‘Maioria quer saber quais músicas são feitas por ia’
Entrevista
Entrevista
No ano passado, a plataforma francesa de streaming de música Deezer registrou lucro líquido de € 8 milhões (R$ 47 milhões), o primeiro desde que foi fundada, em 2007. A Deezer busca uma forma de disputar com os gigantes Spotify, Apple Music e Amazon Music. O caminho para o lucro, segundo o CEO Alexis Lanternier foi pavimentado no crescimento de usuários diretos " 9,7 milhões em todo o mundo " e na busca por diferenciação. Isso significa foco na qualidade " a empresa desenvolveu uma ferramenta que identifica músicas criadas com inteligência artificial (IA) " e na conexão dos assinantes com artistas, disse Lanternier em entrevista ao GLOBO realizada ontem no Rio, pouco antes da apresentação de Shakira em Copacabana. O executivo diz que o patrocínio ao Todo Mundo no Rio, desde a primeira edição, em 2024, combina com a estratégia.
O que impulsionou o resultado positivo de 2025?
O crescimento do nosso negócio B2C (que atende ao consumidor final). Temos um negócio direto (com os usuários) e um negócio impulsionado por parcerias (com outras empresas). O negócio direto começou a acelerar no ano passado de forma bastante significativa, principalmente porque acho que fomos capazes de demonstrar qual é o diferencial da Deezer, o fato de que somos realmente focados em música e apenas música, e não apenas no nosso aplicativo, mas na música como um todo, a vida do músico, começando pela remuneração dos artistas e agora estamos ajudando a gerenciar a transição na inteligência artificial (IA). Também fazemos muitas coisas em torno de festivais e concertos ao vivo, vinculando isso dentro do aplicativo, conectando a plataforma e a vida real, e a indústria e o artista.
Qual o peso do Brasil?
O Brasil é basicamente o outro país (além da França) onde realmente investimos, onde temos uma equipe significativa que faz a curadoria da música e das relações com os artistas. Isso nos permite construir o que acreditamos que é o diferencial da Deezer. O Brasil é um mercado grande, com enorme potencial, e a Deezer tem uma presença consolidada. É o nosso país número dois em termos de tamanho e já somos uma marca significativa. Uma das razões para isso é o histórico, porque construímos parcerias muito cedo, como com a (operadora de telefonia) TIM, há 10 anos, e agora trabalhamos com o banco Itaú.
Ajuda o fato de que o Brasil é uma potência na música?
É por isso que temos cerca de 40 pessoas no Brasil. Também é um país onde a música local é superimportante, representando 75% dos streams. Não temos isso em nenhum outro lugar do mundo, exceto talvez nos EUA. No Brasil, há essa cultura muito forte de ouvir a cultura local, o que é incrível e algo que muitos países invejam.
O apoio ao Todo Mundo no Rio, com o show de ontem da Shakira, promove a conexão entre música na plataforma e na vida real?
Esses eventos de grande escala são importantes para demonstrar que estamos presentes não apenas no digital, mas que queremos conectar a experiência da plataforma com a experiência off-line. No nosso app, recomendamos concertos na sua área com base no que você ouve, então, para nós é superimportante estar nesse tipo de evento. É o terceiro ano. Estamos felizes com o que aconteceu no ano passado, com a Lady Gaga. O importante para nós é criar experiências únicas.
A Deezer desenvolveu uma ferramenta para identificar músicas produzidas com IA. Por que isso é importante?
De três anos para cá, com a IA generativa, as pessoas começaram a produzir música apenas com um prompt. Nada contra isso em si, não temos um problema com isso como plataforma, é mais uma ferramenta poderosa para gerar criatividade. Mas há dois problemas óbvios com os quais estamos lutando. O primeira é que existem pessoas tentando roubar royalties (dos autores). Queremos que esse fundo vá para artistas reais, não para pessoas que criam milhares de faixas por dia apenas para burlar o sistema e entrar nas recomendações. Por isso, identificamos essas músicas e, automaticamente, as removemos do algoritmo para que não roubem do fundo de royalties, embora ainda permaneçam na plataforma.
E como separar fraudes de artistas que usam IA ?
Focamos em quem frauda o sistema e removemos essas faixas da recomendação automática. Se um artista real usa IA como ferramenta, ele ainda tem a plataforma, mas as coisas 100% feitas por IA não estarão na recomendação automatizada. A segunda coisa que fazemos é sinalizar para os usuários. Fizemos uma pesquisa que mostrou que a vasta maioria das pessoas " acho que 73%, no Brasil " quer saber o que é IA, querem transparência.
A Deezer identificou que 75 mil canções geradas pela tecnologia são enviadas à plataforma por dia, 44% do total. Não é impressionante?
Se você olhar para o que é ouvido, a maior parte desse volume é movida por fraudadores, pessoas que não colocam arte na música. Minha esperança e aposta é que isso diminua com o tempo, restando apenas canções de IA que sejam realmente criações artísticas. Os aplicativos de IA não têm acordo para uso do conteúdo, acabarão limitando esses uploads massivos.
Algumas plataformas apostam em multimídia, com vídeos e podcasts. Por que a Deezer foca só em música?
Se perguntamos aos usuários, eles não dizem que querem audiolivros, mas perguntam sobre o algoritmo, como podemos melhorar o algoritmo (o sistema que sugere as músicas com base no gosto do ouvinte), como eles próprios podem modificar e controlar o que é recomendado para eles. Ou até como podem encontrar novidades, pois não querem ficar presos em suas bolhas. Isso parece mais importante do que ter audiolivros ou vídeos de ginástica. Podcasts fazem um pouco de sentido, porque as pessoas tendem a usar os dois (música e podcasts) ao mesmo tempo, por isso, temos podcasts. Fora isso, há ótimos apps para audiolivros e plataformas para vídeos. Será que a Deezer seria relevante nessas frentes? Acho que não.
Alexis Lanternier / CEO da Deezer