‘Nos a hasi historia’: curaçao e o papiamentu
Quando Comenencia igualou o placar para Curaçao no jogo contra a Alemanha, aos 21 minutos ...
Quando Comenencia igualou o placar para Curaçao no jogo contra a Alemanha, aos 21 minutos do primeiro tempo, no domingo passado, 185 mil habitantes da pequena ilha caribenha foram à catarse. O empate permaneceu por apenas 17 minutos no placar, que terminou com um simbólico 7 a 1 para a tetracampeã. O primeiro gol do menor país a disputar uma Copa do Mundo, porém, foi o suficiente para curaçauenses baterem no peito e falarem "Nos a hasi historia".
De primeira, a frase soa familiar. Um olhar mais atento percebe a influência latina em "hasi", variação de "fizemos" em português e "hicimos" em espanhol. "Historia", por sua vez, carrega marcas das duas línguas.
centro de tráfico negreiro
O país carrega uma história multicultural que resultou num dos fenômenos linguísticos mais interessantes do mundo: o papiamentu, uma língua crioula falada em algumas regiões do Caribe, principalmente Curaçao, Aruba e Bonaire. Trata-se de uma mistura de espanhol com holandês e crioulo cabo-verdiano " que tem forte base do português ", além de inglês.
" O termo crioulo está relacionado à palavra criação, de criar " explica Marco Neves, professor do Departamento de Línguas, Culturas e Literaturas Modernas da Universidade de Lisboa.
Para entender essa história, voltemos a 1499, quando o almirante espanhol Alonso de Ojeda desembarcou em Curaçao. O território permaneceu sob domínio espanhol até 1633, período em que passou ao controle da Holanda. Após perder o domínio sobre regiões no norte do Brasil em 1654, os holandeses converteram Curaçao em seu principal centro de tráfico negreiro nos séculos XVII e XVIII. A presença de espanhóis remanescentes, o domínio holandês e a chegada de populações escravizadas da costa oeste da África deram início às primeiras variações da língua.
O fenômeno é descrito por Marco Neves como uma língua "pidgin" ou língua de contato, originada a partir do entendimento raso dos vários idiomas presentes num local, que dá vida a um novo vocabulário, gerado, principalmente, pela interação de crianças e novas gerações:
" Estas línguas são assumidas como um símbolo de identidade. São uma prova da criatividade e da capacidade linguística dos seres humanos.
A capacidade associativa do cérebro humano, segundo Marco, explica como é possível unir tantas influências linguísticas ao mesmo tempo.
" Quando as línguas se misturam dentro da cabeça das pessoas, acabam por funcionar sempre. Este "hardware", a base biológica, consegue aceitar palavras do holandês, do português, do espanhol e criar um todo coerente. Foi o que aconteceu em Curaçao.
Nas últimas décadas, porém, indicadores sociais começaram a apontar mudanças no uso do idioma no ambiente doméstico na região. Uma pesquisa realizada em 2023 pela Universidade de Utrecht indicou que, na década de 1980, cerca de 80% das famílias na vizinha Aruba utilizavam o papiamentu para a comunicação interna. Em 2010, esse índice caiu para 68,3%.
resiliência
Apesar do sentimento de ameaça, dados demonstram que o papiamentu permanece sendo o idioma mais utilizado em diferentes faixas etárias, níveis socioeconômicos e origens em Curaçao. Sua população reforça que a manutenção da língua oficial é uma ferramenta de afirmação de identidade e do contínuo processo de ressignificação histórica, que converte as marcas de um passado colonial e escravocrata em um mecanismo de coesão social e resiliência dos povos.
Hoje, Curaçao joga sua segunda partida em Copas, contra o Equador, em Kansas City. Caso perca e a Costa do Marfim ao menos empate com a Alemanha, a seleção estará eliminada. Independentemente do resultado, seus 185 mil habitantes estarão prontos para falar: "Nos a hasi historia".