Vulnerabilidades subjetivas desafiam empregadores
A atualização das regras da NR-1 que incluiu a saúde mental no escopo da segurança do ...
A atualização das regras da NR-1 que incluiu a saúde mental no escopo da segurança do trabalho não determinou medidas específicas a serem adotadas pelos empregadores para monitorar riscos psicossociais. A exigência é que, de maneira geral, as empresas adotem iniciativas preventivas. A tarefa não é simples. O tema não é objetivo como vulnerabilidades físicas no ambiente de uma fábrica, por exemplo. Diferentemente da chance de acidente com uma máquina ou exposição a agente químico, o risco psíquico não é palpável nem pode ser prevenido com equipamentos de proteção individual (EPIs).
Professora de Direito do Trabalho do Ibmec-RJ e da UFRJ, Patrícia Garcia cita caminhos que as empresas podem adotar, como treinamentos para lideranças evitarem práticas abusivas e também para que funcionários consigam entender se estão sobrecarregados e até, em casos mais extremos, se são vítimas de assédio moral. Ela aponta que canais seguros de denúncias sobre condutas inadequadas são primordiais, preferencialmente operados por terceirizados, para manter a imparcialidade e impedir represálias. Outra opção é treinar membros da Comissão Interna de Prevenção de Acidentes (Cipa), se houver, para receber relatos.
" Além de demandarem medidas objetivas para coibir práticas relatadas, denúncias geram estatísticas que servem para criar políticas preventivas claras e apropriadas. O importante é que exista sensibilidade por parte da empresa de que a pessoa passa a maior parte do dia no trabalho e, se ela adoece, é preciso entender se foi por conta de alguma dinâmica profissional. Com as novas exigências, a empresa passa a estar mais preparada nesse diagnóstico do ambiente de trabalho " explica Garcia.
Setores estressantes
Negócios de diferentes ramos já vêm tomando medidas preventivas voluntárias diante do problema. Dona de marcas como Piraquê e Adria, a companhia de alimentos M. Dias Branco notou um aumento nos afastamentos por males psicossociais após a pandemia entre seus 18 mil empregados. E começou a investir em ações de prevenção, conta o gerente executivo de Recursos Humanos, Erielto Almeida. Pesquisas de clima organizacional com temas relacionados à saúde mental ajudam no diagnóstico, e campanhas de combate ao assédio moral preparam líderes, que passam por avaliação periódica, inclusive por subordinados. Canais de denúncia independentes funcionando 24 horas por dia ajudam a companhia a tomar medidas pontuais, diz Almeida:
" Temos clareza de que o tema tem a ver com a forma como apoiamos nosso trabalhador no dia a dia, a relação dele com o próprio time e as lideranças. Ele precisa saber o que fazer e ter recursos para isso.
O ambiente escolar é um dos mais desafiadores para a saúde mental de professores e outros trabalhadores envolvidos. Com 850 funcionários, o grupo Sinergia Educação " que inclui o Centro Educacional Lagoa e o Liceu Franco Brasileiro, no Rio " registrou recentemente alguns casos de profissionais com quadros de ansiedade. A coordenadora de RH do grupo, Ana Paula Cassano, diz que as escolas já contavam com pesquisas periódicas anônimas de clima entre os funcionários, mas agora intensificou o processo. Os relatórios geram indicadores que norteiam medidas mais específicas, como treinamentos, palestras e rodas de conversa, além de canais de ouvidoria.
" Essa proximidade do RH com as lideranças e os profissionais nos ajuda a entender que pontos precisam de atenção " diz a executiva.
Nos centros logísticos de grandes varejistas, a pressão vem do relógio, com demanda crescente por agilidade para a entrega rápida de encomendas. Após identificar um aumento nos atestados relacionados à saúde mental para justificar faltas, a Casas Bahia, com 30 mil funcionários, decidiu incluir no seu gerenciamento de riscos pontos relacionados à saúde mental e passou a monitorar dados para intervir em equipes com índices maiores de males. E oferece atendimento psicológico a empregados e familiares.
" Isso acontece em todas as companhias, e aqui não é diferente. O gestor precisa cuidar de maneira muito ativa e preventiva " diz André Parvo, diretor de Gente da empresa.