Domingo, 31 de Mayo de 2026

‘Brasil é peça-chave e talvez um dos nossos maiores ativos’

BrasilO Globo, Brasil 31 de mayo de 2026

Entrevista

Entrevista
A reorganização dos fluxos turísticos globais provocada pela guerra no Oriente Médio abre uma janela de oportunidade para o Brasil atrair visitantes. É o que diz o CEO global da TAP, Luís Rodrigues, em entrevista ao GLOBO por videoconferência de Lisboa. Ele avalia que o país reúne condições para atrair um volume maior de turistas europeus e americanos, muitos que sequer consideravam esse destino para as férias. A companhia portuguesa espera que esse movimento ajude a sustentar taxas elevadas de ocupação dos voos para o Brasil mesmo com a alta do combustível a reboque do petróleo pressionando o preço das passagens.
O executivo prevê que a TAP transportará neste ano 2,1 milhões de passageiros entre Brasil e Europa, 100 mil a mais que em 2025, consolidando um mercado que responde por 30% da receita da empresa. A TAP agrega Curitiba e São Luís a sua malha, chegando a 15 destinos brasileiros, e avalia novas oportunidades por aqui, inclusive em cidades do interior. Para Rodrigues, esse potencial de crescimento no Brasil ajuda a explicar o interesse de grupos como Air France-KLM e Lufthansa, que disputam a TAP no processo de privatização em curso.
Ainda há espaço para a TAP crescer no Brasil?
O Brasil não está saturado. Há muito o que fazer ainda. Quando me perguntam se não é melhor diversificar para outros mercados, digo que o Brasil serviu muito bem a companhia nos últimos 60 anos e vai continuar ainda melhor nos próximos 60. Há vários fatores para isso. O primeiro é o peso do turismo no Brasil, que representa entre 6% e 7% do PIB. O país tem menos turistas (estrangeiros) que Macau, na China, e é muito maior. Em Portugal, o turismo representa entre 18% e 20% do PIB. Não há razão para o turismo no Brasil não representar algo assim, sobretudo em um país de tamanho continental. Imagina o potencial que está por crescer. Cada vez que vou ao Brasil, descubro novos locais. Há ainda a classe média, com potencial de crescimento. E isso é verdade também para toda a América Latina, que tem um mercado de viajantes entre os países da região dez vezes menor se comparado com a Europa. Há muito também para crescer nessa região.
Qual é a importância do Brasil para TAP?
No ano passado, o Brasil respondeu por 2 milhões de um total de 7 milhões de passageiros transportados. Em receita, por serem rotas de longo curso e preços mais elevados, respondeu por 30%. Neste ano, vamos passar para 2,1 milhões de passageiros (em destinos brasileiros). Não vamos crescer mais porque não há capacidade. Estamos acrescentando Curitiba e São Luís e ampliando as frequências em algumas rotas. Olhamos para os mercados com uma perspectiva de longo prazo e começamos a estudar muito antes o potencial. Curitiba e São Luís são cidades que comecei a discutir em 2012. À medida que o Brasil vai se desenvolvendo e crescendo, vai ficando menos concentrado na costa do Atlântico, haverá mais oportunidades para avaliarmos no interior.
Quais rotas terão novas frequências? Rio, São Paulo e Salvador, por exemplo?
Sim, são sempre opções que estão na mesa. Ocorrendo disponibilidade de slots (horários para pouso e decolagem) nos aeroportos do Porto e de Lisboa, isso vai acontecer. Há um trabalho de longo prazo, em parceria com agentes locais. A aviação é um negócio de ecossistema, não se faz nada sozinho. Estamos em constante diálogo com os governos dos estados (brasileiros), com a Anac (Agência Nacional de Aviação Civil), com as entidades de turismo. E isso também vai acontecer com o desenvolvimento das infraestruturas do Brasil, dos aeroportos. Muitos estados já estão bem servidos. A aviação é essencial, sobretudo pelo tamanho do Brasil, já que o transporte rodoviário e o ferroviário são mais complexos.
Há planos para atender novas cidades neste ano?
O problema hoje está mais do lado de cá (em Portugal). Aqui temos um país pequeno e uma infraestrutura aeroportuária extremamente limitada. E assim deverá se manter nos próximos oito a dez anos, até que o novo aeroporto de Lisboa esteja construído. Vamos crescer essencialmente no Porto, que concentra muito dos turistas brasileiros que vão para a Europa e dali se conectam ao restante do continente. Vamos usar cada vez mais o aeroporto do Porto, não só porque o norte de Portugal está atraindo mais turistas, mas também porque o de Lisboa já está na capacidade máxima.
Com a guerra no Oriente Médio e a alta do preço do petróleo, quais são os desafios do setor?
O querosene de aviação dobrou, e isso vai se refletir na conta das companhias. Acredito que só a partir do segundo trimestre empresas vão apresentar resultados mais complicados. Gastos com combustível vão crescer muito, e o mercado não deve esperar a mesma rentabilidade.
E como a TAP vem lidando com isso para evitar alta expressiva nas passagens?
