado por comandar esquema global de pedofilia e tráfico de mulheres. O americano fez fortuna gerenciando o dinheiro de gente rica e poderosa dos dois lados do Atlântico. E dinheiro é elemento central na atual crise da monarquia.
Outro jornal respeitado da imprensa britânica, o dominical Observer, informou que investigações preliminares indicam a ajuda da rainha para amealhar o montante de 12 milhões de libras, pouco mais de R$ 84 milhões, valor do acordo firmado com os advogados de Virginia Giuffre, que denunciou ter sido traficada por Epstein, com Andrew entre seus abusadores. O acordo foi firmado em 2022, ano do festejado Jubileu de Platina (70 anos) do reinado de Elizabeth II. A Casa de Windsor jamais detalhou de onde veio o montante. Para o centenário, em abril, será inaugurado um memorial no Parque St. James, em Londres, que custará aos britânicos 46 milhões de libras, cerca de R$ 323 milhões.
O Observer revisitou escândalos de Andrew desde 2025 e detalhou o lobby da rainha pela nomeação do filho em 2001, apesar da oposição do então príncipe Charles. O jornal questiona no título: "A família real precisa responder: o quanto eles sabiam e o que fizeram a respeito?"
Fonte do alto escalão do governo do conservador David Cameron, de forma reservada, relembrou a "difícil conversa" do então primeiro-ministro, em 2011, com Elizabeth II, ao informar à rainha que o trabalho de Andrew "não era realizado a contento". Outra fonte ouvida pelo jornal garante que a monarca foi avisada das "amizades dúbias" do filho e que embaixadores reclamavam de ele chegar sempre atrasado a eventos e "só dar atenção às mulheres jovens". Entre os indícios de abuso de poder estão despesas pagas pelo contribuinte britânico para massagistas.
Andrew, que clama inocência, teria sido, aponta o jornal, protegido pelo Palácio de Buckingham durante o reinado de Elizabeth II. Uma revisão do legado da rainha, ferrenha defensora do serviço público, da proteção da unidade nacional e da valorização da ética como razões de ser da família real, seria inevitável.
reflexos no governo
Ciente da dimensão do abalo à monarquia, Charles III retirou os títulos de nobreza do irmão e impôs a ele processo público de despejo de sua propriedade real, uma mansão com 30 cômodos. O príncipe William, no entanto, de acordo com fontes próximas da nobreza britânica, criticou explicitamente a morosidade da punição ao tio. E o governo, por sua vez, defendeu que o Parlamento delibere sobre a retirada do ex-príncipe da linha sucessória do trono. Nada que diminuísse a crise.
Perderam seus cargos por conta do imbróglio dois dos mais importantes conselheiros de Starmer, o chefe de Gabinete e cérebro de sua ascensão, Morgan McSweeney, e o diretor de Comunicação, Tim Allan. A dois meses das eleições regionais e com as pesquisas alimentando previsão de derrota histórica dos governistas, o líder do Partido Trabalhista na Escócia pediu a renúncia do primeiro-ministro, o que adiantaria o pleito geral, previsto para 2029.
A oposição " à direita e à esquerda " denuncia elites, na nobreza e na política partidária, descompromissadas com os valores que deveriam definir o país para todos os britânicos. Os mesmos defendidos em público por Elizabeth II e enunciados no luto dos Greenhalgh na carta revisitada pela New Statesman.
Foi o que repetiu Hannah Spencer, de 34 anos, em sua campanha para uma cadeira no Parlamento, em votação especial no distrito da Grande Manchester, bastião trabalhista. Ela venceu com 41% dos votos. Os governistas chegaram em terceiro, atrás do candidato de ultradireita do Reform UK.
Filiada ao Partido Verde, de esquerda, em seu discurso de vitória, a encanadora se desculpou com os clientes com hora marcada, pois ficariam na mão para resolver vazamentos e infiltrações. Por outro lado, destacou que, no Parlamento,"darei voz aos trabalhadores que, como eu, terão finalmente lugar na mesa decisória". Sua vitória foi traduzida por analistas como prova da retração dos partidos tradicionais. E da busca dos britânicos, no ano do centenário da rainha, por "gente como a gente" para representá-los.
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