‘A carreira foi colocada em primeiro lugar, antes do filho’
Entrevista
Entrevista
Laurena Magnoni foge ao perfil mais comum entre grandes executivos no país. Mulher, sexagenária e paraibana, ela lidera a Besins Healthcare, farmacêutica especializada em saúde hormonal. Para a executiva, os tratamentos para menopausa deixaram de ser um nicho e se tornaram vetores de crescimento dentro da indústria farmacêutica. Além disso, têm impacto direto sobre a produtividade feminina, um tema cada vez mais relevante em um país que envelhece rapidamente. A empresa está presente em 20 países e aumentou em 40% as vendas no ano passado. A companhia chegou ao Brasil em 2010. Hoje, o país é um dos seus principais mercados.
O que explica o rápido crescimento do mercado de terapias hormonais nos últimos anos?
Primeiramente, pelo envelhecimento da população. Depois da pandemia, as pessoas passaram a se cuidar mais. Além disso, elas têm mais acesso à informação e se cuidam mais. No caso da necessidade de reposição hormonal, tanto feminina como masculina, é mais ou menos o mesmo que aconteceu com a academia. Ninguém pensava em se cuidar. Hoje vemos cada dia mais pessoas praticando esportes.
Qual o potencial de crescimento desse mercado?
É um mercado de mais de US$ 18,85 bilhões no ano, no mundo inteiro, segundo o Data Bridge Market Research. Podemos chegar até US$ 30,5 bilhões até 2032. No Brasil, são 30 milhões de mulheres que se encontram na faixa etária do climatério e menopausa. No privado e no público, existe um potencial muito grande. Ainda temos um caminho pela frente para tratar essas pessoas. A idade média da menopausa no Brasil é de 48 anos, idade em que muitas mulheres estão no auge da carreira profissional.
Qual seria o impacto social e econômico de ampliar o acesso a essas terapias?
Quantas mulheres seriam produtivas se tivessem sido tratadas no passado? Eu me sinto responsável em passar esse conhecimento como gerente-geral da companhia no Brasil, porque eu sou uma mulher de 63 anos, menopausada, e me trato há mais de 15 anos. É um tema, mas não temos dados. Há uma escassez de dados sobre a produtividade da mulher no mercado, mas meu feeling é que nós teríamos um número maior de mulheres em condição produtiva se elas tivessem sido tratadas. Tenho certeza que outras Laurenas existiriam se tivessem a mesma oportunidade que eu tive.
Por que o mercado de produtos para a saúde feminina está mais desenvolvido?
Há uma conscientização da classe médica e dos pacientes. A mulher, desde pequena, procura o médico. Além disso, foi quebrado aquele tabu de se falar "eu estou na menopausa, eu sou uma mulher menopausada". As mulheres falam da menopausa sem tabu. Além disso, alguns anos atrás, caiu o estudo WHI, que relatou maior risco de câncer de mama por conta de terapias hormonais. Isso foi desmentido.
Por que a parcela masculina nas vendas é pequena?
A mulher tem o cuidado da saúde como rotina. O homem procura o urologista já para cuidar e tratar câncer de próstata. Ele não vai jovem, não começa a ir ao médico na adolescência, como faz a mulher. Só que esse jogo também está virando. O mesmo aconteceu em relação à dermatologia. Os homens não falam numa boa dos problemas sobre seus problemas: é uma questão de tempo. Estamos no caminho.
Ainda é tabu falar sobre menopausa?
Falta ainda... Temos muitas pessoas falando sobre isso, mas falta uma base maior de pessoas (tratando do assunto publicamente). Nem todas as mulheres têm todos os sintomas. Pode ser que uma tenha sintomas diferentes de outras. Existem sintomas da menopausa que são desconhecidos dentro do processo de autoconhecimento da mulher. Tem muita informação que precisamos passar para nossos pacientes. E não é só tomar hormônio, a mulher precisa ter o cuidado geral com a saúde.
A área de fertilidade está crescendo em ritmo menor do que o tratamento para menopausa?
Está diminuindo o número de nascidos vivos. As mulheres querem trabalhar. Não querem ter filhos cedo e estão buscando o congelamento de óvulos que aumentou. Sim (a idade média de quem procura tratamento de fertilidade aumentou). É um mercado menor. A carreira foi colocada em primeiro lugar, antes do filho, que a mulher agora deixa para ter aos 40 anos, 40 e poucos anos. A área de fertilidade cresce, mas não igual à de menopausa.
Como a diversidade deve impactar a cultura corporativa?
Enxergo a diversidade como uma vantagem competitiva, como uma melhora na qualidade das decisões. Deve integrar a estratégia das empresas, como parte do repertório para melhorar as decisões.
Quais mudanças concretas as empresas precisam adotar para acelerar essa transformação?
Primeiro, é educação. Precisamos ter um ambiente aberto à cultura e ao acolhimento. Temos que tirar esse estigma da maternidade. A mulher passar pela maternidade não é um problema e temos que falar mais sobre isso.
Laurena Magnoni / ceo da Besins Healthcare brasil