Lunes, 04 de Mayo de 2026

‘Governo trump montou rede global de deportação’

BrasilO Globo, Brasil 4 de mayo de 2026

Entrevista

Entrevista
Catedrático de direitos humanos nos EUA, um dos subsecretários para o Hemisfério Ocidental e a África no Departamento de Estado no governo de Joe Biden, e estudioso da prevenção ao recrutamento de jovens pelo narcotráfico, Enrique Roig assumiu há seis meses a vice-presidência da Human Rights First. A organização apartidária monitora e documenta os voos de deportação de imigrantes sem documentos, promovidos pela segunda passagem de Donald Trump pela Casa Branca. Em março, o número de voos aumentou em 23% em relação ao mês anterior, e mais três países " Moldávia, Mianmar e Tailândia " passaram a receber fundos de Washington para encarcerar indivíduos acusados de violar a lei americana.
Em entrevista por telefone ao GLOBO, Roig apontou o que classifica como hipocrisia do Trump 2.0, que manda oito voos por mês repletos de venezuelanos "devolvidos ao madurismo com mudanças cosméticas" do governo interino de Delcy Rodríguez. Sintetizou a política externa da Casa Branca para a América Latina como "lamentável" e destacou o uso político interno do combate ao narcotráfico na região por Washington, inclusive a definição de grupos armados como terroristas.
Como avalia a política externa do Trump 2.0 para a América Latina?
Lamentável, paternalista e militarista. Preocupações legítimas dos EUA, entre elas a crescente influência da China, deveriam ser tratadas pelo incremento de parcerias econômicas, não pela coerção. As tendências autoritárias do Trump 2.0, cada vez mais preocupantes internamente, se refletem na política externa, com o desrespeito aos direitos humanos e o desinteresse pelos valores democráticos, como se viu na ação militar na Venezuela.
A Casa Branca gostaria que o Brasil encarcerasse imigrantes de outros países deportados pelos EUA, sugestão descartada por Lula, que deve disputar a reeleição. O quão arriscadas são essas parcerias?
É preciso avaliar cuidadosamente as implicações legais desses acordos. Já há peças jurídicas bem fundamentadas em curso contra a Casa Branca por conta dessas tratativas. A legalidade dos arranjos binacionais, todos na casa dos milhões de dólares, também está em disputa no Congresso. E o pente-fino passado pelos deputados, se as pesquisas confirmarem a derrota do governo em novembro, será rigoroso. Para o Brasil, além de ser delicado o uso do sistema prisional local, há o possível ônus futuro. Quem estiver no comando do país precisará avaliar as peculiaridades do Trump 2.0, ou seja, se essas pessoas de fato passaram pelo devido processo legal aqui nos EUA, se os direitos de asilo foram considerados, qual o status jurídico real delas. No futuro, esses indivíduos poderão ter base legal para processar tanto Washington quanto os países que concordaram em detê-los.
Como vê a defesa de Washington de classificar como terroristas grupos armados que ocupam territórios e traficam drogas no Brasil, mais um ponto de desacordo com Lula?
O Trump 2.0 adota abordagem preponderantemente militarizada para enfrentar o narcotráfico, como se vê nos seguidos ataques a embarcações no Caribe e no Pacífico, que já causaram a morte de pelo menos 181 pessoas. Isso é execução extrajudicial, sem evidência clara de crime e devido processo legal. O Brasil está diante de uma questão de soberania nacional, de defesa de sua Constituição. Muitas organizações derivadas de facções formadas nos sistemas prisionais não contam com estrutura globalizada, como alguns dos cartéis mexicanos, mas a Casa Branca as coloca no mesmo saco para justificar ações militares.
E qual seria o melhor caminho?
Incrementar a cooperação continental, com combate conjunto à infiltração do crime organizado na política, no Judiciário e no setor financeiro, interrompendo fluxos financeiros, lavagem de dinheiro e o uso do sistema bancário. Mas Washington prefere explodir lanchas no Caribe e eliminar chefões, como se viu em fevereiro com "El Mencho", no México, já substituído por pelo menos três outros. Para o Trump 2.0, importa mais o teatro político, encenado para consumo interno. Quer passar aos eleitores a imagem de firmeza, de linha-dura, estratégia que inclui os abusos denunciados em torno das deportações. Mas as agressões do ICE (Agência de Imigração e Alfândega dos EUA), mostram as pesquisas, tiveram efeito contrário ao desejado pelo trumpismo.
O voto anti-ICE em novembro pode minguar o apoio dos latinos ao Partido Republicano?
Sim. A saída de Kristi Noem do Departamento de Segurança Interna (DHS, na sigla em inglês) e as substituições nos comandos das patrulhas de fronteira ilustram o momento. Os americanos querem fronteiras seguras, mas não cidadãos mortos nas ruas e imigrantes desaparecendo da noite para o dia. Já há políticos do próprio Partido Republicano, entre eles a deputada federal Maria Elvira Salazar, de origem cubana, às voltas com alternativas, pressionados pela insatisfação da base. As eleições podem se tornar um ponto de inflexão não só para o Partido Democrata, mas para todo o debate de direitos humanos nos EUA.
De que modo?
Se a oposição retomar a Câmara, as investigações, as audiências públicas e as convocações de autoridades se multiplicarão. O debate político sobre imigração será pautado por um outro cenário, assim como as relações dos EUA nas Américas. O impacto orçamentário também será palpável, com a busca de reversão do esvaziamento de agências federais, entre elas a Usaid.
A mudança de comando no DHS já reduziu a ação do ICE nas comunidades latinas?
Não houve recuo, mas mudança de tática, em meio à atenção da opinião pública direcionada para a guerra no Oriente Médio. Embora menos ostensivas, as batidas seguem. Os agentes estão mais discretos, mudaram até o estilo das roupas que vestem, colocaram adesivos nos carros para parecer com os de empresas de construção civil.
O monitoramento mensal dos voos de deportação mostra que não houve recuo, com 225 partidas para 46 países em março, um aumento de 23%…
Registramos todos os voos de deportados e, no ano passado, eles foram enviados para 77 países. O caso mais notório é El Salvador, que recebeu muitos venezuelanos, mas há transferência de solicitantes de asilo de nações asiáticas e africanas para Panamá e Costa Rica. O governo montou uma rede global de deportação financiada pelo contribuinte americano, que arca com custos elevados, tanto dos voos quanto da manutenção dos deportados em outros países, entre eles Belize, Togo, Guatemala, Honduras.
Após a captura de Nicolás Maduro, a situação melhorou para os imigrantes venezuelanos nos EUA?
Não. E como as condições em Caracas mudaram de forma apenas cosmética com Delcy Rodríguez, a situação segue dramática. Dos EUA, saem em média oito voos por mês com deportados para a Venezuela. Como a política externa do Trump 2.0 é meramente transacional, centrada, no caso de Caracas, no petróleo, nada mudou para os venezuelanos vivendo nos EUA.
Enrique Roig / Cientista político
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