O fogo cruzado das balas infelicita um bairro que já foi cheio de charme
Esta semana, Cascadura, antigo bairro da Zona Norte carioca, foi palco de duas tristes ...
Esta semana, Cascadura, antigo bairro da Zona Norte carioca, foi palco de duas tristes notícias. A médica Andréa Marins Dias foi morta a tiros no domingo passado, ao ter o carro confundido com o de criminosos durante perseguição policial. Dois dias depois, o Instituto Fogo Cruzado revelou que este foi o bairro da região metropolitana que teve o maior número de tiroteios em 2026: 18, até agora. É pena. Afinal, como diz o coleguinha e escritor Marcelo Moutinho, que conhece a história e estórias de cada canto do Rio, Cascadura tem uma história profundamente atrelada ao desenvolvimento da cidade. "Fez parte do Caminho Imperial, pelo qual a Corte acessava a Real Fazenda de Santa Cruz", diz. Também, por quase três décadas, foi o ponto terminal da primeira linha férrea dos subúrbios (veja foto antiga da centenária estação, inaugurada em 1858). Moutinho lembra que, em 1936, Noel Rosa ambientou lá a opereta "A noiva do condutor". "Aliás, Cascadura é o terceiro bairro da cidade mais mencionado na obra de Noel, depois de Vila Isabel, naturalmente, e da Penha", conta. Meio século depois de Noel, o saudoso Arlindo Cruz, que morreu em agosto passado, armaria seu pagode na Rua Padre Telêmaco. Mesmo hoje, entre o zigue-zague das balas, a vida cultural continua agitada lá, segundo Moutinho: "Seja nos encontros do Rolé Literário no Bar do Papa, nas saídas dos bate-bolas da turma Só Pureza ou nos sambas na quadra do Arrastão, há uma Cascadura que não cabe nas páginas policiais".
Em tempo: há controvérsia sobre a origem do nome Cascadura. Uma delas atribui a Maria Graham (1785-1842), uma viajante inglesa que, em seus diários de viagem ao Brasil, fez referências ao local como "Casca D’Ouro".