‘Não nasci vencedor, mas também não vou morrer perdedor’
TOCA E PASSA
TOCA E PASSA
Maior ídolo do clube mais popular do país, Zico ainda tem muitas histórias para contar, e boa parte delas estará no documentário "O Samurai de Quintino", que estreia nos cinemas no dia 30 de abril. Uma prévia, porém, marcou o episódio de estreia da temporada do "Toca e Passa", videocast do GLOBO disponível no YouTube e nas plataformas de áudio. Nele, o Galinho refletiu sobre sua trajetória no Flamengo e na seleção brasileira, analisou as chances de Neymar e Lucas Paquetá irem à Copa e criticou a formação de jogadores no país.
Você já teve sua história contada na ficção e participou de documentários. Agora, vai lançar o seu, "O Samurai de Quintino", nos cinemas. O que ele traz de novo para os fãs?
O mais importante foi o clima fantástico de gravações. Todo mundo estava muito feliz, então as coisas fluíam bem. As pessoas convidadas foram importantes na minha vida, na minha carreira. Isso deu outro clima. O torcedor, lógico, quer relembrar os gols, mas não só isso. É a minha trajetória, são os momentos de felicidade, de dificuldade, de superação... como encarei isso. Até o fato de não saber se ia voltar a jogar futebol quando tive uma contusão, os amigos que perdi, tudo isso dá um clima de muita emoção ao filme.
Qual foi o momento mais marcante das gravações?
Quando grava com a família, né? Gravar com a família é complicado. A gente vai envelhecendo com os netos, com os filhos e as noras, com a Sandra (mulher)... Tudo isso amolece o coração. Também tem meus irmãos, porque teve um que sofreu bastante no final dos anos 1960, e a família toda sentiu de perto essa coisa de repressão, ditadura. Eles foram importantes para mim, porque, se eu não tivesse aqueles exemplos em casa, talvez tivesse outra personalidade, talvez tivesse outra forma de reagir a situações que mais à frente aconteceram comigo. Mas por ter visto de perto isso tudo, com a ajuda deles, encarei mais de frente. Eles são os responsáveis pelo Zico.
O filme conta sua história em Quintino, mas não deixa de fora a idolatria no Japão. Daí o nome Samurai. Como é sua relação com o país hoje?
Sou conselheiro do Kashima (Antlers). Fico junto dos patrocinadores, visito empresas, tenho bate-papos, dou palestras... E acabo acompanhando um pouco o time principal nos treinos.
Temos o Zico, ídolo máximo do Flamengo, e temos o Zico da seleção brasileira, contestado por parte da torcida. Você se incomoda ou já se incomodou com isso ao longo dos anos?
Pouco. Tenho números na seleção. No Brasil, há muita cobrança em cima de pessoas que erram numa partida e ficam marcadas eternamente. Se você errar e o time ganhar, esquecem. Não querem nem saber o que aconteceu. Mas se não ganhar, aquele erro fica para sempre. Aconteceu comigo (perda do pênalti durante o tempo regulamentar contra a França na Copa de 1986), e não tenho problema nenhum. Não errei de propósito e não fui responsável por uma derrota. O jogo terminou empatado. Cometi meu erro, e está tudo bem. As pessoas acham que você não fez nada. Mas você vai ver os números, e eu fui um dos jogadores que menos derrotas teve com a seleção brasileira em todos os tempos.
Muitos jogadores falam, hoje em dia, da importância da terapia para manter a saúde mental em dia. Como você fez para lidar com esse erro?
A gente pega para nós aquilo que aconteceu e segue em frente. Tenho uma irmã psicóloga e, de vez em quando, conversava com ela, como faço até hoje. Isso me ajudou bastante. São situações de jogo. Você faz seus gols, mas também perde. Eu não nasci vencedor, mas também não vou morrer perdedor, porque as conquistas estão marcadas. Ganhar é a coisa mais importante do futebol. Mas o mais importante mesmo é botar a cabeça no travesseiro e dormir sem culpa.
Talvez o fato de você levar o futebol dessa forma saudável seja o que faz torcedores de outros clubes te admirarem.
Lógico. No filme, tem uma parte emocionante sobre a minha ligação com o (Roberto) Dinamite. Isso foi um aprendizado que nossas mães nos deram. Elas iam aos jogos e ficavam juntas. Quando acabava, nós poderíamos ter nos matado dentro de campo, mas teríamos que nos encontrar depois (risos). Aquela rivalidade ficava no campo, e a amizade jamais foi perdida por isso. O Bob foi uma pessoa fantástica. Você vê hoje a dificuldade que é um jogador do Flamengo estar do lado de um jogador do Vasco. Parece um crime. Não pode ser amigo de ninguém.
