‘A empresa tomou conhecimento da presença da bactéria em novembro de 2025’
Entrevista
Entrevista
Um dos executivos da Ypê confirmou ontem ao GLOBO que a empresa tomou conhecimento, em novembro do ano passado, da presença de uma bactéria em alguns de seus produtos, mas diz que os lotes com problema confirmado não chegaram ao mercado. Segundo Sergio Pompilio, diretor de Assuntos Jurídicos e Corporativos, a empresa está em diálogo com a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para tentar liberar a venda de outras unidades. A proposta é um laboratório independente testar 100% dos lotes produzidos neste ano para destravar a venda.
Como foi a reunião com a Anvisa?
Estamos num processo intenso de colaboração para entender o que é necessário para a gente retomar essa confiança junto com o órgão. Acho que a pergunta mais importante hoje envolve se os produtos são ou não seguros. O que a Ypê tem dito é que, de acordo com os nossos controles e análises internas até o momento, os produtos são seguros para o consumidor. Mas, ainda assim, como a própria diretoria da Anvisa deixou muito claro hoje (ontem), é fundamental que os nossos processos garantam essa segurança. Até que a gente consiga demonstrar e comprovar essa segurança para o órgão, propusemos à agência apresentar testes realizados por laboratórios independentes, autorizados pela própria agência, de todos os lotes que já foram colocados no mercado a partir de 1º de janeiro de 2026, para garantir a segurança junto ao nosso consumidor e a liberação para uso mais rápido possível.
A bactéria Pseudomonas aeruginosa foi detectada duas vezes em produtos da Ypê, no ano passado e agora em abril. A Ypê já sabe como essa bactéria foi parar ali? Foi falha entre as várias que a Anvisa apontou?
Não é exatamente isso. A empresa tomou conhecimento da presença dessa bactéria patógena no nosso produto apenas em novembro de 2025. Isso é um marco temporal importante, porque isso gerou uma reação da empresa que refletiu na criação de um plano de ação robusto que vem sendo discutido e apresentado à Anvisa de forma intensa e aberta e paulatina. Nós divulgamos recentemente investimentos de mais de R$ 130 milhões. Essa constatação que gerou confusão na imprensa relacionada à identificação no momento da fiscalização, na verdade, foi em lotes que estavam segregados dentro da nossa fábrica e foram apresentados para a equipe de fiscalização para demonstrar que, quando nós adotamos essas medidas, nenhum produto contaminado seria colocado no mercado mais. A presença do patógeno é apenas uma das não conformidades microbiológicas em questão, mas é a mais grave, sem dúvida nenhuma. Nesses produtos em que havia a não conformidade microbiológica, ela estava dentro de um contexto de separação. E o que a equipe da Anvisa trouxe dentro dessa situação? Que os nossos processos de separação, de quarentena e de formalização disso não estavam adequados. A Anvisa não faz teste nessas visitas. Foi constatada uma falha envolvendo boas práticas de fabricação no que se refere à decisão de separar esses produtos que estavam não conformes.
O Centro de Vigilância Sanitária falou em sujidades na produção: estruturas enferrujadas e partes da fábrica com poeira e gordura. Isso foi corrigido?
Sim, 100%. Isso se apresenta, inclusive, em algumas publicações que nós fizemos, com imagens mostrando o antes e o depois. E não foi só isso, foram outras medidas que foram implementadas imediatamente e ao longo da própria fiscalização. Nós fizemos isso aproveitando o fato de que a nossa fábrica estava com 3 mil funcionários parados. Mesmo com a decisão e com o efeito suspensivo do nosso recurso, que teoricamente nos permitiria retomar, nós optamos por aproveitar a fábrica parada para acelerar essas mudanças. Por isso que, em tempo recorde, conseguimos adequar todas as questões relacionadas às sujidades e à pintura e a outras questões ali apresentadas, como forma de acelerar todo esse processo de conformidade junto ao órgão. Agora, não é porque estava enferrujado, sujo, que isso tinha contato com o nosso produto. Todas aquelas áreas que foram apresentadas não eram áreas de contato direto com a nossa produção. Nossa produção tem alto grau de automação. Essas partes são intermediárias e que nada têm a ver com o processo em que o produto passa e é conduzido.
A denúncia que levou à inspeção e investigação da Anvisa partiu da Unilever, que argumenta que analisar produtos da concorrência é praxe na indústria. A Ypê compartilha desse entendimento?
De forma nenhuma. Não concordamos com a afirmação de que isso é prática da indústria. Muito pelo contrário. Testar produtos concorrentes não é uma prática da indústria.
A Anvisa delineou um plano de ação com 239 itens para a Ypê retomar uma situação de normalidade.
A fiscalização mencionou 76 pontos, mas de acordo com os nossos controles são 88 medidas de apontamento, dentro das quais estão esses 239 pontos. Eles envolvem a sujidade, a organização, a pintura e coisas relacionadas.
Qual é a quantidade de produtos que estão contidos nos lotes que a Anvisa pede para recolher?
Nós temos a convicção de que os produtos que hoje estão no mercado fabricados a partir de 1º de janeiro de 2026 não precisarão ser recolhidos. O nosso plano apresentado para a Anvisa é testar 100% deles. Esse é o primeiro ponto. O segundo ponto é que a quantidade dos lotes que foram objeto da denúncia são ínfimos em relação à quantidade de produtos que colocamos no mercado. Esses 100 lotes são até uma quantidade bastante grande, que não sei precisar em toneladas, mas eles representam só 2% de todo o volume fabricado no mesmo período. Então, é um número muito baixo.
A empresa tem algum plano para lidar com a imagem?
Nós não estamos nos preocupando e não estamos falando em campanha de imagem. O nosso objetivo principal aqui é garantir a segurança do nosso consumidor e o retorno da normalidade das nossas operações.
Sergio Pompilio, diretor de assuntos jurídicos da ypê