Domingo, 21 de Junio de 2026

Em busca da felicidade, gerações trocam de papel

BrasilO Globo, Brasil 21 de junio de 2026

Kika Gama Lobo, de 61 anos, cruza a porta de casa perto das 4h da madrugada, após mais uma ...

Kika Gama Lobo, de 61 anos, cruza a porta de casa perto das 4h da madrugada, após mais uma noite de festa. Enquanto tira os sapatos e se prepara para dormir, encontra a filha, a influenciadora de corrida Valentina Archer, de 27, acordando para treinar antes do amanhecer. Na cena, que se repete com frequência no apartamento onde as duas vivem, em Ipanema, na Zona Sul do Rio, os papéis parecem invertidos, mas não é bem assim. Em uma cidade associada ao mesmo tempo à boemia e à vida ao ar livre, um curioso choque geracional ganha forma. Enquanto os novinhos lotam pistas de corrida, fazem fila em trilhas do Rio e transformam saúde e bem-estar em estilo de vida, os 50+, sem deixar os cuidados com o corpo de lado, parecem viver uma segunda juventude, ocupando pistas de dança e eventos exclusivos com a disposição de quem ainda tem muito a aproveitar.
" Uma das minhas filhas é corredora de rua e participa de maratonas. Dorme às 20h e acorda às 4h, tem uma vida regrada. Eu sou o oposto: bebo chope e vinho, saio e dou festa na madrugada, na companhia do meu namorado, de 65 anos. Quando ela está acordando, eu vou dormir. Eles encaretaram, e a gente está vivendo essa elasticidade do tempo " resume a mãe boêmia.
a Geração Z se cuida
O que Kika percebe dentro de casa se propaga por outros cantos da cidade. Programas antes associados a uma fase mais madura da vida, como acordar cedo, priorizar o sono e controlar a alimentação, passaram a ganhar cada vez mais adeptos entre os cariocas da geração Z, aquela nascida entre 1995 e 2010.
Com 1,3 milhão de seguidores nas redes sociais, o influenciador e humorista Leandro Junior, de 23 anos, conhecido como LD Junior, é um dos rostos desse movimento. Ao compartilhar sua rotina de corridas, treinos e programas diurnos, ele popularizou entre os seguidores o bordão "o life (abreviação de lifestyle, estilo de vida em inglês) é esse mesmo".
" Já vivi a fase da balada, da madrugada e das noitadas. Nada contra, faz parte. Mas percebi que aquilo não entregava resposta positiva nem para o meu trabalho, nem para a minha saúde. Quando comecei a correr, acordar cedo e me alimentar melhor, passei a ter mais disposição, criatividade e energia. Hoje sinto que sou mais feliz dessa forma " afirma ele.
No universo da balada do qual LD se afastou, a escritora Kika se diverte e fatura dinheiro com contemporâneos acima dos 50. Ela promove a festa Kikando, no Jardim Botânico, que já teve oito edições lotadas, com 320 ingressos vendidos cada uma. O agito ocorre a cada quatro meses, entra pela madrugada e volta a acontecer no dia 14 de agosto. Na pista, o público se solta ao som da disco music das décadas de 1970 e 1980. Quem quiser, pode recorrer a um professor para orientar os passos. O repertório revisita estrelas pop como Michael Jackson, Donna Summer, Tina Turner e Cher.
" Tem gente que vai de bengala, tem gente em tratamento de câncer, tem gente que se descobriu gay aos 60, 70 anos. Mas é bom que se diga: não é uma festa de velho, tem uma pegada mais ardida. Vejo a química acontecer, beijos e amassos no meio da pista. Nossa geração está entregando tudo " descreve a idealizadora da balada.
Para LD, o interesse da juventude por programas leves acompanha uma mudança de imaginário. Durante anos, a vida noturna no Rio ocupou o centro das aspirações exibidas nas redes sociais. Agora, hábitos ligados à saúde, ao desempenho físico e à qualidade de vida passaram a despertar admiração semelhante.
" Durante muito tempo, ficou muito hypado o lifestyle da madrugada, da bebida e da noitada. Quando as pessoas começaram a ver que dava para se divertir, cuidar da saúde e ainda se sentir bem no dia seguinte, foram se identificando naturalmente com esse conteúdo " diz o influenciador.
‘na melhor fase da vida’
