‘Há entusiasmo muito forte pela corrida no brasil’
Entrevista
Entrevista
Depois da metamorfose provocada pela corrida no mercado esportivo, a próxima aposta da Asics é o tênis, o esporte. A marca japonesa, que patrocina a tenista brasileira Bia Haddad, vê o tênis (agora o calçado) mais presente no cotidiano, para além do esporte, onde tecnologia fala mais alto que preço. Ao GLOBO, o CEO global da Asics, Mitsuyuki Tominaga, e o líder da empresa para a América Latina, Alexandre Fiorati, apontam o Brasil com um dos vetores de crescimento da marca, que teve alta de 24% nas vendas em 2025 no grupo "outras regiões", que inclui a América do Sul, onde 70% das vendas vêm do Brasil. Além de aumentar a produção local, o plano no país passa por ampliar a rede de lojas próprias, que já somam 16.
Qual a importância do Brasil na estratégia global da Asics?
Tominaga: Estamos no setor há aproximadamente 75 anos e, nos últimos 25, a receita vinha principalmente de Japão, EUA, Europa, China e Austrália. Até 2015, crescemos basicamente nessas regiões. A partir daí, olhamos para mercados emergentes como o Sudeste Asiático e a América Latina. É nessa área que vemos nosso próximo crescimento. O Brasil é muito importante.
Quais são as peculiaridades do consumidor brasileiro? Há destaque no portfólio daqui?
Tominaga: É um pouco semelhante à nossa estratégia global. Cerca de 45% do nosso negócio é voltado à prática da corrida, seguido por tênis, esportes indoor e, depois, um uso mais voltado ao lifestyle esportivo e casual. Mas há na América Latina, especialmente no Brasil, um entusiasmo muito forte pela corrida. Vemos muitas pessoas correndo, ainda mais após a Covid. Clubes de corrida e maratonas são muito populares aqui, e isso é muito alinhado com o que fazemos.
Fiorati: O consumidor brasileiro tem um engajamento social maior que os de outros mercados. O Brasil foi um dos primeiros em que a corrida demonstrou esse lado como o esporte individual mais coletivo que existe. Há uma congregação entre as pessoas e, claro, o número de provas cresceu.
Como isso mexe com o negócio?
Fiorati: Temos de estar cada vez mais próximo do consumidor. Investimos no relacionamento com as assessorias de corrida com patrocínio, fornecendo uniforme, e ampliamos os investimentos em provas. No ano passado, tivemos duas com três distâncias mais curtas. Este ano serão seis, em Salvador, Recife, Fortaleza, BH, Florianópolis e Porto Alegre.
A corrida redesenhou o mercado de tênis. A tendência continua?
Tominaga: Patrocinamos muitas maratonas no mundo, como as de Paris, Sidney e Tóquio. Esses eventos são extremamente populares, mas não apenas entre corredores profissionais. Há muitas pessoas que entram em clubes de corrida só para praticar um pouco de exercício. E os jovens também estão começando a correr. Acredito que há um grande impulso no mercado.
Qual será a próxima grande transformação no mercado esportivo?
Tominaga: Vemos muitas oportunidades no tênis, e não só no tradicional, mas também no que chamamos de "grande tênis", como padel e pickleball. Muitas pessoas ao redor do mundo estão jogando e aproveitando esses esportes de forma mais casual. Acho que isso será algo muito relevante daqui para frente e vai se popularizar no Brasil.
Quanto dos itens vendidos no Brasil vêm de fora? Há planos de expandir a produção local?
Tominaga: Vamos expandir a base de receita. Como resultado, a produção no Brasil deve aumentar. Hoje, cerca de 60% em valor são importados, a maior parte da Ásia, e o restante vem da produção local.
Há espaço para personalização em escala, tênis sob medida?
Tominaga: Vemos essa tendência. Estamos investindo em tecnologia, como impressão 3D, para possibilitar calçados personalizados. Já fazemos produtos customizados para atletas de alto nível, como tenistas e corredores, para atender necessidades específicas, mas isso ainda é mais voltado a atletas patrocinados.
Há uma busca maior por tênis como peça casual?
Tominaga: Sim, com certeza, globalmente. Mais pessoas estão adotando um estilo mais casual, usando tênis no trabalho e também como item de moda. É mais confortável, e isso deve seguir crescendo. Hoje, 17% do nosso negócio vem de sportswear, e outros 17% vêm do modelo Onitsuka Tiger, de lifestyle e também de calçados para caminhada. Ou seja, cerca de 40% do nosso negócio está nesse segmento, o que mais cresceu no último ano, com alta de 50%.
O brasileiro é mais sensível a preço que a tecnologia?
Fiorati: Somos uma marca premium e vamos continuar a ser, este é o principio. A questão para nós não é preço, mas tecnologia. À medida que o corredor evolui no esporte, ele busca mais tecnologia para garantir a performance.
Mitsuyuki Tominaga e Alexandre Fiorati / CEO global e CEO para América Latina da Asics