Domingo, 28 de Junio de 2026

‘De onde menos se espera, nasce a vida’

BrasilO Globo, Brasil 28 de junio de 2026

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O cenário não poderia ser mais apropriado: no galpão onde fica seu ateliê, entre esculturas e pinturas, Tadáskía conversa por hora e meia sobre as muitas fronteiras que superou. A artista visual expressa em sua obra o que defende na vida. Ou vice-versa: discrição e extravagância, luz e sombra, introspecção e explosão criativa. Foi assim que, em 2024, abriu espaço entre conterrâneos como Ernesto Neto, Lygia Clark, Tarsila do Amaral e Roberto Burle Marx, criadores brasileiros renomados que, como ela, já exibiram seu trabalho no prestigiado MoMA, o Museu de Arte Moderna de Nova York. Nessa lista, e na história da instituição, a propósito, foi a primeira a pintar as paredes do museu, antes mesmo de ganhar uma individual no Brasil. Carioca de Santíssimo, bairro da Zona Oeste da cidade, Tadáskía entrou em 2025 na TIME100Next, tradicional lista da revista Time com as "cem estrelas em ascensão mais influentes do mundo".
Também no ano passado, venceu o Prêmio Global de Arte K21, na Alemanha, onde mantém uma exposição em cartaz até o próximo mês de outubro. Depois, vieram voos por Lisboa, Barcelona, Amsterdã, Marselha. Suas criações, como "ave preta mística", obra-livro que hoje integra o acervo do MoMA, a instalação "brincando animada: travesti mariposa centopeia" e "lua coelho negra", apresentada na 35ª Bienal de São Paulo, se espalham por importantes coleções internacionais. Cada uma a seu modo, refletem seu jeito de ver e viver o mundo. Em processo que durou menos de três meses, a artista, que é trans, obteve na Justiça o direito de mudar seu nome para Tadáskía Willan Oliveira Morais.
" De onde menos se espera, nasce vida " diz, hoje aos 33 anos, a aniversariante de amanhã, segunda-feira.
A vida dela floresceu em um lar evangélico na periferia carioca, sob as asas do vendedor aposentado Aguinaldo Morais e da dona de casa Elenice Guarani, atentos e acolhedores aos talentos e necessidades da artista, e ao lado da irmã, Hellen Cristina. De Tadáskía, o pai é hoje o assistente, funcionário remunerado. Anda pelas ruas do Centro, pega VLT, metrô e o que for preciso para transportar o material de que a filha precisa. Timidamente, e com alguma emoção, alegra-se ao falar de como se sente ao vê-la, depois de tanto estudo e trabalho, realizada.
" Trabalhando juntos, estamos mais próximos, conversamos mais. Eu fico feliz de estar aqui com ela, e ajudando no que eu posso " diz Aguinaldo, de 53 anos. " Ela sempre gostou muito de ler, dos recortes de revista. A família sempre arrumava um jeito para comprar. Hoje, está indo para outros países representando o nosso Brasil. É gratificante.
Fora de casa, o pai ganhava a vida em uma loja de festas, vendia balas, chicletes. Dentro do lar, sempre coube a Elenice adoçar os dias. O jeito peculiar da mãe de conversar com as estrelas trazia o lúdico à rotina. A Tadáskía dona de fama internacional vem desse meio, que inclui ainda as idas à igreja pentecostal e os estudos em escolas públicas. Neste mês do orgulho LGBTQIAP+, ela inspira não só a comunidade, mas uma legião de gente com fé no futuro.
‘crianças de coração’
A abstração que entremeia estratégias práticas é um refúgio, como pessoa negra e trans, para lidar com a discriminação de "grupos que ainda se incomodam" com suas conquistas. Ajuda a recuperar o fôlego e ressurgir com força a cada nova mostra ou lançamento, quando lança livros, poemas, vídeos, instalações, desenhos, esculturas. Como matéria-prima, tintas diversas, lápis de cor, bambu, madeira. O resultado surpreende: em "As cabeludas", saem de tijolos fios de diferentes cores. O trabalho é inspirado na casa sem emboço onde Tadáskía cresceu.
