Produtividade pode vir com bem-estar maior
A discussão sobre a redução da jornada de trabalho trata, de um lado, da qualidade de vida ...
A discussão sobre a redução da jornada de trabalho trata, de um lado, da qualidade de vida aos trabalhadores. De outro, joga luz sobre a importância dos ganhos de produtividade. Afinal, fazer mais com menos é uma saída para evitar que eventual redução no total de horas trabalhadas resulte em menos crescimento econômico e mais inflação. A relação entre a regulamentação da carga horária de trabalho e a produtividade foi um dos pontos do debate da série Caminhos do Brasil sobre a escala 6x1, realizado na última quinta-feira, no Rio.
Os possíveis impactos da redução da jornada de trabalho na produtividade dividem especialistas. Para alguns, trabalhadores menos cansados e mais engajados poderão produzir mais, mitigando a possível redução nas horas trabalhadas. Outros lembram da histórica dificuldade da economia brasileira em ganhar produtividade, por uma série de fatores. Atualmente, o Brasil está no meio da tabela mundial em médias de horas trabalhadas, conforme dados compilados pela Organização Internacional do Trabalho (OIT). Para acelerar o crescimento econômico sem aumentar esse indicador, é preciso fazer mais com menos.
O economista e professor titular da Cátedra Ruth Cardoso do Insper, Naercio Menezes Filho, avalia que o país tem condições de reduzir a jornada semanal de 44 para 40 horas. Para ele, a redução poderá melhorar a qualidade de vida de trabalhadores que enfrentam longos deslocamentos diários e têm pouco tempo para o lazer e a convivência familiar:
" Essa redução da jornada pode ser proveitosa no curto e no longo prazo. No curto prazo, com as pessoas trabalhando menos, elas terão uma saúde melhor e menos estresse. Estudos mostram isso.
Saúde melhor e menos estresse podem aumentar a produtividade, com a redução do cansaço. Segundo Adalberto Cardoso, professor do Instituto de Estudos Sociais e Políticos (Iesp), da Uerj, e presidente da Associação Brasileira de Estudos do Trabalho (Abet), há evidências internacionais de que a redução da jornada pode elevar a produtividade:
" Têm se comprovado, em países como Bélgica, Holanda, ganhos reais em empresas que adotaram semanas de trabalho mais curtas. Isso porque os trabalhadores trabalham mais descansados, felizes e engajados. Trabalhadores mais descansados investem em sua qualificação, mudam até de segmento porque se requalificam e vão trabalhar em situação melhor. Tem uma dinamização da economia que é real.
O deputado federal Reginaldo Lopes (PT-MG), autor de uma das propostas de mudanças na jornada e na escala em discussão no Congresso, reforça a importância da qualificação com um depoimento pessoal sobre sua experiência no mercado de trabalho, na juventude. Trabalhando numa padaria, com escala 6x1, Lopes teve dificuldades em conciliar o trabalho com um curso de pós-graduação.
Segundo Menezes, do Insper, no longo prazo, poderá haver impactos indiretos no desenvolvimento das crianças, especialmente nas famílias de baixa renda:
" As mães, principalmente, não têm tempo de ler para seus filhos. Não têm tempo de brincar com eles, perguntar como foi a escola. Ao reduzir a jornada, você aumenta o tempo disponível dos pais para investir nas suas crianças, o que vai aumentar o aprendizado delas, gerando aumento de produtividade no futuro.
Por outro lado, o professor José Pastore, presidente do Conselho de Emprego e Relações do Trabalho da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP), argumenta que os ganhos de produtividade precedem às reduções nas médias de horas trabalhadas, e não o contrário. A produtividade não depende só do trabalhador.
" Depende da empresa, da tecnologia da empresa, da infraestrutura do país, da estrada, da energia elétrica, dos armazéns. Um conjunto de fatores faz a produtividade aumentar. Segurança jurídica, também " diz Pastore, ressaltando que, mesmo em funções operacionais, o ambiente produtivo é determinante para o desempenho do funcionário.