Ministério público apura suspeita de esquema de ‘rachadinha’ nos correios
Com um rombo recorde registrado em seu balanço e em busca de reequilibrar as contas, os ...
Com um rombo recorde registrado em seu balanço e em busca de reequilibrar as contas, os Correios também passaram a ser alvo de suspeitas de ‘rachadinha’ envolvendo a antiga gestão da estatal. O Ministério Público Federal (MPF) analisa denúncia apresentada por um sindicato de servidores do Rio sobre um suposto esquema de nomeação em cargos de confiança com a cobrança sobre gratificações recebidas pelo funcionário que ocupasse a função. A empresa diz que "não compactua com quaisquer condutas ilícitas" e que, caso a prática seja comprovada, tomará medidas legais contra os responsáveis.
No documento levado à procuradoria do Rio em março, o Sindicato dos Trabalhadores na Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos do Rio de Janeiro (Sintect-RJ) reuniu relatos de 11 testemunhas, que dizem ter sido prejudicadas pelo suposto esquema.
O servidor Franco José Caldas da Silva, que exercia a função de gerente em uma unidade dos Correios em Laranjeiras, na Zona Sul do Rio, é um deles. Ele afirmou ter sido procurado por um gestor da sua área e informado de que, para continuar no cargo que exercia, deveria pagar uma "caixinha". Ao GLOBO, Silva contou ter sido destituído da função após se negar a realizar os pagamentos:
" O meu gestor na época falou que eu tinha que pagar "caixinha". Eu falei: "O quê? Não vou pagar nada" " disse o servidor, que está há 30 anos nos Correios e exercia funções gratificadas desde 2009.
Cobrança de 15%
Entre os elementos entregues ao MPF, o sindicato também apresentou uma carta, escrita à mão, que menciona cobrança de 15% sobre a gratificação paga para quem era nomeado. De acordo com a entidade, a denúncia foi apresentada de forma anônima.
O suposto esquema, de acordo com a denúncia do sindicato ao MPF, era comandado pelo secretário-geral da Federação Nacional dos Trabalhadores em Empresas de Correios e Telégrafos (Fentect), Emerson Marinho, que indicava ao então presidente da estatal, Fabiano Silva dos Santos, as pessoas que deveriam ser nomeadas para cargos de confiança. Para exercer essas funções, os servidores recebem gratificações, um valor complementar ao salário. As cobranças, segundo a entidade, davam-se sobre essa quantia adicional.
Procurado, Marinho disse que as suspeitas são infundadas e atribuiu a denúncia a uma disputa no movimento sindical:
" Faço oposição ao sindicato do Rio e estou sendo atacado. Medidas judiciais serão tomadas " afirmou ele, acrescentando que a relação com o ex-presidente dos Correios era institucional.
Fabiano dos Santos, por sua vez, disse desconhecer o assunto e que tomará medidas judiciais pela citação ao seu nome na denúncia apresentada pelo sindicato do Rio:
" Desconheço esse assunto. Parece mais uma disputa sindical.
A denúncia apresentada pelo Sintect-RJ afirma que Marinho foi responsável por indicar ao menos 300 pessoas para cargos na estrutura da estatal. A Fentect, à qual ele pertence, responde por 31 dos 36 sindicatos de trabalhadores da estatal em todo o país.
Grupo de WhatsApp
Ainda segundo os relatos de trabalhadores, o responsável por administrar a rachadinha era Alexandre Oliveira Boa Morte, que também é servidor dos Correios. Um comprovante de depósito bancário em nome dele, no valor de R$ 50, foi juntado pelo sindicato à denúncia apresentada ao MPF.
O recibo foi enviado a um grupo de WhatsApp denominado "Gestores Unidos Correios", onde, de acordo com os relatos reunidos pelo Sintect-RJ, era feito o controle desses pagamentos. A entidade aponta que também havia um segundo grupo, chamado "Amigos dos Correios", ao qual os servidores nomeados em cargos de confiança deveriam enviar os comprovantes.
Boa Morte qualificou a denúncia como uma calúnia. Ao ser questionado sobre depósitos em seu nome, respondeu:
" Cabe ao acusador o ônus da prova.
A "rachadinha" consiste no repasse, por parte de um servidor público ou prestador de serviços da administração, de uma parcela de sua remuneração a quem exerce poder sobre sua contratação. Embora não haja um tipo penal específico para a conduta, a prática pode ser enquadrada como peculato.
Santos dirigiu os Correios entre fevereiro de 2023 e setembro de 2025. Ele foi demitido após uma série de prejuízos consecutivos da estatal, que precisou de um socorro de R$ 12 bilhões para fechar as contas no ano passado, via empréstimo de um grupo de bancos com o aval da União.
Para este ano, há previsão de novo empréstimo de R$ 7 bilhões " e mesmo assim a empresa deve registrar um rombo de R$ 10 bilhões. Para a presidência dos Correios, o governo nomeou Emmanoel Rondon, funcionário de carreira do Banco do Brasil, para executar um plano de reestruturação.