Lunes, 01 de Junio de 2026

Fora do rali, ‘small caps’ são aposta, mas dependem dos juros

BrasilO Globo, Brasil 1 de junio de 2026

No rali da Bolsa brasileira deste ano, as empresas de menor capitalização " conhecidas ...

No rali da Bolsa brasileira deste ano, as empresas de menor capitalização " conhecidas como small caps " ficaram para trás. Enquanto o Ibovespa, que reúne as maiores e mais negociadas empresas, avançou 9,1%, o Índice Small Caps (SMLL) da B3, composto por 110 companhias, caiu 0,6%. Mas, à medida que a distância em relação aos pesos pesados da Bolsa aumenta, cresce também a percepção de que elas estão mais baratas do que deveriam.
Para que entrem na festa, vários fatores precisam se alinhar " e eles estão cada dia menos prováveis, de acordo com especialistas. Sobretudo a Taxa Selic. Enquanto isso, as small caps buscam melhorar a relação com investidores e atrair quem está mais atento aos fundamentos do que ao tamanho das companhias.
A concentração da alta em poucas ações no topo do Ibovespa ocorreu em razão de como o fluxo de investimentos estrangeiros funciona no Brasil, afirma Werner Roger, diretor de Investimentos da Trígono Capital. Os investidores externos foram os principais responsáveis pelo desempenho da Bolsa este ano. O saldo acumulado por eles no período é de R$ 42,7 bilhões. Cada vez mais eles acessam os mercados emergentes, como o Brasil, por meio de fundos de índice (ETFs, na sigla em inglês). O mais famoso, o iShares MSCI Brazil ETF, por exemplo, tem apenas 46 ações em sua composição. Com isso, a maior fatia do volume financeiro da Bolsa ficou restrita a um pequeno grupo de grandes empresas.
No mesmo período, os fundos locais " que costumam investir em companhias de média e baixa capitalização " sofreram um revés. O saldo de investimentos por investidores institucionais está negativo em R$ 38 bilhões neste ano. Entre os individuais, o saldo também é deficitário: R$ 707,6 milhões.
Busca por estrangeiros
Ou seja, enquanto os estrangeiros compravam, e muito, os brasileiros vendiam. E os estrangeiros gostam mesmo é das empresas gigantes.
Outro fator é a composição setorial dos dois índices. Os setores que melhor desempenharam no período foram os de materiais básicos, serviços públicos e bancos. Eles representam 74% do peso do Ibovespa e apenas 24% do SMLL. Em contrapartida, as empresas com maior presença entre as small caps são do setor imobiliário, varejo e tecnologia. Elas têm peso três vezes maior no SMLL do que no Ibovespa e são as mais sensíveis a juros elevados " a Selic está hoje em 14,5% ao ano.
Isso explica por que o período castigou o SMLL com tanta consistência, afirma Aléff Lopes, economista e analista da LCA Consultoria Econômica:
" Cada ponto da Selic consome proporcionalmente mais lucro nas small caps.
Três fatores precisariam se alinhar para reduzir o fosso entre os dois índices, segundo Lopes: a aceleração dos cortes na Selic, o recuo do preço do petróleo no mercado internacional e a diminuição dos juros de vencimentos longos, que dependem menos da taxa básica e mais da percepção sobre o risco fiscal. Até a definição eleitoral, em outubro, é difícil que essa combinação ocorra.
Além das dificuldades macroeconômicas, há desafios específicos, como a alta no preço dos chips de memória e de dispositivos de armazenamento de dados (SSDs, na sigla em inglês) entre as empresas de tecnologia. É o caso da Positivo, cujo reposicionamento dos últimos anos " de fabricante de eletrônicos para empresa de infraestrutura de tecnologia " demanda alto uso de memória.
A Positivo viu seus custos de produção aumentarem significativamente, mas mantém o otimismo sobre cortes de juros maiores este ano, afirma Luiz Palhares, diretor de Relações com Investidores. O projeto de lei que estimula a criação de centros de dados no Brasil pode dar forte impulso ao setor, e a empresa está bem posicionada para liderá-lo no país, diz.
Atrair mais investidores estrangeiros é outra estratégia. A companhia de identificação e segurança digital Valid, com mais de 65 anos de atuação, tem 14% de distribuição acionária entre investidores de países como EUA, Noruega e Reino Unido " e vê espaço para crescer, tanto aqui quanto no exterior, afirma seu diretor executivo, Ilson Bressan.
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