" Não sou totalmente aquilo que me apresenta. Por isso, gosto das personagens iluminadas, mas também do mistério. Ser assim vai proteger tanto meu universo imaginativo como minha pessoa " afirma.
As dedicatórias de "ave preta mística" e "lua coelho negra", obras-livro lançadas pela Editora Cobogó, demarcam a intenção de fazer sobressaírem grupos: "Irmãs negras e irmãos negros outsiders, às mulheres negras e pessoas trans negras, pessoas que se importam com as crianças e pessoas que são igualmente crianças de coração", é o recado em destaque no primeiro trabalho.
Tadáskía, formada em Artes Visuais pela Uerj, com mestrado em Educação pela UFRJ, deseja ser lida por estudantes de escolas públicas, como ela foi um dia: fez o ensino fundamental na Escola Municipal Tenente Góes Monteiro, em Senador Camará. Em seguida, foi até a oitava série no Ciep Rubem Braga, no mesmo bairro. Então, passou para a Faetec de Marechal Hermes e finalizou o ensino médio e o técnico em eletrotécnica. Até que veio a etapa de estágio. Ela passava nas provas, mas não nas entrevistas. Quando ouviu perguntas tendenciosas, como "Está pronta para ser zombada?", disse, aos 17: "Não". O caminho da eletrotécnica se fechou. E abriu-se o das Artes.
" As possibilidades de escolha ainda são enviesadas. Escolher, neste mundo, é difícil. Tem que saber dizer muito não, aprender como dizer sim. Para mim, esse game dá para transformar numa brincadeira. De tempo em tempo, foi o que aprendi com a vida: separar os instantes para a poesia, para desenhar, para falar com as plantas. Separar momentos para o bem-estar até que isso vire a norma comum, coletiva " diz a artista.
Diferentemente do que aconteceu na busca por um caminho profissional, antes de enveredar pelas artes, seu carisma atraía muita gente. A habilidade de se comunicar e de fazer amigos sobressaía. Permanece até hoje e, aliada à maturidade, abre mais vias.
nova exposição
Tadáskía é representada pela galeria Fortes D’Aloia & Gabriel. Em detalhes de uma tela e de uma instalação ainda inacabadas, que serão exibidas com exclusividade na Carpintaria, no Jardim Botânico " o endereço carioca da galeria paulistana ", a partir de setembro, é possível perceber que a artista segue fiel às suas inspirações. Um dos temas trabalhados está associado a cascas, sejam as de inseto " que remetem às suas "Bag Lady Packs Light" e "Lacraia tears", de 2024 " , sejam as do corpo e dos sentimentos humanos.
" Esta vai ser a primeira individual nesta galeria desde 2023, quando eles começaram a me representar " explica ela, que naquele ano esteve na Bienal de São Paulo, mas curte a atmosfera do Rio de Janeiro. " Gosto da combinação do frenesi e do clima relaxante para criar " conta a carioca, que, ainda em setembro, também vai expor na ArtRio.
Durante a entrevista, Tadáskía observa que a vida é como um labirinto no qual os corredores, quando são mais amplos, deixam a sensação equivocada de que as possibilidades de escolha são vastas.
" Cheguei a trabalhar como pesquisadora no Uniperiferias (uma organização da sociedade civil), no Complexo da Maré. O estudo era sobre as possibilidades de sair de um lugar rebaixado existencialmente e as de florescer e viver. Eram estudos em direção à vida, em vez daquele para ser cerceado, não só no sentido social, político e econômico, mas no sentido existencial, de a pessoa estar sempre sendo rebaixada, desacreditada " afirma. " O acesso e a liberdade para uma percepção mais expandida sobre a vida são restritos. Você tem que ficar usando os labirintos, as brechas, para descobrir para onde vai. E as rotas não são as mesmas para as pessoas, embora para muita gente pareça que sim.
Tadáskía / artista visual
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