Sábado, 04 de Abril de 2026

A ia que te atende quando você liga para o consultório médico

BrasilO Globo, Brasil 4 de abril de 2026

Quinze anos após fundar a rede de clínicas populares Dr.Consulta, Thomaz Srougi quer ...

Quinze anos após fundar a rede de clínicas populares Dr.Consulta, Thomaz Srougi quer "colocar as clínicas em piloto automático" " não só as suas, mas qualquer uma. O empresário está à frente da Carecode, startup que usa inteligência artificial generativa, em texto e áudio, para gerenciar todo o relacionamento entre pacientes e consultórios, de marcações e "encaixes" às instruções de um pós-operatório. Por trás do negócio está a tese de que há muito doutor sem agenda cheia simplesmente porque entrar em contato com ele é um parto.
" De cada dez pacientes que procuram uma clínica, só três vão à consulta, seja porque não conseguem marcar, seja porque esquecem que marcaram ou porque o atendimento demorou demais. Demanda não é o problema para os médicos, mas, sim, esses "furos nos baldes". A solução que a gente propõe é uma IA conversacional que opera 24 horas por dia, sete dias por semana, e consegue falar com milhares de pacientes ao mesmo tempo " explica Srougi.
A Carecode interage com os pacientes por WhatsApp, mensagens de Instagram ou voz. Por usar IA generativa " essencialmente, os modelos da OpenAI e da Anthropic, criadoras do ChatGPT e do Claude, respectivamente ", o sistema entende e responde em linguagem natural. Se o paciente liga para o telefone da clínica que usa a tecnologia da startup, por exemplo, ele conversa com a IA como se estivesse falando com um call center. (As vozes dos robôs são customizáveis, inclusive o sotaque.) No WhatsApp e no Instagram, o paciente pode enviar textos ou áudios.
" A resposta imediata é um dos pontos mais sensíveis que a tecnologia dos LLMs (sigla em inglês para grandes modelos de linguagem) nos permite atacar. Uma recepcionista humana não consegue falar com cinco pacientes ao mesmo tempo nem responder automaticamente " afirma o empresário, que, embora seja acionista e presidente do conselho da Dr.Consulta, não toca mais o dia a dia da empresa.
A tecnologia da Carecode entrou em operação em agosto passado e é usada por 30 clínicas, que Srougi define como "grandes clínicas, consultórios médicos e pequenos hospitais early adopters, que já têm alguma fluência em IA". A própria Dr.Consulta, claro, faz parte da clientela, e já há uma rede de clínicas no México usando a ferramenta, segundo o CEO. O foco daqui para frente é a cauda longa de clínicas e consultórios que sofrem na hora de se relacionar com os pacientes.
Diferentemente do modelo conhecido como SaaS " software as a service, pelo qual se paga uma assinatura pelo uso de uma plataforma ", a Carecode preferiu adotar o modelo de outras IAs conversacionais, cobrando por conversas realizadas. Há também a possibilidade de se pagar uma assinatura mensal por cada médico da clínica. Srougi não informa um tíquete médio exato, mas sustenta que "duas consultas adicionais geradas pelo sistema já pagam o uso".
" Quando você coloca as clínicas em piloto automático, as secretárias e os médicos preenchem menos papelada, e você dobra ou triplica a capacidade de atendimento " defende.
Do outro lado do balcão, a ferramenta dá à clínica uma plataforma de gestão conversacional, que permite ao médico, por exemplo, enviar um áudio pedindo ao sistema para cancelar a agenda do dia seguinte.
Antes de ter uma tese, a startup nasceu com um cheque. Ainda em 2024, Srougi e Pedro Magalhães " ex-Zé Delivery que foi cofundador da Carecode, mas que não está mais no negócio " receberam um aporte de US$ 4,3 milhões junto a investidores de peso do Vale do Silício para explorar o uso de novas tecnologias na saúde. A estratégia era capturar a demanda crescente no setor diante do envelhecimento acelerado da população.
Entre os investidores estavam a a16z, gestora de Marc Andreessen (fundador do Netscape), e a QED, que investiu em companhias brasileiras como QuintoAndar e Creditas. Além de gestoras, também entrou uma série de investidores-anjos, entre eles David Vélez, fundador do Nubank.
Nesses meses de atuação, a Carecode diz já ter processado quase um milhão de mensagens. Questionado sobre os riscos de "alucinação" e eventuais desvios éticos que volta e meia surgem nas interações com IAs generativas, o fundador diz que a startup toma precauções.
" A alucinação não é mais um problema, de forma geral, e a gente trabalha com regras bem definidas. A gente define temas proibidos, sobre os quais a tecnologia não conversa, como política, religião, esportes e informações sobre diagnósticos. E também é importante sempre haver seres humanos envolvidos no processo, para lidar com o transbordo de casos que requeiram intervenção " explica.
Segundo ele, 20% das interações exigem intervenção humana, seja porque entraram em assuntos proibidos, seja porque o paciente pediu. Srougi sustenta que a recomendação da Carecode às clínicas é que elas informem que as conversas são realizadas por uma IA, mas isso fica a critério delas.
La Nación Argentina O Globo Brasil El Mercurio Chile
El Tiempo Colombia La Nación Costa Rica La Prensa Gráfica El Salvador
El Universal México El Comercio Perú El Nuevo Dia Puerto Rico
Listin Diario República
Dominicana
El País Uruguay El Nacional Venezuela