Acesso facilitado ao cartão sem educação financeira agrava problema
O aumento do uso das linhas de crédito mais caras " cujo acesso foi facilitado pelas ...
O aumento do uso das linhas de crédito mais caras " cujo acesso foi facilitado pelas fintechs " é apontado por especialistas como um fator decisivo na alta do endividamento e do comprometimento da renda, mesmo com salários em alta nos últimos anos.
Só o montante financiado no rotativo do cartão de crédito (quando o titular paga parte da fatura e soma o restante à próxima, com juros) cresceu 32,7% nos 12 meses encerrados em fevereiro, a maior expansão entre linhas do crédito livre para pessoas físicas. É a modalidade mais cara, com juros de 15% ao mês ou 435% ao ano, mas muito usada para fechar as contas das famílias.
A designer Taisa Alcantara, de 28 anos, começou a acumular dívidas no cartão quando se mudou para São Paulo, em 2022. Em junho do ano seguinte, devia R$ 2.614. Em fevereiro de 2025, a dívida em aberto já superava R$ 26 mil.
" Resolvemos tentar a vida lá sem uma reserva financeira. Fui sem emprego e, nesse meio tempo, meu cartão estourou. Meu marido já estava com o nome sujo " conta.
Taisa tinha outras dívidas e fez novos empréstimos no nome do sogro para pagá-las, mas acabou deixando a fatura do cartão de lado. Já recebeu proposta de desconto e parcelamento, mas espera oferta melhor enquanto se reorganiza:
" Há um ano, consegui retomar o controle. Tenho tudo em planilha e aos poucos estou me livrando das dívidas. A prioridade é pagar meu sogro, as dívidas do meu marido e, por último, limpar meu nome.
Porta de entrada
Um dos autores do estudo do FGVcemif, o professor de Finanças Rafael Schiozer diz que, nas faixas de renda mais baixas, a inclusão no setor bancário nos últimos anos se deu majoritariamente pelo cartão de crédito, cuja oferta tem sido "menos discriminada", principalmente nos bancos digitais:
" As pessoas que têm mais cartões estão mais endividadas. Poderia ser demanda, mas parece mais um problema de oferta. Quem está ofertando está fazendo de maneira menos discriminada " avalia Schiozer, ressaltando que a democratização do crédito é positiva, mas precisa de um ajuste qualitativo e iniciativas de esclarecimento sobre as condições que poderiam vir das próprias instituições financeiras. " É preciso dar mais informação na concessão do limite.
Viviane Fernandes, pesquisadora do Instituto de Defesa do Consumidor (Idec), identifica uma oferta indiscriminada de produtos financeiros ruins. Por isso, ela não vê sentido num novo Desenrola, cujo impacto diz não ser claro.
" Falta acompanhamento. Não é que a pessoa não saiba gerir seu orçamento. Ela recebe tanta oferta de crédito, com cheque especial, cartão, consignado CLT, Pix Parcelado, que, em algum momento, vira a vítima perfeita. Se estou precisando, vou usar. Se contratei e não entendi, saio prejudicada " diz. " Precisamos pensar nas causas, regular a oferta indiscriminada de crédito.