Com temor de ataque russo, polônia amplia forças armadas e já lidera gastos na otan
Estado de alerta
Estado de alerta
A pesquisadora Maria Piechowska, que trabalha no Instituto Polonês de Assuntos Internacionais (Pism, na sigla original), já se habituou a ser consultada sobre uma pergunta que muitos poloneses se fazem desde que a Rússia invadiu a Ucrânia, em 24 de fevereiro de 2022: "Quanto tempo demorará para que o líder russo, Vladimir Putin, ordene um ataque a nosso país?" A resposta dada pela pesquisadora é sempre a mesma: "Temos de estar preparados." Em teatros de Varsóvia, imagens de Putin aparecem ao lado de Adolf Hitler. Para Piechowska, não é exagero.
" Entendemos a dimensão da ameaça.
Nas ruas da capital polonesa, pessoas como Hanna, uma professora de História no ensino médio, respondem que "sim" quando perguntadas sobre o risco de um ataque russo.
" Sabemos que é possível, faz parte da nossa realidade " lamenta a professora, durante uma excursão com seus alunos pelo centro da cidade, na qual falou sobre a destruição de Varsóvia na Segunda Guerra e o longo período de reconstrução da cidade.
Entre 1939 e 1945, cerca de 90% dos prédios históricos, incluídas as igrejas, foram arrasados. Num breve passeio pela cidade, é possível ver diversas menções ao período e, também, admirar a capacidade de resiliência do país. Ressurgir das cinzas é uma expressão comum na Polônia, assim como "não se repetirá".
Embora tenham divergências, o presidente Karol Nawrocki, do partido conservador PiS, e o primeiro- ministro Donald Tusk, líder da Plataforma Cívica (de centro-direita), ambos formados em História, concordam em dar total prioridade à defesa nacional.
Trauma latente
Nos últimos anos, a Polônia mergulhou num processo de fortalecimento das Forças Armadas que já exibe resultados surpreendentes: dados do Instituto Internacional de Pesquisa da Paz de Estocolmo (Sipri, na sigla em inglês) e da Otan (aliança militar liderada pelos EUA) colocam o país como a maior força convencional terrestre da União Europeia (UE). Dentro da Otan, a Polônia tem hoje o terceiro maior Exército, superado apenas por EUA e Turquia, confirma Zbigniew Pisarski, diretor da Fundação Casimir Pulaski, especializada em defesa e encarregada de organizar anualmente o Fórum de Defesa de Varsóvia.
O objetivo das autoridades polonesas é que o país, que nos últimos anos viveu uma enorme transformação econômica e hoje recebe imigrantes de vários países do mundo, até mesmo da América Latina, transforme-se numa potência militar capaz de inibir até mesmo a Rússia.
A Polônia passou a ter mais soldados, muros eletrificados em sua fronteira com a Ucrânia (de 530 quilômetros), trincheiras, um programa de "Educação para a Segurança Nacional" " disciplina obrigatória nas escolas desde 2022 que inclui treinamento básico com armas " e acelerou a compra de armamentos com fornecedores como Coreia do Sul e EUA. A Embraer, confirmaram fontes diplomáticas, tem a expectativa de vender aviões militares para a Polônia.
Segundo o Sipri, o país respondeu por 3,6% das importações globais de armamentos entre 2021 e 2025, ocupando a sétima posição no ranking mundial e a primeira entre os países da Otan. O volume de importações militares no período foi 852% superior ao registrado entre 2016 e 2020. Entre 2021 e 2026, segundo projeções, o Orçamento de Defesa da Polônia passará de 2,2% do PIB para 4,8%, o mais alto entre membros da Otan.
Num país que foi destruído pela Alemanha nazista " e no qual o trauma dessa destruição ainda está muito presente " o medo é um sentimento latente. Após o início da guerra entre Rússia e Ucrânia, a fundação de Pisarski passou a manter estreita colaboração com parceiros ucranianos e, em consequência, foi alvo de sanções por parte da Rússia.
" Já estamos em guerra com a Rússia. Não no campo de batalha, mas como alvo de campanhas de desinformação, espionagem, ataques cibernéticos e incêndios intencionais " afirma.
De acordo com dados da fundação, o Exército polonês passou de 130 mil soldados, em 2022, a 216 mil no ano passado. A meta é chegar a 300 mil nos próximos anos. Numa Polônia que cresceu 3,6% em 2025, superando a média da UE (1,5%), os salários pagos aos militares foram considerados competitivos por analistas ouvidos pela reportagem. Um jovem soldado polonês ganha em torno do equivalente a R$ 6 mil mensais, razoável para uma pessoa que inicia a vida adulta.
" O interesse pela carreira militar está aumentando " comenta Piechowska.
pouca confiança nos eua
Para a pesquisadora do Pism, a maioria dos poloneses entende que Putin representa uma ameaça, "e essa compreensão atravessa todas as gerações". Na Polônia, há a ideia de que, pela História passada e pelo presente, a maior ameaça ao país sempre foram os vizinhos.
Com um governo que vive em permanente estado de alerta, cresce a convicção de que, no caso de um eventual ataque russo, o país precisa ter recursos para se defender, independentemente da possibilidade de receber ajuda de aliados como os EUA. Segundo Paul Balawajder, pesquisador do Pism, pesquisas indicam que 60% dos poloneses não confiam em Donald Trump.
" Entre apoiadores do primeiro-ministro, o percentual chega a 90%. Os poloneses acreditam que Trump é instável " frisa Balawajder.
Na noite de 9 de setembro de 2025, a Polônia abateu 19 drones russos que, segundo denunciou o governo, violaram de forma inédita seu espaço aéreo. O episódio elevou de forma expressiva o nível de preocupação do governo e da sociedade. No final do ano passado, as autoridades enviaram a todas as casas do país um manual sobre o que fazer em caso de um ataque militar.
" Não temos vulcões, nem somos um país que sofre catástrofes naturais. Nossos vizinhos são historicamente a ameaça ao país " diz o jornalista Pawel Lepkowski, editor do Rzeczpospolita ("República", em polonês), um dos jornais mais tradicionais do país.
O governo também avança em temas como o desenvolvimento da energia nuclear. O programa nuclear polonês prevê a construção de 6 GW a 9 GW de capacidade instalada até meados da década de 2040, com a meta de que a energia nuclear chegue a representar cerca de 30% da geração elétrica nacional.
Num país que muda de prioridades à medida que a guerra no país vizinho vai mudando de contornos, hoje um dos focos é fortalecer sistemas antidrones. Após o ataque de 2025, o Ministério da Defesa assinou um contrato com um consórcio, que reúne fabricantes poloneses e estrangeiros, para adquirir os equipamentos necessários para implementar o sistema antidrones SAN, considerado o quarto pilar do sistema de defesa.
construção de abrigos
Também está na lista de objetivos dos próximos meses a construção de abrigos. A Finlândia é vista como exemplo. O país, cuja fronteira com a Rússia tem mais de 1.300 quilômetros, tem cerca de 50 mil abrigos, com capacidade para proteger uma população de 5,5 milhões de habitantes.
" Não imagino uma invasão russa, mas, sim, um ataque. Temos de estar preparados para dificuldades logísticas que podem durar dias ou semanas. É impossível saber " conclui Piechowska.
*A repórter viajou a convite do Aleph Group