Sábado, 09 de Mayo de 2026

Um dos criadores do copom e estudioso da hiperinflação

BrasilO Globo, Brasil 9 de mayo de 2026

OBITUÁRIO

OBITUÁRIO
Francisco Lafaiete de Pádua Lopes, que ficou conhecido como Chico Lopes, nasceu em Belo Horizonte. Seu pai, Lucas Lopes, foi ministro de Juscelino Kubitschek.
A família se mudou para o Rio, onde Chico Lopes se formou em Economia pela UFRJ. Depois, fez mestrado na EPGE da Fundação Getulio Vargas " berço do pensamento acadêmico de linhagem neoclássica e ortodoxa " e doutorado na Universidade Harvard, nos EUA. No fim dos anos 1970, ele fundou o programa de pós-graduação do Departamento de Economia da PUC-Rio. Lá, teve entre seus alunos Arminio Fraga e Gustavo Franco.
Lopes esteve envolvido na elaboração do Plano Cruzado, em 1986, e do Plano Bresser, em 1988. Ao longo desse período, teve breves atuações no governo, como quando trabalhou no Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), em 1979.
Não chegou a participar do governo Itamar Franco, mas foi consultado pela equipe de economistas que elaborou o Plano Real sobre as medidas que finalmente estabilizariam a hiperinflação que assolava o país, em 1994. Era próximo de dois deles, Edmar Bacha e Pedro Malan " os dois foram convidados para o Departamento de Economia da PUC-Rio por Lopes, ainda nos anos 1970.
No primeiro governo Fernando Henrique, Lopes participaria de várias medidas consideradas importantes, naqueles primeiros anos de estabilização da inflação, para o sucesso do Plano Real no longo prazo.
O economista chegou à diretoria do Banco Central (BC) a convite de Persio Arida " coautor, ao lado do também economista André Lara Resende, do artigo acadêmico considerado a gênese dos planos de estabilização ", com quem trabalhara no Plano Cruzado e que assumiria o comando do BC logo no início do primeiro governo tucano.
Criação do Copom
Na gestão de Arida, Lopes foi o primeiro diretor de Política Econômica do BC. Sob Gustavo Loyola, assumiu a Diretoria de Política Monetária e participou da criação do Comitê de Política Monetária (Copom), responsável por fixar a taxa básica de juros (Selic).
"A criação do Copom foi fundamental para a consolidação do Real, para que fosse estabelecida, de fato, uma política monetária", disse Lopes no depoimento à coleção do BC, de 2019.
O Copom se consolidaria como principal instrumento de controle da inflação a partir da introdução do regime de metas, em 1999, na gestão de Arminio, sucessor de Lopes.
Após a crise da maxidesvalorização do real, no início de 1999, depois de Gustavo Franco deixar a presidência do BC por discordar do fim do regime de bandas cambiais, Lopes assumiu interinamente o cargo. Ele adotou um modelo de bandas diagonais exógenas, para tentar conter a forte desvalorização do real, que acabou não sendo eficaz.
Em janeiro de 1999, estoura o escândalo dos bancos Marka e FonteCindam " duas instituições de médio porte que apostavam na estabilidade do real e tiveram fortes prejuízos com a disparada do dólar. O BC socorreu os dois bancos, vendendo a ambos dólar com cotação abaixo do mercado, sob a justificativa de impedir uma crise sistêmica. Mesmo assim eles quebraram. Em março, Lopes deixa o BC.
Em 2012, 13 anos depois, a Justiça Federal condenou Lopes e outros envolvidos por improbidade administrativa, determinando ressarcimento aos cofres públicos. Os crimes foram considerados prescritos em 2016.
Em entrevista à coleção "História Contada do Banco Central do Brasil", publicada em 2019, Lopes refletiu sobre o episódio: "O que de mais importante aprendi é que nunca há absolvição. Pode haver falta de provas, o que faz com que o réu não seja condenado. Mas quando há um escândalo e a imprensa vem como um predador, você já está condenado."
Após o escândalo, Lopes foi substituído por Arminio.
" Ele me orientou até o mestrado. Tivemos uma amizade, uma relação carinhosa, durante toda a vida. Inclusive num momento traumático que foi a saída dele do BC e a minha chegada " disse Arminio. " Eu morava fora, estava um pouco constrangido, afinal ele era meu professor e amigo, mas foi de uma elegância marcante, uma pessoa muito generosa, como sempre na vida.
Para Edmar Bacha, um dos idealizadores do Plano Real, Lopes foi "um dos economistas mais brilhantes" com quem conviveu:
" Suas contribuições para o entendimento da inflação no Brasil e sua superação foram fundamentais para a construção do Plano Real. Manteve-se na ativa até o fim, com os relatórios mensais sempre relevantes e originais de sua consultoria (a Macrométrica).
O ex-ministro da Fazenda Pedro Malan ressaltou que Lopes teve "fundamental contribuição para a formação de uma geração de economistas":
" Seus textos sobre inflação e programas de estabilização nos anos 1980 tiveram enorme influência no debate sobre o tema, assim como os trabalhos de sua consultoria Macrométrica, sempre lidos com interesse.
O economista e colunista do GLOBO Gustavo Franco afirma que Lopes foi "um dos grandes nomes" que refletiram sobre a hiperinflação:
" Teve influência sobre praticamente todos os planos econômicos a partir do Cruzado, e é dele, inclusive, a expressão "choque heterodoxo", título de um livro seu de 1986. Foi um gigante e um dos pioneiros nessa integração entre a academia (a ciência) e a vida prática (a política econômica).
Da economia à psicanálise
Nas últimas décadas, Lopes passou a estudar os trabalhos de Sigmund Freud e de outros filósofos da psicanálise. Amigos contam que ele debatia o que aprendia com seu próprio analista, até que em 2022 publicou o livro "Freud e a mente lúdica: Novas ideias em psicanálise" (Editora Rebento). Ele ainda tocava trompete, violão e piano.
Chico Lopes faleceu ontem, em decorrência de complicações após uma cirurgia para tratar uma úlcera. Ele deixa a mulher, Ciça Pugliese, três filhos e sete netos.
Em nota, o BC afirmou que Lopes "marcou a história da estabilização econômica brasileira", deixando "um legado de inteligência, ousadia intelectual e dedicação ao país".
O velório será realizado hoje no Cemitério do Caju, Capela 7, a partir das 13h.
Chico Lopes/ economista, 80 anos
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