Domingo, 26 de Abril de 2026

A tia de todas as reformas

BrasilO Globo, Brasil 26 de abril de 2026

Gustavo Franco

Gustavo Franco
De todas as reformas que o país vem discutindo nos últimos anos, com as tranqueiras que se conhece, a mais transcendente e, talvez por isso mesmo, a que registrou menos avanços, é a da abertura.
Era para ser a mãe, ou a rainha de todas as reformas pró-mercado. Uma opção definidora. Mas como não andou como as outras, as quais também não foram assim tão ousadas, o Brasil ficou muito para trás.
A Ásia surfou a onda da globalização, da qual o Brasil resolveu se afastar, preferindo a substituição de importações e a busca da autossuficiência. Não foi uma boa estratégia.
A Coreia do Sul, por exemplo, tinha renda per capita parecida com a do Brasil em 1980, na faixa do equivalente a 15% da renda per capita dos EUA. Em 2017, o Brasil chegou a 16,5%, mas a Coreia do Sul ficou rica, chegando a 53%.
Perdemos esse bonde, simples assim.
E agora?
Um dos legados importantes dessa nossa estratégia de "fechadura" foi trazer para dentro do país as empresas estrangeiras que ficaram impedidas de exportar para o Brasil. O capital estrangeiro veio para dentro de casa.
Em outras palavras, mais técnicas, o investimento direto estrangeiro substituiu o comércio exterior. E o fez em uma escala que talvez apenas tenha se tornado visível nos anos 1990, quando o Banco Central do Brasil (BCB) passou a publicar, a cada cinco anos, os resultados de um Censo para o Capital Estrangeiro no Brasil.
O BCB coleta informações contábeis de todas as empresas com participação estrangeira operando no Brasil. Em 2020, pouco mais de 17 mil empresas com mais de 10% de participação acionária estrangeira responderam ao questionário do censo1.
Essas empresas empregavam exatas 2.990.035 pessoas em 2020, equivalente a cerca de 3,2% da população ocupada, e produziam o equivalente a 35% do PIB brasileiro. O peso desses números é impressionante: os outros trabalhadores ocupados (96,8% do total) produziram os outros 65% do PIB. Fazendo as contas, o diferencial de produtividade entre uma pessoa trabalhando para o grupo do censo e outra empregada em outras empresas é de dezessete vezes.
Antigamente se dizia que o desenvolvimento econômico consistia em transferir trabalhadores do setor atrasado (naqueles tempos heroicos era o agro) para a indústria. Pois é. A mesma tese transplantada para hoje seria a de transferir pessoas do Brasil fechado para o Brasil internacionalizado, onde a produtividade do trabalhador é dezessete vezes maior.
Essa é a pauta da abertura.
(1) Os resultados podem ser consultados em bcb.gov.br/publicacoes/relatorioid
La Nación Argentina O Globo Brasil El Mercurio Chile
El Tiempo Colombia La Nación Costa Rica La Prensa Gráfica El Salvador
El Universal México El Comercio Perú El Nuevo Dia Puerto Rico
Listin Diario República
Dominicana
El País Uruguay El Nacional Venezuela