Brilhando ao falar da língua, gregorio duvivier celebra o ‘lindíssimo português’
Você há de convir que falar sobre a língua portuguesa e suas nuances, com ...
Você há de convir que falar sobre a língua portuguesa e suas nuances, com todos os regramentos e peculiaridades que a definem, não é um assunto dos mais populares. Mas o carioca Gregorio Duvivier, que daqui a alguns dias celebrará 40 anos de vida, tem, com muito talento, atraído cada vez mais gente para sua peça "O céu da língua", que passará por São Paulo e Belo Horizonte agora em abril, até voltar para o Rio, a partir do dia 30, no Teatro Casa Grande, para nova temporada carioca. Desde que estreou em Portugal, em novembro de 2024, a peça já foi vista por mais de 250 mil espectadores.
Formado em Letras pela PUC-Rio, o grande artista brasileiro sempre faz questão de exaltar sua paixão pelas palavras. Ele, aliás, pede licença para discordar de um dos grandes da nossa literatura, o pernambucano Ariano Suassuna, um histórico defensor da língua nacional em detrimento de estrangeirismos, em especial do inglês.
Para Duvivier, são as "contaminações" do português que o fazem tão belo. "Gosto muito do Ariano Suassuna, mas não concordo com o seu protecionismo linguístico. A língua portuguesa é lindíssima justamente por suas contaminações. Falamos uma língua bastarda, como todas as outras. Mas a nossa é especial pela diversidade: temos tupi, quimbundo, cigano, árabe e iídiche. É um caldo muito rico. Não vejo por que excluir o inglês dessa equação. Desde que o inglês seja mal falado, claro. O que não pode é falar bem: scanner, não. Aqui é ‘ixcâner’", brinca o carioca.
Sobre as diferenças do que é falado por portugueses e brasileiros, o carioca tem uma visão técnica a respeito. "‘O brasileiro é o português à solta’, disse o filósofo e poeta português Agostinho da Silva (1906-1994), e isso se manifesta fonologicamente. Somos mais vocálicos, e os portugueses, mais consonantais " a vogal é o som solto; a consoante, o som preso. Mas gosto demais de uma diferença que eles fazem entre o ã e o a. ‘Gostamos’, no presente, é diferente de ‘gostámos’, no passado. Assim como o ‘à’ craseado deles é mais aberto " caso único em que eles abrem mais que a gente", explica.
Durante a peça, é comum ver Gregorio declamando poesias, arte que sempre o atraiu. Ele, aliás, chama atenção para os grandes letristas da música brasileira, como Orestes Barbosa e Caetano Veloso, dizendo que eles "conseguiram realizar o sonho de Oswald de Andrade de levar poesia para as massas".
Pois, a pedido da coluna, ele listou algumas músicas da MPB que são, na sua opinião, "poesia pura". Veja: "A rosa", de Chico Buarque e Djavan; "Dois bombons e uma rosa", de Aldir Blanc; "Conversa de botequim", de Noel Rosa; "Beradêro", de Chico César; "Dia útil", de Maurício Pereira; "Telefonista da novela predial", de Lula Queiroga; "Dia branco", de Geraldo Azevedo; "Jardins da Babilônia", de Rita Lee; "Procissão", de Gilberto Gil; "Joquempô", de Vinicius Calderoni.
Em tempo...
Veja o que diz o poeta, ensaísta e tradutor Paulo Henriques Britto, eleito, em 2025, para a Academia Brasileira de Letras (ABL), sobre seu ex-aluno: "Gregorio foi da minha oficina de poesia, numa das primeiras turmas de criação literária na PUC, há pouco mais de 20 anos. Seu talento poético se evidenciou de imediato, mas, como era um aluno discreto, até tímido, eu não imaginava que ele se revelaria um ator extraordinário". Maravilha.
Nelson Lima Neto