El niño deve ‘queimar’ reserva hídrica e traz risco para geração e distribuição em 2027
Alerta energético
Alerta energético
A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA, na sigla em inglês) confirmou, na última quinta-feira, o início oficial do El Niño, com 63% de probabilidade de atingir a categoria "muito forte" entre novembro deste ano e janeiro de 2027. Se a projeção se concretizar, o fenômeno pode entrar para o grupo dos mais intensos desde 1950, ao lado dos ciclos de 1982-83, 1997-98 e 2015-16. Para o setor elétrico brasileiro, porém, o risco mais grave não é imediato. E é justamente essa margem que preocupa especialistas.
O Brasil inicia este ciclo em uma condição relativamente confortável, com os reservatórios das hidrelétricas do Nordeste registrando entre 95% e 100% de capacidade nos últimos meses, após dois anos de chuvas favoráveis. No Sudeste e no Centro-Oeste, que concentram cerca de 70% do volume de armazenamento hídrico do país, os níveis também se mantêm estáveis. Esse colchão, porém, pode criar uma percepção equivocada de segurança.
" Esse cenário não vai ter um efeito tão catastrófico em 2026. O grande problema fica para 2027. No entanto, (o El Niño) deve queimar toda a reserva construída nesses últimos dois anos " afirma Alexandre Nascimento, sócio-diretor e meteorologista da consultoria especializada Nottus.
Chuva abaixo da média
Sob o aspecto climático, a questão é a sazonalidade hídrica. O período úmido do subsistema Sudeste/Centro-Oeste vai de setembro a março, justamente quando o El Niño estará no pico. O Climatempo aponta que, nesse intervalo, há alto potencial de irregularidade de precipitação e volumes abaixo da média no Brasil, além da redução na formação do principal sistema responsável pelas chuvas volumosas e persistentes do verão.
" Se o primeiro trimestre for crítico, os reservatórios não encherão e teremos problemas de geração hidrelétrica no período seco de 2027. Não vejo perigo de apagão, como em 2021, pois contamos com matrizes mais diversificadas. Hoje, além das termelétricas, temos agora energia eólica e solar. E essas fontes podem suprir a demanda por um período crítico " avalia Nivalde de Castro, coordenador-geral do Grupo de Estudos do Setor Elétrico (Gesel) da UFRJ.
Há possibilidade de impacto sobre as tarifas em caso de acionamento em escala das termelétricas. Tal medida é necessária sempre que os reservatórios despencam a níveis críticos. A operação dessas unidades é mais cara que a das hidrelétricas, e sua entrada progressiva ativa o sistema de bandeiras tarifárias " de verde a amarela, a vermelha 1 e a vermelha 2 ", com o custo repassado ao consumidor.
" O preço da energia vai subir. Quando os reservatórios estão com níveis baixos, temos de acionar as termelétricas. Como custam mais caro, as bandeiras tarifárias são ajustadas. Mas o que me preocupa mesmo é o impacto inflacionário " diz Castro.
Renováveis não resolverão
Em um primeiro momento, o cenário contrasta com o que o sistema vive hoje. Em fins de semana e feriados, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) tem determinado cortes de geração (o chamado curtailment) por excesso de oferta de energia solar e eólica em momentos de baixa demanda. Neste mês, a entidade acionou pela primeira vez um plano emergencial de gestão de excedentes, retirando cerca de mil megawatts (MW) de usinas conectadas à rede de distribuição.
Porém, quando projetamos esse cenário para o El Niño, as renováveis não poderão resolver o problema. Castro explica que isso ocorre porque elas são fontes intermitentes, e o planejamento do ONS só contabiliza matrizes estáveis e constantes. Ou seja, se faltar água para as hidrelétricas e houver pico de demanda, a resposta inevitável são as termelétricas. Elas são consideradas opções seguras, que podem ser acionadas a qualquer momento do dia, diferentemente da solar e da eólica.
" Não se consegue armazenar ainda a energia que sobra. Quando chove, armazena-se na hidrelétrica. Quando não chove, é preciso usar aquela água. O paradoxo ocorre todo santo dia: muito sol, sem demanda, o ONS tem de cortar " resume Castro.
Em nota, o ONS informou que mantém contínuo monitoramento das condições hidrometeorológicas por meio de centros de pesquisa, elaborando estudos prospectivos para embasar medidas adicionais.
"As avaliações atuais indicam que o fenômeno tende a ocorrer no segundo semestre de 2026. Contudo, sua intensidade e seus impactos efetivos sobre os empreendimentos mais relevantes para o sistema permanecem indefinidos, tanto do ponto de vista climático quanto operacional", ressaltou o órgão.
O último ciclo de El Niño foi classificado como moderado, bem abaixo do que as projeções sugerem para 2026-2027. Ainda assim, teve efeitos devastadores, com as enchentes históricas no Rio Grande do Sul em 2024. A meteorologista Carine Malagolini Gama, do Climatempo, aponta que o aquecimento global foi o fator amplificador:
" Este evento pode ser mais similar em intensidade ao de 2015/2016, e parcialmente comparável ao de 2023/2024, pelas mudanças climáticas. Com o globo mais aquecido, as temperaturas ficarão acima da média em todo o Brasil. E as ondas de calor serão mais frequentes.
Potencial de incêndios
Nascimento, da Nottus, alerta que o impacto geográfico das tempestades pode ser mais amplo que o do ciclo anterior:
" Pode cobrir uma área maior do que foi no passado. Não só o Rio Grande do Sul; pode ser Santa Catarina e Paraná também.
Além disso, o fenômeno impõe riscos à infraestrutura elétrica em duas janelas distintas. No Sudeste e no Centro-Oeste, a combinação de calor e alta umidade cria um ambiente favorável a tempestades com granizo, vendaval e descargas atmosféricas, padrão semelhante ao que causou distúrbios em São Paulo nos últimos anos.
Na segunda janela, no início de 2027, o cenário climático molda uma ameaça de queimadas, que podem afetar as grandes linhas de transmissão do Sistema Interligado Nacional (SIN). Segundo especialistas, precipitações recentes mantiveram a vegetação densa e verde, fator que contém a rápida propagação de chamas no curto prazo. Contudo, a persistência de anomalias térmicas e a estiagem nos próximos meses devem secar progressivamente a flora, criando condições favoráveis para incêndios.
" Há um aumento do risco de fogo sob as linhas de transmissão, especialmente entre a primavera e o verão, o que pode provocar danos estruturais e interrupções. Com essa correlação direta de elevação de temperatura e secas mais prolongadas, há um potencial maior na probabilidade de desligamentos " adverte Carine.