Gestores se queixam de acesso difícil a etfs nas plataformas
Os Exchange Traded Funds (ETFs), fundos negociados em Bolsa que acompanham um índice de ...
Os Exchange Traded Funds (ETFs), fundos negociados em Bolsa que acompanham um índice de mercado, estão se popularizando no país, mas gestores e investidores reclamam que as plataformas de investimentos dificultam o caminho para acessar as aplicações e limitam o valor máximo dos aportes. Alguns dizem que os produtos estão se tornando os novos papéis do Tesouro Direto, que ganham menos destaque em alguns bancos e corretoras por não pagarem comissões para serem distribuídos.
Embora os ETFs sejam menos de 1% do mercado de fundos de investimentos, o volume investido nessas aplicações praticamente decuplicou na última década " de R$ 12 bilhões em 2017 para R$ 109 bilhões neste ano ", por serem transparentes, simples e baratos.
Apesar do aumento da demanda, gestores e assessores alertam que ainda é difícil encontrar os ETFs nas plataformas, os códigos das aplicações são complexos e mesmo os produtos de renda fixa são classificados como investimentos de renda variável.
Conforme Bruno Stein, diretor executivo e responsável pelos ETFs da Galapagos Capital, é difícil achar os ativos nas plataformas, principalmente aqueles de renda fixa. Ele diz que a estrutura das corretoras foi construída para ETFs de renda variável, e o mercado está demorando para se adaptar.
Atualmente, é comum os ETFs de renda fixa serem classificados nas corretoras como investimentos de renda variável, ou seja, mais arriscados, mesmo quando os portfólios são de títulos públicos, os mais conservadores.
" Os ETFs de renda fixa deveriam ser classificados assim e estar em uma aba de aplicações dessa classe, fáceis para o investidor acessar. Contudo, é difícil encontrar esses produtos " afirma Stein. " O que deve contar para a classificação do ETF não é ele ser negociado em Bolsa, mas sim o que tem dentro da carteira.
Ele também critica o fato de os códigos de diferentes investimentos negociados em Bolsa, como ETFs, fundos imobiliários, units (pacotes de ações combinadas) e BDRs (recibos de ações estrangeiras negociados na B3) terminarem todos em "11", o que confunde os investidores. E, ao buscar os ETFs nas plataformas de negociação, se o investidor não digitar o código completo, não os encontra.
Críticas aos limites
O executivo da Galapagos reclama ainda de corretoras que estabelecem um limite de valor por ordem de compra de alguns ETFs, geralmente aqueles de outras gestoras. Se o cliente quiser investir acima desse valor, precisa fazer mais de uma ordem. Isso acontece até com os ETFs de títulos públicos, os mais conservadores.
" Os ETFs não pagam rebates (comissão oferecidas às plataformas para serem vendidos) e talvez por isso não sejam a prioridade em termos de experiência do cliente, mas deveriam ser " diz Stein.
O assessor de investimentos Fernando Kobuti faz coro:
" Um limite de R$ 250 mil por ordem para comprar um ETF de renda fixa de baixíssimo risco não tem sentido. Precisei pedir para a corretora aumentar esse limite para realizar um investimento de R$ 1 milhão para uma cliente.
Cauê Mançanares, CEO da gestora Investo, afirma que o acesso aos ETFs nas plataformas precisa melhorar, pois ainda é difícil:
" Se você não conhece bem o que deve fazer, é inundado de opções pouco autoexplicativas. O investidor precisa aceitar os termos para usar a plataforma de negociação na Bolsa e conhecer exatamente o código, mas os códigos dos ETFs são muito parecidos com os de outros investimentos. Talvez seja complicado para a plataforma vender o serviço de descomplicar.
Na análise de Mançanares, os ETFs são menos oferecidos pelas plataformas, como ocorre com o Tesouro Direto, porque não geram remunerações altas para os assessores e as corretoras:
" A diferença é que os ETFs são negociados na Bolsa. Não dá para escondê-los, como as plataformas fazem com os papéis do Tesouro Direto.
O CEO da Investo avalia que os ETFs devem se disseminar no Brasil com mais assessores ganhando de uma maneira diferente, cobrando dos investidores uma taxa fixa anual sobre a carteira.
No modelo de comissão, os assessores ganham uma remuneração variável segundo o produto investido pelo cliente, mas não recebem ao vender ETFs. Já no modelo de taxa fixa anual, os assessores ganham um percentual sobre o patrimônio total investido pelo cliente. Assim, por não dependerem das remunerações variáveis, espera-se que os assessores distribuam mais ETFs.
" O modelo de negócios de taxa fixa acelerou a adoção dos ETFs no restante do mundo e está começando a acelerar no Brasil, por mais que as plataformas tenham uma resistência inicial. Algumas plataformas estão vendo que tornar os ETFs um chamariz é um diferencial para não perder mercado, mesmo que não ganhem comissões " diz Mançanares.
Renato Nobile, CEO e chefe de investimentos da gestora Buena Vista Capital, destaca que, apesar dos 21 anos dos ETFs no país, essas aplicações ainda são muito novas para as pessoas físicas. Ele também compara os ETFs aos papéis do Tesouro Direto, cujo acesso geralmente é dificultado nas plataformas, por não pagarem boas comissões:
" As instituições dificultam o acesso aos ETFs e ao Tesouro Direto para o cliente investir em outros produtos que mais interessam a elas.
Use o computador
Para Nobile, os sistemas precisam ser atualizados para acompanhar o crescimento do mercado, tanto os das corretoras quanto o da B3:
" ETF de renda fixa ser classificado como investimento de renda variável é extremamente confuso para o investidor. Algumas plataformas estão trabalhando para melhorar, mas ainda é difícil.
Kobuti considera os ETFs os melhores produtos para montar uma carteira diversificada, por terem baixo custo e serem variados, líquidos e simples. Contudo, ele vê problemas:
" Divulgar os ETFs é a minha missão, mas nem tudo são mil maravilhas. Apesar de os benefícios serem maiores que os malefícios, existem dificuldades operacionais " afirma. " As plataformas, para comprar um CDB ou um fundo de investimento, parecem um site qualquer de compras, mas as plataformas de negociação na Bolsa (os chamados home brokers) para comprar um ETF são parecidas com a cabine de comando de um voo, cheias de códigos.
Kobuti também avalia que os códigos dos ETFs dificultam a vida do investidor:
" Não é amigável decifrar os códigos, colocar a quantidade de ordens, o preço e clicar nos botões certos. O negócio é complexo, uma letra muda o ativo. Indico fazer no computador e não no celular, porque a distração pode levar ao erro.
Procuradas, a Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), a Associação Nacional das Corretoras de Valores (Ancord), a B3 e as plataformas XP e BTG, as maiores do mercado, não quiseram se manifestar.