Sábado, 09 de Mayo de 2026

O penta também tem mãe

BrasilO Globo, Brasil 9 de mayo de 2026

newsletter ‘Que jogo é esse’

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Em junho de 1958, Dona Celeste provavelmente não fazia ideia de que estava mandando para a Suécia o menino mais famoso da história do futebol. Para ela, Edson ainda era um garoto magro de Três Corações, com cara de criança, viajando cedo demais para um lugar longe demais. Talvez toda mãe ache isso de Copa do Mundo: longe demais.
Dona Celeste era firme, religiosa e desconfiava do futebol. Conhecia de perto a conta que ele deixava. Dondinho também tinha sido jogador e carregava no corpo a lembrança de como o sonho acaba rápido quando o joelho quebra e o dinheiro some. Ela queria outro destino para o filho: diploma na mão, vida segura, trabalho de sapato engraxado.
Pelé tinha 17. O futebol brasileiro tem dessas crueldades: às vezes pega justamente o filho que a mãe tentou segurar um pouco mais. Ainda bem.
Quatro anos depois, o Brasil voltou para a Copa já carregando o peso de ter virado o Brasil do futebol. E foi aí que apareceu Garrincha, o jogador mais brasileiro que este país já produziu. Em 1962, no Chile, enquanto o mundo começava a entender o que Pelé era, Mané pegou a seleção pela mão torta e levou até o bicampeonato.
A mãe dele, Maria Carolina dos Santos, nunca virou personagem pública como Dona Celeste. Mulher pobre, indígena, matriarca de uma família enorme em Pau Grande, distrito de Magé, viveu daquelas rotinas que raramente entram para a história oficial: tanque, comida simples e conta apertada. Maria criou um menino de pernas tortas sem imaginar que elas também entortariam a lógica do futebol.
Em 1970, o Brasil talvez tenha levado ao México o melhor time já reunido. Pelé, Tostão, Jairzinho, Gérson, Rivellino. Paulo Cézar Caju não era o protagonista daquela seleção, mas poucas histórias de mãe explicam tão bem o Brasil.
Sebastiana era doméstica, pobre, e criou os filhos praticamente sozinha. A história ficou ainda mais improvável quando aceitou entregar o filho para ser criado por outra família, tentando dar a ele uma chance de vida melhor. Há definição mais brutal de amor de mãe?
Uma das obsessões de Caju foi tirar Dona Sebastiana da favela. O Brasil comemorava o título sem imaginar que, para um dos campeões, Copa talvez fosse apenas um jeito sofisticado de agradecer à mãe.
Em 1994, o Brasil entrava em campo atrás do fim de um jejum que parecia absurdo para um país que transformou futebol em idioma. E foi aí que Romário apareceu. Baixinho, marrento, impossível, ele talvez tenha sido justamente o filho mais rigidamente controlado por uma mãe entre os grandes craques brasileiros. Dona Lita, como Manuela Ladislau de Souza ficou conhecida, vivia em cima dele na Vila da Penha. Morria de medo de o menino "virar cria da esquina", como tantas mães suburbanas aprenderam a temer.
Quando criança, Romário teve problemas nas pernas e precisou usar aparelhos ortopédicos. Muita gente achava improvável aquele menino franzino virar atleta, muito menos o melhor jogador do mundo. Dona Lita transformou o tratamento numa obsessão. Mãe brasileira conhece essa sensação antes de todos: o filho precisa sobreviver primeiro, sonhar depois.
Em 2002, o herói brasileiro tinha joelhos remendados e uma mãe professora tentando entender como o filho tinha sobrevivido à própria fama. Ronaldo já era o Fenômeno, mas Dona Sônia ainda parecia olhar para ele como quem confere se o menino levou o casaco. Foi ela quem o colocou no futsal, insistiu na escola e tentou manter alguma normalidade enquanto o mundo o transformava em celebridade antes mesmo dos 20 anos.
Quando Ronaldo ressurgiu na Coreia e no Japão após duas cirurgias e anos de desconfiança, o penta pareceu milagre para muita gente. Para Dona Sônia, foi era apenas o filho voltando inteiro para casa.
Antes de existir um grande jogador de futebol, quase sempre existiu uma mulher tentando impedir que um menino se machucasse no mundo. Pelé, Garrincha, Caju, Romário e Ronaldo ganharam cinco Copas diferentes. Mas as mães deles pertenciam ao mesmo país: o da mulher que segura a casa enquanto o resto balança.
Daqui a pouco, o Brasil se encontra em mais uma Copa. E amanhã é Dia das Mães. Ideal para lembrar que nenhuma convocação começa no campo. Antes do grito, da taça, da camisa 10 e da estátua na porta do estádio, quase sempre existiu uma matriarca brasileira. Para além de cinco Copas e grandes jogadores, há de se entender que também é vocação deste país a produção em larga escala " e quase sempre em silêncio " de outro tipo de gente admirável. Heroínas improváveis.
O penta também tem mãe.
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