‘Não é onde nasceu que determina qualidade’
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Guto Ferreira carrega no currículo uma das marcas mais valorizadas do futebol brasileiro: o resultado. Aos 60 anos, o atual técnico do Vila Nova construiu a carreira empilhando campanhas que levaram clubes à primeira divisão " feito que alcançou com o Remo no ano passado, além de Sport, Inter, Ponte Preta e Bahia. Agora, tem nova missão: conduzir o Tigrão à Série A.
Ao ser perguntado sobre a decisão de deixar o clube paraense após a histórica classificação à elite do futebol brasileiro, Guto desabafou:
" Foi uma opção pessoal não seguir no Remo. Quando se muda de divisão, o buraco é mais embaixo. O plantel não ia ser mantido na essência, era direcionado para a Série B. Aí vem a cultura: perdeu três, é rua. Para que vou querer ficar lá, para tomar um pé na bunda? Procurei uma cláusula que me desse proteção. A direção se negou a aceitar. Quem se nega a gastar, se me tirar, é que não acredita 100% em mim. O que vou fazer lá? Isso depois de ter trazido o resultado. Futebol é assim, também tem que ser inteligente.
Além de especialista em acesso, Guto é um pensador do futebol. Estudioso, tem uma visão crítica sobre o futuro da modalidade. Em entrevista para a série "Divã", do GLOBO, o treinador repassou suas décadas de trabalho, falou do boom de técnicos estrangeiros no país e decretou o fim do "tik taka" de Guardiola.
Como o rodízio por clubes influencia na vida pessoal?
Tenho uma base em Piracicaba/SP. Meus filhos são gaúchos. A família é de São Paulo. Meus pais se foram, os irmãos moram fora. A família da esposa é toda de Piracicaba. Um filho há seis anos mora em Belo Horizonte, formado em Direito esportivo. Outro filho faz engenharia na USP.
O que acha que mudou nesses anos no futebol profissional?
Tem muita coisa que é a mesma de antes, o que mudou foi a nomenclatura. Vinha pela região, pelo treinador. E hoje ganhou uma diretriz. Taticamente, os conceitos são mais estudados e os termos vão sendo unificados. O pessoal mais antigo tem alguma dificuldade. A vida toda teve uma explicação, e tem que mudar para falar a mesma coisa. Os conceitos de treinamento também foram sendo atualizados. O primeiro salto foi a evolução da preparação física. Dos anos 1970 aos 1990, é embasada no atletismo, resistência. Em determinado momento, o Athletico-PR começou a trabalhar a metodologia com a leitura de que o futebol era um esporte menos contínuo, com ações rápidas, com pausas. Começou a se valorizar mais a força, principalmente no Brasil. Quem está bem aguenta mais. A partir do Guardiola, o tik taka não foi só mudança técnica e tática, foi física, porque o jogo imprimiu uma intensidade grande. Era novidade. O mundo não tinha metodologia para rivalizar. E quem tem a posse tem o domínio. Com o passar dos anos, os clubes foram se nivelando. Hoje o tik taka não existe mais.
Qual o futuro do futebol?
O futuro do futebol, pelas quatro fases do jogo, tende a seguir caminho parecido com o handebol. Mas lá há troca o tempo todo de jogadores. O cara que defende e o que ataca têm condicionamentos físicos diferentes. Vai chegar num momento " e já está assim " em que a transição vai ser primordial. Como o jogo é realizado com os pés, há pressão após perda, com posicionamento de atacar marcando, para não permitir ganho de tempo e espaço para organizar contra-ataque. Isso tudo está sendo cada vez mais decisivo. Se as regras não mudarem, caminha para isso.
No Brasil também?
Uma das maiores festas do mundo é o carnaval. Mas está tão profissionalizado que ensaiam semanalmente para colocar dentro do processo de organização duas mil pessoas para uma apresentação. Hoje, no futebol mundial, cada vez mais se joga. Como buscar qualificação se, na hora em que está jogando, se deveria treinar? O fato de não poder trocar jogador o tempo todo gera desgaste necessário para zerar em 48 horas, não para ter energia para um novo jogo de qualidade. Por isso, é preciso trabalhar muito bem a organização do treinamento. Quem não souber trabalhar, o mercado vai limando. Hoje, no Brasil, não se preza pela qualificação, mas pela massificação do espetáculo.
O acha do boom de técnicos estrangeiros?
O milagre está acontecendo? A diferença é a síndrome do vira-lata, em que tudo o que é de fora é melhor. Em qualquer profissão, não é onde nasceu que determina qualidade. Há os bons, os médios e os ruins. Às vezes, os bons não conseguem realizar porque a harmonia local acaba conduzindo o rumo do trabalho, não só na parte técnica e tática. Os resultados não vão acontecendo, e muda gestão de grupo, mentalidade do clube em si, do torcedor. Antes, é preciso plantar. E demanda tempo para atingir os encaixes. O Liverpool do Klopp demorou quatro anos sem ganhar para chegar ao estágio a que chegou. Os resultados evoluíram. O final só foi atingido depois. Quando veio, passou o rodo.
Por falar em estrangeiro, Carlo Ancelotti deve levar Neymar para a Copa?
O Neymar recuperado, em um nível de competitividade que a gente o conheceu, é burrice não levar. No estágio em que ele está, ou vai estar, e como o Ancelotti pensa a seleção, é que ele vai perceber se vale levar ou não. Não tem só o jogo dentro do campo. Tem o que vai trazer ou tirar de pressão, de confiança, o quanto vai contribuir se não estiver jogando, se vai ter ficar um bom tempo sem jogar, se o estágio físico atual for desequilibrante...
Como faz para se manter saudável na rotina do futebol?
Tem uma via mais espiritual, suas missões, no que acredita, a diretriz profissional, o que te traz felicidade... Mas tem que ter noção de que precisa ser capacitado. As pessoas mudam, os valores mudam. Os nossos valores não são os dos nossos filhos. Tem que ir assimilando, através de estudo, convivência, busca por informação. Não pode se limitar a viver o mundinho da bola. O Guto do Bahia não é o mesmo de hoje. Sou mais maduro, com ideias ainda mais progressistas. Sempre tive um pouco de vanguarda. E hoje eu busco isso dentro do possível. Não sei se é isso mesmo ou se estou encostando em quem veio na frente. Queremos estar junto de pessoas. Impossível o treinador gerir tudo e estar no meio do campo dando treino. Se estiver, não vê metade do que acontece. A responsabilidade é enxergar o todo e gerir. Através do diálogo, direcionar.
Guto Ferreira / técnico do vila nova