Em crise e à espera do ‘super el niño’, agro ainda tem oportunidades
Apesar de ter avançado mais de 11% em 2025 e cerca de 2% no primeiro trimestre, a ...
Apesar de ter avançado mais de 11% em 2025 e cerca de 2% no primeiro trimestre, a agropecuária ainda não recuperou o prestígio junto aos investidores após instabilidades financeiras que abalaram o setor. Agora, o início de um "Super El Niño" acrescenta nova fonte de preocupação para um segmento que ainda busca se reerguer. Mas nem tudo está perdido. Analistas afirmam que há oportunidades escondidas entre as ações das empresas ligadas ao agronegócio, especialmente naquelas que têm diversificação em suas operações.
Segundo especialistas, uma combinação de fatores econômicos, financeiros e climáticos atingiu o setor após um período considerado excepcionalmente favorável.
Segundo Gustavo Troyano, analista de ações do Itaú BBA, os anos de 2020 e 2021 foram marcados por um "ciclo extraordinário de valorização das commodities agrícolas", o que elevou margens de lucro e incentivou investimentos.
O ambiente de juros baixos na pandemia estimulou a expansão acelerada do crédito rural, como explica Felipe Serigati, pesquisador da Fundação Getulio Vargas (FGV). Assim, além dos bancos tradicionais, fintechs e instituições financeiras menores passaram a disputar espaço no setor, atraídas pela rentabilidade elevada do agro.
A partir de 2022, porém, algumas variáveis mudaram: alta dos juros, queda dos preços agrícolas e aumento dos custos de fertilizantes.
Cada um desses fatores isoladamente teria impacto limitado, mas a combinação deles produziu uma das mudanças de cenário mais abruptas da história recente do setor. Troyano diz que a cadeia da soja foi uma das mais afetadas.
A "chuva de crédito" para o segmento atrapalhou. Serigati explica que muitas das instituições menores que concederam empréstimos para empresas do setor ainda estavam aprendendo a avaliar os riscos específicos da atividade rural:
" Quando vieram choques como a guerra entre Rússia e Ucrânia, que elevou custos de fertilizantes e insumos, e posteriormente a alta dos juros, parte dos agentes passou a enfrentar dificuldades.
Tempestade perfeita
Além dos juros altos, o pesquisador destaca a valorização recente do real como fator de pressão. Como boa parte das commodities agrícolas é negociada em dólar, a queda da moeda americana reduz a receita em reais recebida pelos produtores.
O resultado da "tempestade perfeita" foi um aumento expressivo dos pedidos de recuperação judicial de produtores rurais e empresas ligadas ao campo, especialmente entre pequenos e médios agentes.
A crise de algumas empresas emblemáticas ajudou a reforçar a percepção negativa sobre o setor. Rafael Marques, presidente da assessoria de investimentos Philos Invest, cita a Raízen (que acabou de fechar acordo com credores dentro da recuperação extrajudicial) como exemplo que contaminou a visão dos investidores sobre companhias com níveis elevados de endividamento:
" O aumento das recuperações judiciais entre produtores menores funciona como um alerta para toda a cadeia produtiva.
O impacto chegou ao sistema financeiro. Bancos com exposição relevante ao crédito rural passaram a registrar aumento da inadimplência e maior necessidade de provisões para perdas, como ocorreu no Banco do Brasil.
Parte do problema, diz Martha Matsumura, especialista em commodities e analista CNPI, está relacionada à gestão financeira dos produtores. Ela afirma que muitos agricultores ficaram pressionados após comprar insumos com o dólar acima de R$ 5 e vender a produção em um cenário de câmbio mais baixo e preços menos favoráveis.
Enquanto o setor tenta reorganizar as finanças, uma nova preocupação começa a ganhar espaço: um "Super El Niño", confirmado por cientistas americanos na última quinta-feira. Nesse fenômeno climático, as águas do Oceano Pacífico Equatorial ficam mais quentes que o normal, alterando padrões de chuva e temperatura em todo o planeta.