Nos fins de semana, os pontos de encontro da geração mais jovem costumam se espalhar pelas pistas da Lagoa Rodrigo de Freitas, pelos calçadões de Copacabana e Ipanema e pelo Aterro do Flamengo ao amanhecer. Entre um treino e outro, surgem novas amizades, paqueras e até relacionamentos. Não à toa, muita gente brinca que os grupos de corrida se tornaram o novo Tinder (aplicativo de relacionamento) da geração Z.
O médico Roberto Katz, de 69 anos, é definitivamente de outra turma.
" Curto baladas, adoro dançar e vou a festas onde posso paquerar mulheres. Gosto de me vestir bem, de um bom vinho e de uma cervejinha " apresenta-se, antes de contar que já foi a quatro edições da festa Kikando e, em uma delas, teve que disputar o último ingresso disponível.
" Estamos na melhor fase da vida. Finanças arrumadas, filhos criados, muitos de nós divorciados, saúde em dia e sem grandes preocupações com trabalho. Então, curtir a vida nos momentos vagos é o objetivo. Já vivemos mais de 50% do nosso tempo " observa Katz.
Curtir a vida também é com a atriz e professora Leda Ribas, que completa 94 primaveras este ano. No início do mês, ela viralizou ao estrear, no Instagram, a série "Coisas que jovens há mais tempo podem fazer no Rio". No primeiro episódio, recomendou o Armazém Cardosão, tradicional botequim com música ao vivo em Laranjeiras. No vídeo, ela aparece ora dançando, ora sentada, e, após a publicação, viu seu número de seguidores saltar de menos de 300 para mais de dez mil em um dia.
Leda conta que a ideia de produzir conteúdo foi dos netos João Filipe Rocha, que grava os vídeos, e Daniel Rocha, que edita. Eles administram o perfil da avó.
" Eu sou muito ativa e gosto de me divertir. Adoro um samba, adoro um bar. Costumo ir ao Cardosão às terças-feiras, que é o dia do jazz. O que eu não gosto é de ficar em casa. Tenho filhos e netos, mas não preciso de ninguém. Sou absolutamente independente " diz ela.
Para LD, a busca por qualidade de vida não significa abrir mão da diversão.
" Às vezes as pessoas acham que uma corrida é só uma corrida, mas não é. Você conhece pessoas, faz amizades, cria conexões. Depois vai tomar um café, senta para conversar. O jovem está procurando conexão de verdade. Não é só sair por sair " afirma.
atividade física e azaração
A tendência também é percebida pelo guia de turismo Gabriel Cardoso, criador da página Laudo de Cria. Acostumado a conduzir grupos por trilhas do Rio, ele observa que a internet ajudou a transformar esses programas em verdadeiros fenômenos de público.
" Hoje a trilha do Vidigal, por exemplo, vive lotada. Tem fila para subir de mototáxi, fila para entrar na trilha, fila para tirar foto lá em cima e fila para descer " relata Cardoso, que identifica o mesmo movimento intenso em locais como Pedra Bonita, Pedra da Gávea, Morro da Urca e Parque Lage, onde o exercício físico se mistura à azaração e à produção de conteúdo para as redes sociais.
A mudança de hábito levou a piauiense Andreia da Silva a planejar a comemoração do seu aniversário de 31 anos, no próximo dia 24, de um jeito diferente: a moradora da Tijuca, na Zona Norte do Rio, decidiu trocar a ideia de uma festa junina por um desafio: convidou amigos para correr 31 quilômetros em homenagem à idade que está prestes a alcançar. Alguns prometeram encarar o percurso completo. Outros participarão apenas de parte do trajeto.
" O importante é estar junto, e eu acho que consigo, ainda mais com companhia " diz a aniversariante.
Professor do departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal Fluminense (UFF), Carlos Eugênio Soares de Lemos explica que os estilos de vida de cada geração podem ser influenciados por diferentes percepções sobre o tempo.
" Muitos jovens têm a percepção de que têm pouco passado, mas muito futuro. Muitos idosos, por outro lado, têm a percepção oposta, então há um certo sentimento de urgência. Os jovens, por sua vez, são pressionados por determinado padrão estético; há a corrida por um corpo atraente, que possa servir como capital sociocultural " analisa o especialista, antes de ressaltar que as gerações não são blocos homogêneos. " Na verdade, existem vários tipos de juventudes e velhices.
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