A ia que te atende quando você liga para o consultório médico
Quinze anos após fundar a rede de clínicas populares Dr.Consulta, Thomaz Srougi quer ...
Quinze anos após fundar a rede de clínicas populares Dr.Consulta, Thomaz Srougi quer "colocar as clínicas em piloto automático" " não só as suas, mas qualquer uma. O empresário está à frente da Carecode, startup que usa inteligência artificial generativa, em texto e áudio, para gerenciar todo o relacionamento entre pacientes e consultórios, de marcações e "encaixes" às instruções de um pós-operatório. Por trás do negócio está a tese de que há muito doutor sem agenda cheia simplesmente porque entrar em contato com ele é um parto.
" De cada dez pacientes que procuram uma clínica, só três vão à consulta, seja porque não conseguem marcar, seja porque esquecem que marcaram ou porque o atendimento demorou demais. Demanda não é o problema para os médicos, mas, sim, esses "furos nos baldes". A solução que a gente propõe é uma IA conversacional que opera 24 horas por dia, sete dias por semana, e consegue falar com milhares de pacientes ao mesmo tempo " explica Srougi.
A Carecode interage com os pacientes por WhatsApp, mensagens de Instagram ou voz. Por usar IA generativa " essencialmente, os modelos da OpenAI e da Anthropic, criadoras do ChatGPT e do Claude, respectivamente ", o sistema entende e responde em linguagem natural. Se o paciente liga para o telefone da clínica que usa a tecnologia da startup, por exemplo, ele conversa com a IA como se estivesse falando com um call center. (As vozes dos robôs são customizáveis, inclusive o sotaque.) No WhatsApp e no Instagram, o paciente pode enviar textos ou áudios.
" A resposta imediata é um dos pontos mais sensíveis que a tecnologia dos LLMs (sigla em inglês para grandes modelos de linguagem) nos permite atacar. Uma recepcionista humana não consegue falar com cinco pacientes ao mesmo tempo nem responder automaticamente " afirma o empresário, que, embora seja acionista e presidente do conselho da Dr.Consulta, não toca mais o dia a dia da empresa.
A tecnologia da Carecode entrou em operação em agosto passado e é usada por 30 clínicas, que Srougi define como "grandes clínicas, consultórios médicos e pequenos hospitais early adopters, que já têm alguma fluência em IA". A própria Dr.Consulta, claro, faz parte da clientela, e já há uma rede de clínicas no México usando a ferramenta, segundo o CEO. O foco daqui para frente é a cauda longa de clínicas e consultórios que sofrem na hora de se relacionar com os pacientes.
Diferentemente do modelo conhecido como SaaS " software as a service, pelo qual se paga uma assinatura pelo uso de uma plataforma ", a Carecode preferiu adotar o modelo de outras IAs conversacionais, cobrando por conversas realizadas. Há também a possibilidade de se pagar uma assinatura mensal por cada médico da clínica. Srougi não informa um tíquete médio exato, mas sustenta que "duas consultas adicionais geradas pelo sistema já pagam o uso".
" Quando você coloca as clínicas em piloto automático, as secretárias e os médicos preenchem menos papelada, e você dobra ou triplica a capacidade de atendimento " defende.
Do outro lado do balcão, a ferramenta dá à clínica uma plataforma de gestão conversacional, que permite ao médico, por exemplo, enviar um áudio pedindo ao sistema para cancelar a agenda do dia seguinte.
Antes de ter uma tese, a startup nasceu com um cheque. Ainda em 2024, Srougi e Pedro Magalhães " ex-Zé Delivery que foi cofundador da Carecode, mas que não está mais no negócio " receberam um aporte de US$ 4,3 milhões junto a investidores de peso do Vale do Silício para explorar o uso de novas tecnologias na saúde. A estratégia era capturar a demanda crescente no setor diante do envelhecimento acelerado da população.
Entre os investidores estavam a a16z, gestora de Marc Andreessen (fundador do Netscape), e a QED, que investiu em companhias brasileiras como QuintoAndar e Creditas. Além de gestoras, também entrou uma série de investidores-anjos, entre eles David Vélez, fundador do Nubank.
Nesses meses de atuação, a Carecode diz já ter processado quase um milhão de mensagens. Questionado sobre os riscos de "alucinação" e eventuais desvios éticos que volta e meia surgem nas interações com IAs generativas, o fundador diz que a startup toma precauções.
" A alucinação não é mais um problema, de forma geral, e a gente trabalha com regras bem definidas. A gente define temas proibidos, sobre os quais a tecnologia não conversa, como política, religião, esportes e informações sobre diagnósticos. E também é importante sempre haver seres humanos envolvidos no processo, para lidar com o transbordo de casos que requeiram intervenção " explica.
Segundo ele, 20% das interações exigem intervenção humana, seja porque entraram em assuntos proibidos, seja porque o paciente pediu. Srougi sustenta que a recomendação da Carecode às clínicas é que elas informem que as conversas são realizadas por uma IA, mas isso fica a critério delas.