Ciência da artemis ii investigará saúde, radiação e astronomia
Quando americanos planejavam enviar astronautas à Lua nos anos 1960, o objetivo do país ...
Quando americanos planejavam enviar astronautas à Lua nos anos 1960, o objetivo do país era demonstrar poderio tecnológico: a motivação, à época, era maior do que o desejo de produzir ciência. Mas, mesmo com metas acadêmicas em segundo plano, o programa Apollo deixou grande contribuição para a área. Mais de 60 anos depois, o programa Artemis, buscando o retorno ao solo lunar, parece ensaiar uma repetição dessa história.
Há dezenas de projetos científicos previstos para a nova empreitada da Nasa, alguns remontando a investigações que começaram com o próprio programa que colocou o homem na Lua, em 1969, e acabou em 1972. A missão tripulada Artemis II, que tem como objetivo circundar a Lua (assim como a Apollo 8, de 1968), deve levar a bordo alguns desses experimentos. A próxima janela de lançamento da equipe com quatro astronautas começa em 1º de abril.
Duas janelas anteriores foram perdidas por problemas detectados antes da decolagem. O foguete Space Launch System (SLS), que colocará a espaçonave Orion em órbita, passou por três semanas de manutenção e voltou à plataforma na sexta-feira. E, mesmo sem pousar, a Artemis II será a viagem espacial tripulada mais distante já feita.
" A campanha integrada da Artemis II envolve atividades de biologia, pesquisa humana, clima espacial e um pouco de geologia planetária " resumiu Jacob Bleacher, chefe de exploração científica da Nasa, em entrevista coletiva. " Nos ajudará a entender o ambiente espacial que enfrentaremos em futuras missões. Servirá para aprimorar observações da Lua e a comunicação com as equipes de apoio na Terra.
Em outras palavras, serão testados sistemas de monitoramento da saúde de astronautas, aparelhos para medir radiação espacial e equipamentos de comunicação. A tripulação fará também observações astronômicas.
O cronograma para pisar o solo lunar, porém, está atrasado. A etapa com pouso estava prevista para a Artemis III, no ano que vem, mas a Nasa mudou os planos, e agora a alunissagem só deve acontecer na Artemis IV, em 2028. O anúncio acirrou a nova corrida lunar, porque a China tentará uma missão tripulada em 2030.
Um dos experimentos mais interessantes na Artemis II é um sistema chamado Avatar: pequenos chips com amostras de células-tronco extraídas dos astronautas. Eles servirão para estudar os efeitos da radiação cósmica e da microgravidade na saúde da tripulação. Após o retorno, as amostras serão comparadas a dados coletados em estudos simultâneos em solo terrestre e na Estação Espacial Internacional.
" O Avatar pode ajudar a informar medidas para assegurar a saúde da tripulação em missões espaciais profundas no futuro, incluindo kits médicos personalizados para cada astronauta " diz Bleacher. " Para cidadãos aqui na Terra, ele pode levar a avanços em tratamentos individualizados de doenças como o câncer.
Do ponto de vista humano, as observações geológicas são as que mais entusiasmam os cientistas, dizem os diretores da Nasa. Dependendo do horário de lançamento e da trajetória final do voo, é possível que os astronautas vejam partes da Lua nunca antes observadas por olhos humanos, no lado oculto do satélite.
A fase mais empolgante da ciência no programa Artemis, porém, está prevista só para depois do primeiro pouso. Há planos para montar um sismógrafo que medirá pequenos tremores na superfície, instalar um detector de raios cósmicos e vento solar, perfurar o solo, colocar um telescópio no lado oculto da Lua e dezenas de outros experimentos.
Brasil no espaço
O Brasil tem participação em dois dos projetos. Um deles é o de testar o cultivo de plantas na Lua. A Embrapa realiza, sob comando da cientista Alessandra Fávero, experimentos com variedades de batata-doce e grão-de-bico que devem ser levados nas missões.
Rebeca Gonçalves, astrobióloga em outro projeto candidato da Artemis ligado à Universidade de Wageningen, na Holanda, diz que a criação de uma horta na Lua é essencial para a ambição de estabelecer presença humana de longo prazo.
" Os astronautas na ISS vivem de comida desidratada, mas só a comida fresca tem alguns nutrientes essenciais, incluindo vitamina A, vitamina C e beta-caroteno " diz. " Os antioxidantes são importantes para combater a alta radiação, que é justamente um dos efeitos que os astronautas vão enfrentar em viagens à Lua.
O outro projeto brasileiro no Artemis é o SelenITA, concebido no Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA). É um pequeno satélite projetado em parceria com a Nasa, que será levado com um módulo de solo e um pequeno jipe-robô para a Lua. Seu objetivo é entender o campo magnético lunar, que é fraco e irregular.
Os projetos do Brasil envolvidos no programa americano de retorno à Lua, porém, só devem decolar em missões mais adiante, a partir da terceira. Para isso acontecer, o sucesso da Artemis II é essencial.