Um plano bilionário para ‘exportar elétrons’
Por trás do data center orçado em R$ 200 bilhões que está sendo construído para o TikTok ...
Por trás do data center orçado em R$ 200 bilhões que está sendo construído para o TikTok no Ceará, há muito vento " e a estratégia de transformá-lo em "avenida de exportação de elétrons" a partir do Brasil. Por trás do plano está a Casa dos Ventos, companhia fundada pelo empresário Mário Araripe em 2007 e que foi uma das primeiras a explorar o potencial eólico do Nordeste. Quase duas décadas depois, a companhia enxerga na corrida global pela inteligência artificial a oportunidade de extrair da energia limpa brasileira um valor até então inédito.
" O data center da ByteDance (dona do TikTok) vai ser a grande âncora do que chamamos de exportação de elétrons. Projetos como esses funcionam como linha de transmissão virtual, que nos permite exportar energia como dados processados " explica Lucas Araripe, diretor executivo da Casa dos Ventos e filho de Mário. " Como a corrida por data centers é uma corrida por energia, é natural que as companhias procurem lugares com energia mais limpa e barata. O Brasil tem isso em abundância e pode destravar um potencial que estava adormecido.
O data center ficará no Complexo Industrial do Pecém, na Região Metropolitana de Fortaleza. Ele será alimentado por parques eólicos no Ceará e no Piauí, que somam cerca de R$ 11 bilhões em investimento e 2,1 gigawatts (GW).
Apenas a primeira das quatro fases do projeto de data center abrange 300 megawatts (MW) e cerca de US$ 10 bilhões de investimento, sendo US$ 8 bilhões da ByteDance e o restante da Omnia, companhia do Pátria Investimentos. Como contou o blog da coluna no mês passado, o China-LAC, fundo controlado pelo governo chinês, tornou-se acionista indireto do data center.
" A ByteDance vai processar dados externos no Pecém; não serão dados do Brasil. Isso é importante porque, hoje, dois terços dos nossos dados são processados fora do Brasil. Então o projeto inverte essa lógica " detalha Lucas Araripe. " Mas o contrato com a ByteDance é só o começo. A gente quer fazer do Pecém, que tem grid superlimpo, cabos submarinos e regime tributário competitivo, o que foi feito na Malásia. Em poucos anos, o país atingiu alguns gigawatts de capacidade instalada em data centers. Nossa ideia é antecipar essa tendência, desenvolvendo os projetos e atraindo operadoras, para as quais forneceremos energia com exclusividade.
Segundo o executivo, a Casa dos Ventos conversa com outras companhias chinesas e americanas de tecnologia para atraí-las para o Pecém nas próximas fases. Além do Ceará, a empresa da família Araripe estrutura outros três projetos de data center em São Paulo, mas esses são voltados ao processamento de dados domésticos. A companhia ainda busca empresas e hyperscalers (big techs globais) interessadas nos projetos.
Lucas Araripe rebate críticas segundo as quais a instalação de data centers internacionais no Brasil representa nova forma de extrativismo:
" Tudo o que a gente puder fazer para trazer carga para o Brasil é interessante, porque atrai investimento. Por causa dos projetos, o Brasil vai construir parques eólicos e solares.
A Casa dos Ventos foi fundada por Mário Araripe logo depois de o empresário vender a marca de veículos off-road Troller à Ford por estimados R$ 400 milhões. O empresário havia comprado a montadora cearense uma década antes por apenas R$ 600 mil. (A Ford descontinuou a Troller em 2021, quando parou de produzir no Brasil.) A tese da nova empresa era se posicionar antes de rivais nas melhores regiões para geração eólica no litoral do Nordeste.
Com os projetos de pé, a companhia passou a participar de leilões para entregar energia às distribuidoras. Alguns anos depois, começou a acessar o mercado livre de energia e a se posicionar junto a grandes consumidoras, como Vale e ArcelorMittal, para estruturar projetos de geração e fornecimento específicos para elas.
Além da eólica, a Casa dos Ventos também investe em projetos solares e pode, nos próximos anos, superar a Enel como maior geradora de energia solar e eólica do país. A companhia deve atingir 4,3 GW de capacidade até setembro e 6,4 GW até 2028.
Em 2023, a petroleira francesa TotalEnergies comprou 34% do portfólio de geração da Casa dos Ventos por meio de uma joint venture avaliada em mais de R$ 12 bilhões. No ano passado, Mário Araripe entrou para a lista de bilionários da Forbes, e hoje sua fortuna está estimada em US$ 3,4 bilhões.
Segundo Lucas Araripe, embora o filão de data centers seja a principal aposta para o futuro, a companhia está explorando outros nichos:
" Começamos a desenvolver projetos que vão da mineração de criptomoedas a amônia para fertilizante nitrogenado verde. Nosso negócio é desenvolver teses de transição energética que gerem demanda.