Não há fórmula mágica. O que todas as companhias fazem é tentar evitar que esse aumento se reflita diretamente nos preços. Para isso, diante de alta significativa de custos, procuram iniciar operações de hedge (instrumentos financeiros de proteção contra oscilação de cotações) de combustível, de poupança de custos adicionais que possam compensar parte do que é gasto adicional no combustível, além de rever rotas e frequências não rentáveis. Então, há um conjunto de iniciativas no dia a dia para avaliar a evolução da situação.
Mas há um limite para aumento das passagens?
Não, mas se o passageiro acha a passagem demasiadamente cara, deixa de voar. Portanto, neste momento, todo mundo acorda na esperança de que a guerra tenha acabado, mas isso não está acontecendo. Espero que agora, com as férias de meio de ano (verão no Hemisfério Norte), a situação melhore. As pessoas que já compraram passagens estão se planejando para viajar. A procura continua crescendo mas num ritmo mais baixo. Os passageiros não devem esperar que a guerra se resolva porque nunca sabemos quando isso vai acontecer. Estamos fazendo uma campanha que permite ao consumidor alterar a reserva sem pagar taxa. As companhias estão investindo em dar segurança aos passageiros. É a melhor coisa a se fazer neste momento.
A guerra no Oriente Médio afeta ocupação de voos para o Brasil?
A taxa de ocupação está bem, em torno de 85%, apesar de estarmos numa crise global causada por essa guerra. As aéreas europeias que voam pelo Atlântico, para a América do Sul e a América do Norte, acabam se beneficiando da mudança do tráfego da Ásia e do Oriente Médio para esse outro lado, onde há condições mais estáveis e paz. Por isso, neste momento, conjugado com o crescimento contínuo e consistente da economia brasileira, temos taxas de ocupação extremamente satisfatórias. O que não está bom é o preço do combustível. Hoje em dia não está fácil para ninguém.
E como está esse aumento de demanda para as Américas?
Neste verão do Hemisfério Norte, os fluxos de férias migraram mais para o Atlântico, área natural de atuação da TAP. Mesmo esse cenário de guerra sendo ruim para muitos, é uma oportunidade para outros. E, para o Brasil, é uma oportunidade enorme, pois é um destino que muitas vezes não era sequer cogitado pelo turista europeu e americano. O Brasil emerge, assim, com um potencial enorme para receber esse turista. Temos trabalhado com autoridades brasileiras para promover o destino Brasil na Europa. O Brasil é muito conhecido em Portugal, mas, ainda há oportunidade para crescer no continente.
O governo português, atual controlador, iniciou a privatização da TAP. Air France KLM e Lufthansa estão na disputa. O que elas buscam?
O que estamos assistindo hoje na indústria de aviação em todo o mundo aponta a favor do processo de consolidação. Ser pequeno não vai dar certo. Por isso, estamos concentrados em promover esse processo de privatização para conseguirmos nos integrar a um grupo maior, com maior capacidade de investimento, de criar sinergias e de continuar crescendo. A TAP, durante muitos anos, não foi rentável. A pandemia trouxe muitos problemas para o setor, mas trouxe também uma oportunidade para a companhia se reinventar, e foi o que aconteceu. Estamos trabalhando em um plano de reestruturação com os agentes locais, e a companhia já tem cinco anos de resultados positivos. O fato de a privatização atrair dois dos maiores grupos europeus representa uma certificação de que a companhia hoje está num momento diferente. E, sabendo que o Brasil é um dos maiores mercados de crescimento no futuro, esses grupos querem aproveitar o conhecimento que a TAP tem e o valor que isso pode trazer para os próprios grupos, além das sinergias que podem ser criadas para explorar esse mercado. É bom para todos: para a TAP, para o grupo comprador, para o Brasil e para as economias. É isso que eles estão procurando. Havia um terceiro grupo, o IAG (da espanhola Iberia), que saiu por questões internas. O Brasil é uma peça-chave e talvez um dos maiores ativos que a TAP tem para oferecer neste momento. Hoje temos uma companhia transformada, mais moderna e rentável. Além disso, Lisboa e Porto são hubs importantes para o turista brasileiro e da Américas.
Como é o calendário da privatização e como afetará o passageiro brasileiro da TAP?
O governo determinou que os dois grupos apresentem suas ofertas vinculantes até o fim de julho. As propostas serão estudadas e a intenção é que até o fim do ano isso seja resolvido. A identidade, a marca, os fluxos e os hubs terão de ser mantidos. A entrada de um dos grandes grupos europeus vai potencializar nossa ligação com o Brasil, criando mais oportunidades de crescimento entre o país e a Europa. A TAP é líder nesse mercado, ninguém vai questionar isso. No limite, vai ajudar a fazer melhor. Portanto, o passageiro brasileiro não precisa ter medo do que vem aí. Acreditamos que a privatização vai potencializar ainda mais os investimentos para o Brasil.
Luís Rodrigues / CEO da TAP Air Portugal
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