Domingo, 28 de Junio de 2026

Cocaína consumida por humanos contamina tubarões e raias

BrasilO Globo, Brasil 28 de junio de 2026

Nem a imensidão do Atlântico é páreo para a quantidade de cocaína, antibióticos, ...

Nem a imensidão do Atlântico é páreo para a quantidade de cocaína, antibióticos, anti-inflamatórios e inseticidas despejada no oceano no município do Rio de Janeiro. É tanta droga que tubarões e raias apresentam contaminação. A descoberta, descrita em estudo recém-publicado, representa um alerta tanto sobre a falta de saneamento adequado quanto a respeito do consumo colossal de drogas, ilícitas ou não, e seus potenciais impactos sobre a saúde humana e a animal.
O primeiro ponto que o estudo evidencia é que, para contaminar os peixes, é preciso que seja lançada uma imensa quantidade de cocaína, de medicamentos e de inseticidas no mar. Drogas são excretadas pela urina e fazem seu caminho até o oceano por rios e pelos emissários submarinos de esgoto. Mesmo diluídas, continuam a ser contaminantes.
" Para haver contaminação é preciso haver um consumo gigantesco dessas substâncias " afirma a primeira autora do estudo, a bióloga Rachel Ann Hauser-Davis, do Laboratório de Avaliação e Promoção de Saúde Ambiental, do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz).
Em animais jovens
Na pesquisa, os cientistas encontraram animais jovens de raia-borboleta (Gymnura altavela) e tubarão-martelo (Sphyrna lewini) com contaminação por cocaína e benzoilecgonina (derivada da cocaína), diclofenaco e piroxicam (anti-inflamatórios não esteroidais), sulfametoxazol (antibiótico) e fipronil (inseticida).
" Se está nos bichos é porque a quantidade dessas drogas no ambiente é brutal. Ela não é medida, deveria ser investigada " ressalta Marcelo Vianna, um dos coautores do artigo e pesquisador do Laboratório de Biologia e Tecnologia Pesqueira da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e do Instituto Museu Aquário Marinho do Rio de Janeiro (Imam/AquaRio).
Foram analisados músculos, fígado e cérebro de peixes doados por pescadores artesanais do Recreio dos Bandeirantes, no Rio. Trata-se do primeiro registro de vários desses compostos em tubarões e raias.
Mas não de cocaína. Um estudo de Enrico Saggioro, Hauser-Davis, Vianna e outros cientistas do mesmo grupo de agora já havia sido pioneiro, em 2024, ao mostrar a presença do entorpecente em tubarões-de-bico-fino (Rhizoprionodon lalandii), também no Recreio dos Bandeirantes. E este mês um outro grupo de pesquisa da UFRJ detectou a presença de sertralina, um antidepressivo comum, no cérebro de tubarões do litoral fluminense.
Já nos primeiros testes
Mas não se trata de um problema restrito ao Rio. Uma expedição do SOS Mata Atlântica encontrou traços de cocaína e outros contaminantes no Rio Tietê, como revelou reportagem do GLOBO na semana passada.
O número de amostras pequeno, sete no total, sugere que basta testar para encontrar esses contaminantes.
" Há muito esgoto e lixo no mar. O nível de poluição é grande e nem sempre é visível ou detectável por métodos tradicionais, que não monitoram nem eliminam, por exemplo, medicamentos. Os animais ficam expostos a isso todo o tempo. Choca, mas não surpreende encontrar esse tipo de contaminação " enfatiza Hauser-Davis.
E o fato de as concentrações de cocaína nas raias terem excedido as de benzoilecgonina (formada quando a droga original é metabolizada pelo organismo) sugere uma exposição recente e/ou contínua, afirmam os cientistas.
A cocaína é rapidamente metabolizada e forma benzoilecgonina, que tende a se acumular com o tempo. Por isso, concentrações mais altas de cocaína em relação à benzoilecgonina indicam uma entrada recente da droga.
Outro aspecto salientado pelos cientistas é que essas substâncias, ilícitas ou não, colocam em risco espécies ameaçadas de extinção, pois podem alterar seu comportamento e sua fisiologia.
Preocupa especialmente o caso da raia-borboleta, particularmente ameaçada, e que tem na Baía de Guanabara seu único berçário no Atlântico Sudoeste. Existe possibilidade de que as fêmeas estejam passando as drogas para os embriões e que os peixes já nasçam contaminados, diz Hauser-Davis.
" O litoral do Rio de Janeiro é o mais industrializado de todo o Atlântico Sul e recebe enormes quantidades de esgoto e de poluentes lançados por rios. O oceano é um ambiente dinâmico e correntes espalham os contaminantes pelo litoral do Sudeste. Não é um problema específico do Recreio, do município nem do estado. Esse tipo de contaminação é uma preocupação sem fronteiras " destaca Vianna.
Hauser-Davis acrescenta que mesmo quem não se preocupa com o ambiente deveria tomar ciência do problema porque a carne de raias e tubarões (vendidos como cações) é apreciada e não se sabe ainda qual o risco que seu consumo representa para o ser humano. O Brasil, segundo Vianna, é maior consumidor de carne de cação do mundo.
Tubarões e raias são elasmobrânquios, um grupo de peixes com esqueleto formado por cartilagem, e não por ossos. Isso faz com que sua carne, sem espinha, seja recomendada para crianças pequenas e idosos, o que os cientistas veem com preocupação.
" Esses peixes não deveriam ser consumidos, seja porque estão ameaçados de extinção, seja por riscos possíveis para a saúde " frisa Hauser-Davis.
Além de Hauser-Davis e Vianna, o estudo contou ainda com cientistas do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) e da Universidade Andrés Bello (Chile).
Chamado "Contaminantes de preocupação emergente de múltiplas classes em elasmobrânquios costeiros ameaçados: nova evidência de exposição no início da vida no Sudeste do Brasil", o trabalho foi publicado na Marine Pollution Bulletin, uma das revistas científicas mais prestigiadas do mundo na área de poluição marinha.
Tubarões e raias foram escolhidos para a investigação devido ao risco de extinção e ao fato de serem animais-sentinelas. Por estarem no topo da cadeia alimentar, tudo o que é lançado no mar acaba indo parar neles.
Além disso, vivem muito, podem passar de 20 anos. E isso permite investigar o acúmulo de contaminantes. Porém, no estudo, a contaminação foi registrada em animais jovens, o que só evidenciou a magnitude da quantidade de drogas despejadas no mar.
Droga no mar significa sofrimento para os peixes, detaca Vianna:
" A ocorrência em indivíduos juvenis é preocupante, pois os estágios iniciais de vida são mais vulneráveis aos efeitos da poluição, podendo comprometer a sobrevivência de espécies ameaçadas. A pesca é apontada como a maior ameaça a muitas espécies de peixes, mas vemos que drogas usadas pelo ser humano também podem ser motivo de extinção.
risco de Infertilidade
Essas drogas são classificadas como Contaminantes de Preocupação Emergente (CEC). São produtos farmacêuticos, drogas ilícitas e certos pesticidas, que não são monitorados, apesar de seus riscos ambientais.
Tampouco são eliminados pelos métodos de tratamento de esgoto convencionais. Vários são conhecidos por causar alterações comportamentais, fisiológicas e endócrinas em peixes, como infertilidade, malformações e mudança de sexo.
" Mostramos um problema desconhecido. A sociedade faz maciço uso de drogas, de todos os tipos, e precisa pensar nas consequências e na necessidade de soluções. Não é um problema do peixe. É nosso " ressalta Vianna.
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