Viernes, 19 de Junio de 2026

Questão ‘existencial’: um robô humanoide deve ter pernas ou rodas?

BrasilO Globo, Brasil 19 de junio de 2026

Andar sobre rodas ou caminhar com as próprias pernas? Na era dos robôs humanoides, esta é quase ...

Andar sobre rodas ou caminhar com as próprias pernas? Na era dos robôs humanoides, esta é quase uma "questão existencial" entre os fabricantes. Depois de anos tentando resolver o problema das mãos " ou seja, a motricidade fina necessária para que um robô seja humanoide " o debate agora se volta para o que está abaixo da cintura.
No Centro de Saúde Providence Saint John’s, em Santa Monica, na Califórnia, um robô humanoide chamado Moxi circula pelos corredores. Ele e sua "irmã gêmea", Roxi, entregam amostras laboratoriais e medicamentos, além de transportar suprimentos. Em vez de pernas, eles têm rodas. A empresa por trás das máquinas é a Diligent Robotics, uma startup de Austin.
Empresas de robótica atraíram bilhões de dólares em investimentos para construir máquinas que andam como seres humanos, argumentando que isso as tornará úteis não apenas em fábricas e hospitais, mas nas casas das pessoas.
Pernas, porém, são complicadas. Algumas empresas afirmam que robôs com rodas são mais práticos e podem começar a realizar hoje trabalhos que aqueles com pernas estão longe de executar.
"As rodas são mais seguras. Se um robô estiver se deslocando pelo corredor sobre rodas, ele pode parar sem precisar se equilibrar ativamente. E, se houver um problema de bateria ou de energia, um humanoide com pernas poderia cair sobre alguém " afirma Andrea Thomaz, diretora-presidente e cofundadora da Diligent.
A divisão entre rodas e pernas ficou plenamente evidente na Consumer Electronics Show (CES), realizada em Las Vegas em janeiro deste ano. Humanoides com pernas ocuparam posições de destaque na feira de tecnologia, atraindo grande parte da atenção do público e da mídia. Mas os robôs que realmente se movimentavam " pelo menos de forma confiável " eram quase todos equipados com rodas.
Sistemas com pernas são muito mais complexos. Eles exigem motores adicionais, têm maior risco de falhas mecânicas e, nas demonstrações, costumam estar presos a cabos.
" Pernas são uma péssima ideia " afirma Bill Ray, analista sênior da Gartner.
Robôs com pernas também consomem muito mais energia, porque manter o equilíbrio exige ajustes constantes.
Ainda assim, os robôs bípedes oferecem algumas vantagens sobre aqueles com rodas. As pernas podem facilitar a subida de escadas. Além disso, os investidores parecem gostar de pernas.
A 1X, fabricante do Neo, um robô humanoide projetado para atuar como assistente doméstico, já captou US$ 123,5 milhões. A Agility Robotics arrecadou US$ 180 milhões. Já a Diligent Robotics " que aposta nas rodas " obteve cerca de US$ 50 milhões.
Ray atribui essa disparidade, em parte, à tendência humana de antropomorfizar a tecnologia:
" Quando você vê um robô andando, seu cérebro diz: "Ah, ele consegue escalar, saltar e correr", mesmo que ele não faça nada disso.
Na Agility, em Salem, no estado do Oregon, o Digit " um robô de 1,75m, com olhos de LED e pernas longas " ergue pacotes de 23kg e os coloca em uma esteira transportadora. Para alcançar prateleiras mais baixas, ele dobra as "articulações" de joelhos e quadris. O Digit dá passos curtos e cuidadosos para manter a estabilidade, mas se move rápido o suficiente para carregar e descarregar caixas.
Jonathan Hurst, cofundador e diretor de Robótica da Agility, conta ter estudado cuidadosamente o movimento não só de humanos, mas de aves, caranguejos e cavalos, concentrando-se menos na anatomia ou na aparência e mais na física do movimento.
" O Digit foi feito para trabalhar. Não é um companheiro, então sua aparência não importa muito. Mas é centrado no ser humano porque precisa interagir conosco.
Para Hurst, as pernas são fundamentais na execução de tarefas como transportar caixas, pois os ambientes humanos são mais fáceis de percorrer quando se tem pernas, tronco e braços.
A 1X teve um robô com rodas, conta o fundador e diretor-presidente, Bernt Børnich, mas a melhora no desempenho e na eficiência energética dos humanoides com pernas levou a empresa a se concentrar neles:
" Não há motivo para não ter pernas. De modo geral, são melhores para tudo.
A empresa planeja começar a entregar seus robôs Neo, avaliados em US$ 20 mil, a residências ainda este ano. Projetado para ajudar em tarefas domésticas, como dobrar roupas, o Neo ainda tem características humanas.
Em seu laboratório de pesquisa e desenvolvimento em Glendale, na Califórnia, a The Walt Disney Company desenvolve tanto máquinas sobre rodas quanto robôs bípedes para utilização em seus parques temáticos. Entre eles estão os droides BDX, de "Star Wars", com pernas; H.E.R.B.I.E., do "Quarteto Fantástico", que se equilibra sobre uma esfera; e Olaf, de "Frozen", com perninhas " todos se deslocam entre multidões e interagem com visitantes.
" O objetivo não é escolher a "melhor" tecnologia . É escolher a forma de locomoção que melhor preserve a personalidade, a emoção e a credibilidade do personagem quando os visitantes o encontram no mundo real " diz Kyle Laughlin, vice-presidente sênior de tecnologia da Walt Disney Imagineering.
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