Em 1986, sua ida para a Copa ficou em cima do muro por questões físicas. Hoje, a gente vive isso com outro camisa 10... Até que ponto vale arriscar por Neymar?
Eu realmente tinha uma lesão, um ligamento cruzado que podia ser operado. Eu podia jogar algumas vezes, mas muitas vezes não treinava com a equipe. Isso gerava uma dificuldade de o treinador ter confiança para me escalar de início. A solução era a cirurgia. Eu fiz o que era possível fazer. E quem se deu mal fui eu. O caso do Neymar é diferente. Ele está jogando. O problema é que ele não tem continuidade de jogos. Se ele conseguisse jogar oito ou dez jogos seguidos, daria mais confiança (ao treinador). Ninguém discute o talento. Ele é o melhor jogador brasileiro dos últimos tempos, é um gênio. Agora, tem que saber se isso vai ser possível e se ele vai usufruir disso. Se colocar o Neymar lá, todo mundo vai querer que ele decida. É uma responsabilidade muito grande. Ele tem que entender que é a cereja do bolo. Vão esperar e exigir muito dele.
Se dependesse de você, levaria Neymar para a Copa?
Se ele estivesse numa sequência de jogos, sim. Com o panorama atual, fica difícil. Tem essa questão do controle de carga, joga um e sai... Depende de como o treinador vai usar o jogador. A convocação depende muito disso. O Neymar jogou dois jogos. Aí o treinador foi lá para vê-lo, e ele não estava jogando. Isso gera uma insegurança.
Que sentimento ver a seleção jogar te desperta? Você está otimista ou pessimista?
Ficaria pessimista se tivesse alguma seleção no mundo totalmente acima. Mas vejo que está tudo igual. França e Espanha, por terem mantido um plantel e infraestrutura, estão um pouquinho acima do Brasil. E você vê a organização como time... A França é uma seleção estruturada, com os mesmos jogadores, comissão técnica. E com resultados. Ganhou Copa, foi vice... Esse trabalho da França, de 14 anos, está dando os resultados.
Sente falta de um camisa 10?
Claro, de um organizador. Você não tem um jogador que vem de trás, chega na área, faz gol. Não tem hoje. Só Neymar poderia fazer isso. Nos clubes, já é difícil. No Flamengo, é uruguaio (Arrascaeta). No Fluminense, era colombiano (Arias). No Vasco, era francês (Payet). No Botafogo, era argentino (Almada). No Corinthians, é holandês (Depay). Não tem nos clubes, não tem nada base. Faço um campeonato sub-15 há mais de 20 anos. Você vê a configuração dos times, não tem camisa 10. Você não vê um garoto que faz a armação do jogo, olha, penetra, faz o gol, dá assistência... Hoje, você tem muitos jogadores pelo cantos: Luiz Henrique, Estêvão, Raphinha... Aí tem um monte, dá para escolher.
Por falar em meias e seleção, como vê o momento do Paquetá no Flamengo? Acha que ele ainda vai para a Copa?
Não sei. O problema do Paquetá é que, na própria seleção e lá fora, ele jogava em outra função. Aqui, os caras do meio estão indo para o canto. Ele não é jogador para voltar, dar combate, nunca foi. Quando ele surgiu, foi o melhor jogador do Flamengo na Copa São Paulo botando os caras na cara do gol, chegando, fazendo gol. Jogando lá no canto, não sei. A concorrência na seleção é muito grande. Se for para fazer essa função, vai ser difícil para ele. No meio, a história é outra.
Você hoje é embaixador do Flamengo. Ainda tem vontade de trabalhar no futebol?
É bom explicar essa função, porque não tem nada a ver com o departamento de futebol. É para divulgar o sócio-torcedor, gravar a "Resenha do Galinho" na FlamengoTV, representar o clube em eventos a que o presidente não possa ir... Eu não tenho influência nenhuma em termos de jogadores. Converso com eles, são muito legais, têm um carinho grande por mim. Mas não tenho mais vontade nenhuma (de assumir um cargo). Acho que contribuí bem, já dei a minha colaboração em relação a isso.
Você tem fama de gente boa, fala com todo mundo... Não cansa de ser o Zico?
Se estiver cansado, não saio de casa. Esse carinho que as pessoas têm, Deus te dá, e você não pode jogar fora.
Zico / EX-JOGADOR E ÍDOLO DO FLAMENGO