No Brasil, o maior risco estaria concentrado nas regiões Norte e Nordeste, que tendem a registrar menos chuvas durante episódios intensos de El Niño. No Sul, podem ocorrer chuvas mais intensas.
Serigati observa que o cerrado brasileiro, especialmente a região do Matopiba (formada por áreas de Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), costuma ser uma das mais vulneráveis. Ele reforça, no entanto, que os efeitos não são homogêneos.
Os reflexos, contudo, podem aparecer fora do Brasil, o que seria benéfico para o país. Troyano lembra que a produção de açúcar na Índia, um dos maiores produtores mundiais, pode ser afetada. Caso isso aconteça, a redução da oferta global poderia sustentar preços internacionais mais elevados, favorecendo produtores brasileiros.
Diversificar é a estratégia
O cenário continua preocupante. Números da Bolsa mostram que a maioria das empresas ligadas ao agronegócio está sofrendo. Entre as ações que compõem o Índice Agronegócio B3 (o chamado Iagro), apenas três têm desempenho positivo em 2026. E não só isso: as valorizações vieram principalmente de empresas comerciantes de alimentos e companhias de equipamentos e logística, não das produtoras.
No acumulado do ano até o último dia 10, as ações da Ambev subiram 17,46%; as do Assaí, 13,88%; e as da companhia de máquinas e equipamentos Mills avançaram 13,54%.
Especialistas observam, no entanto, que alguns papéis ficaram excessivamente baratos recentemente e, a partir disso, é possível fazer uma curadoria e capturar boas oportunidades. Mas é preciso focar na diversificação. Nesse caso, não basta diversificar entre ações; é preciso olhar para companhias que têm diferentes frentes de negócio.
Para Troyano, a principal recomendação é buscar empresas menos dependentes do preço de uma única commodity. A favorita do analista é a 3tentos. Segundo ele, a companhia reúne atividades de originação e comercialização de grãos, produção de biodiesel e processamento de soja, o que reduz a dependência direta das oscilações dos preços agrícolas. Ele destaca o balanço financeiro saudável e o potencial de crescimento em diferentes segmentos.
Outra preferência do Itaú BBA é a JBS. Embora a companhia enfrente problemas ligados ao ciclo pecuário nos EUA, Troyano acredita que o mercado está olhando excessivamente para dificuldades de curto prazo e subestimando o potencial de recuperação no longo prazo. Segundo ele, a empresa negocia com desconto relevante em relação a rivais internacionais.
Já Marques, da Philos Invest, afirma que "as melhores oportunidades estão fora da porteira". Ele avalia que empresas ligadas à logística tendem a se beneficiar da necessidade de escoar uma produção agrícola cada vez maior.
Entre suas preferidas estão Mills e JSL, que, segundo ele, combinam disciplina financeira, histórico consistente de resultados e exposição a uma atividade que continua demandada mesmo em períodos de crise. Marques cita ainda Hidrovias do Brasil, Armac e Randon como nomes que merecem atenção.
O estrategista da Philos Invest vê valor em empresas ligadas ao consumo básico, como Assaí, Ambev e Camil:
" O consumidor não vai parar de comer.
Para Martha Matsumura, a discussão sobre o El Niño pode criar oportunidades. Ela vê potencial em empresas ligadas a logística, soluções climáticas, bioinsumos e armazenagem, além de ações como SLC Agrícola e Boa Safra. Ao mesmo tempo, recomenda cautela com empresas mais expostas ao crédito rural e aos impactos indiretos da inadimplência no campo.
Para os analistas, o agro brasileiro continua a ser um setor estruturalmente forte e relevante. Mas, desta vez, a recuperação dependerá menos do tamanho da próxima safra e mais da capacidade das empresas de atravessar um período prolongado de juros elevados, margens comprimidas e incertezas climáticas.