Merck: otimismo com brasil e hub de ‘bioimpressão’ no rio
Em sua primeira visita ao Brasil desde que assumiu a divisão de Life Science do ...
Em sua primeira visita ao Brasil desde que assumiu a divisão de Life Science do conglomerado alemão Merck, há cerca de um ano, o francês Jean-Charles Wirth prevê que o país "será um dos maiores mercados farmacêuticos do mundo daqui a cinco anos". Depois de reforçar sua infraestrutura logística no Brasil, o CEO quer estreitar os laços com a comunidade científica local " inclusive com um novo centro de pesquisa em "bioimpressão" 3D no Rio.
O executivo tem um ponto de observação privilegiado. Ele comanda a divisão de maior faturamento dentro de um grupo que vale quase R$ 300 bilhões na Bolsa de Frankfurt e que fabrica de medicamentos a cristais para telas de smartphones. A companhia existe há 358 anos " foi fundada antes mesmo do nascimento de Bach, por exemplo.
O braço de Life Science vende produtos como sistemas de purificação de água para laboratórios e até ferramentas de edição de genoma. No ano passado, faturou € 9 bilhões. A América Latina representa apenas 4% da divisão no mundo, mas é a região que cresce mais rápido: avançou 8,2%, o dobro do segmento globalmente. Segundo Wirth, o Brasil responde por cerca de metade do resultado da região " ou seja, a Merck teria faturado algo como R$ 1 bilhão com Life Science no Brasil em 2025.
" O Brasil é um país estratégico para a gente, e operamos aqui há mais de um século, desde 1923. Será um dos maiores mercados farmacêuticos do mundo. Vocês têm universidades fortes, cientistas qualificados, capacidades produtivas necessárias e estão avançando em segmentos como (medicamentos) biossimilares. Por isso, continuaremos a investir no Brasil daqui para frente " afirma o CEO.
Segundo a consultoria IQVIA, uma das referências do segmento, o Brasil era, em 2024, o décimo maior mercado farmacêutico do mundo. Wirth não dá um número, mas está convencido de que o país tende a ganhar posições.
Nos últimos dois anos, a Merck investiu € 20 milhões para dobrar o tamanho de seu centro de distribuição logística em Cajamar (SP). Segundo o CEO, a infraestrutura é "uma das cinco melhores" da companhia ao redor do mundo. Wirth afirma que, depois dos choques logísticos da pandemia e diante dos novos entraves tarifários, a Merck adotou uma estratégia "região a região" e, assim, investimentos em ativos como esse ganharam importância.
" Se você pensar no ecossistema logístico global, hoje somos capazes de lidar melhor com conflitos geopolíticos justamente por adotarmos essa estratégia regionalizada. E é por isso que investimos esses € 20 milhões em logística no Brasil " explica.
Outra perna da estratégia para o Brasil é a colaboração com a academia. Nos próximos meses, a companhia vai investir em um hub de bioimpressão 3D dentro da incubadora de startups da UFRJ. A ideia é viabilizar a colaboração entre indústria e academia em áreas como biotintas e testes de medicamentos em organoides " tecnologia que cria, em laboratório, versões miniaturizadas de órgãos humanos a partir de células-tronco.
A estratégia é usar a bioimpressão e organoides para desenvolver fármacos e terapias. O hub será aberto a startups, indústrias e grupos de pesquisa que atuem no tema de bioimpressão.
A Merck vem apostando alto nesse tipo de tecnologia. No começo do ano passado, fechou a compra da companhia holandesa HUB Organoids, uma das pioneiras do filão no mundo. A iniciativa com a UFRJ vai disponibilizar cursos virtuais com especialistas da HUB Organoids.
" Essa aquisição está nos permitindo ampliar os tipos de desenvolvimento e prototipagem para engenharia de tecidos, bioimpressão e cultura celular 3D. É uma tecnologia fantástica, os cientistas adoram, porque acelera a pesquisa. Nossa estratégia é expandir essas tecnologias a partir de pequenas startups da Europa para o restante do mundo. Dada a base sólida de ciência no Brasil, procuramos firmar essa parceria no Rio " afirma o CEO.
Os cariocas têm relação estreita com a Merck desde os anos 1930, quando o grupo abriu sua primeira fábrica no país, no bairro do Andaraí. Há 50 anos, a produção se mudou para um novo complexo em Jacarepaguá " que é sua fábrica brasileira até hoje e virou até nome de estação de BRT. A unidade, porém, fica fora da divisão de Life Science, sendo dedicada à fabricação de medicamentos como o Glifage, para diabetes. Há quatro anos, a companhia concluiu um investimento de R$ 125 milhões na fábrica.
No hub da UFRJ, a companhia estabeleceu algumas metas para os próximos cinco anos, entre elas a prospecção de pelo menos oito parcerias a partir da iniciativa, duas transferências de tecnologia e cinco startups criadas.
Não é a primeira colaboração da Merck com universidades locais. Em 2021, o segmento de Life Science firmou parceria com a Universidade Federal de Goiás (UFG) para a criação de um centro de inovação que, segundo Wirth, viabilizou o primeiro teste rápido de hanseníase ofertado gratuitamente na rede pública no mundo.