Tesouro direto ou bancos e corretoras: onde é melhor comprar títulos públicos?
Quando o assunto é investimento em títulos públicos, a maioria dos brasileiros conhece o ...
Quando o assunto é investimento em títulos públicos, a maioria dos brasileiros conhece o Tesouro Direto, a plataforma administrada pelo governo federal na qual é possível comprar papéis como o Tesouro Selic, o Tesouro IPCA, o Tesouro Prefixado e modalidades mais recentes, como o Renda+ e o Educa+. Mas algumas corretoras e bancos também oferecem esses papéis nos aplicativos ou por telefone, no chamado mercado secundário, fora do Tesouro Direto " quase um Tesouro Direto "Indireto".
Pode ser interessante recorrer a essas aplicações quando o prazo de vencimento do título casa melhor com o horizonte de investimento da pessoa, dado que a grade disponível na plataforma do Tesouro é limitada. Mas é preciso ficar atento: em casos extremos, a taxa oferecida no app da corretora ou banco chega a embutir um spread, ou desconto, de até 0,6 ponto percentual ao ano sobre o rendimento "oficial" do título. Essa diferença representa um ganho menor para o investidor pessoa física e, quanto maior o prazo do título, mais esse "detalhe" pesa no resultado final.
Com ou sem custódia
Segundo exemplos coletados pela reportagem, os títulos vendidos pelas corretoras custam mais e, portanto, têm rentabilidade menor do que os oferecidos no Tesouro Direto dos mesmos tipo e prazo. Em contrapartida, comprar via corretoras apresenta duas vantagens: não há a cobrança da taxa de custódia da B3 (0,20% ao ano) e existe mais variedade de prazos.
Primeiro, é preciso entender as diferenças entre os formatos. A principal delas, na prática, é a custódia (ou seja, quem está guardando aquele título para você). No Tesouro Direto, quem guarda os papéis é a B3, que cobra uma taxa anual de 0,20% sobre o valor investido. Já nas corretoras, essa custódia fica com a própria instituição, e a grande maioria delas não repassa esse custo ao cliente.
Em contrapartida, as corretoras costumam embutir um spread (a diferença entre a taxa de compra e a de venda, que é a margem de ganho da instituição) no preço do título, que reduz o rendimento em relação ao oferecido na plataforma oficial do governo.
Segundo Eduardo Siqueira, assessor de investimentos do escritório B3S, a escolha entre comprar pelo Tesouro Direto ou por uma corretora depende, principalmente, do prazo em que o investidor pretende manter o título. Para ele, a regra geral é: quem pretende levar o papel até o vencimento tende a se sair melhor na corretora, já que não vai pagar a taxa de custódia anual " mas só se o spread cobrado ficar abaixo do 0,20% da taxa de custódia.
Já para quem pensa em vender antes do prazo, pode valer a pena o Tesouro Direto, que não tem o spread, mesmo que a taxa de custódia vá corroendo o rendimento ao longo da aplicação.
Por exemplo: um investidor que comprou um Tesouro Prefixado (cujo rendimento é acordado na hora da compra) pelo Tesouro Direto com vencimento em 2032 vê que os juros estão caindo. Quando os juros recuam, os títulos prefixados têm uma valorização, por causa do efeito da marcação a mercado. Assim, ele pode achar que é um bom negócio vender seu título prefixado antes do vencimento.
Uma simulação feita em 22 de junho mostrou que um Tesouro Prefixado com vencimento em 2032 estava sendo negociado no Tesouro Direto a uma taxa de 14,74% ao ano, enquanto o mesmo papel era oferecido por uma corretora a 14,15% ao ano.
Subtraída a taxa de custódia anual de 0,20% cobrada pela B3, o rendimento para o investidor na plataforma governamental cai para algo próximo de 14,54% ao ano. Ou seja, como o spread cobrado na compra via corretora é maior do que o 0,20% da taxa de custódia, a operação continua sendo vantajosa via plataforma do governo, mesmo para o investidor que pretende levar o papel até o vencimento.
Rendimento varia
A reportagem ainda encontrou, na mesma data, outros títulos do Tesouro com diferenças significativas entre as corretoras e a plataforma oficial. Um Tesouro Prefixado com vencimento em 2029 era vendido na corretora com rentabilidade de 14,20%. No Tesouro, o rendimento era de 14,78% (0,58 ponto percentual a favor do Tesouro Direto).
Um Tesouro IPCA com vencimento em agosto de 2032 era ofertado no mercado secundário com rendimento de IPCA + 7,92% ao ano. No Tesouro Direto, o mesmo título rendia IPCA + 8,44% ao ano (0,52 ponto percentual a mais). Ou seja, o spread cobrado pela corretora nesses exemplos supera o 0,20% da custódia pela plataforma oficial do governo.
Há outra questão a ser considerada: no Tesouro Direto, a diferença entre a compra e venda dos ativos é fixa, em torno de 0,12 ponto percentual, e as taxas ficam próximas das praticadas entre grandes investidores, como bancos e fundos. Já via bancos e corretoras, essa margem pode ser bem maior. E o investidor pessoa física pode acabar pagando essa "gordura" adicional, que reduz sua rentabilidade desde o início. Vale lembrar que, quanto maior o prazo do título, mais importante é ficar atento a essa margem, porque ela vai incidir sobre um período mais longo de carregamento e pesar mais no resultado final.
Também é importante frisar que os títulos negociados no mercado secundário não vêm do nada: são papéis que outros investidores adquiriram e decidiram vender antes do vencimento, e que a corretora absorveu para recolocar em circulação.
Taxa fixa vs. comissão
Segundo um assessor de um escritório de agentes autônomos que não quis se identificar, as corretoras, de modo geral, trabalham com um spread de até 0,4 ponto percentual anual a mais em relação à taxa de mercado do título público. No entanto, há um ponto importante que merece ser destacado: o custo para o cliente pode depender do modelo de remuneração adotado pela corretora ou escritório de assessoria.
Há basicamente dois modelos de remuneração ao assessor de investimento. No chamado fee based, o cliente paga taxa fixa proporcional ao valor de sua carteira. Já no comission based os donos dos ativos pagam comissões com base na venda deles " ou seja, um fundo paga uma remuneração ao escritório que o vendeu para um cliente.
No modelo fee based, explica esse assessor, não há o spread de 0,4 ponto. Assim, a taxa do cliente fica muito próxima daquela do Tesouro Direto. Só não é igual porque a instituição tem a remuneração dela, de 0,1 ponto percentual de spread.
Ligue para o assessor
Há ainda um detalhe que passa despercebido pela maioria dos investidores e que pode fazer diferença no rendimento final: as taxas praticadas pelas corretoras no mercado secundário não são necessariamente fixas. Segundo Siqueira, do B3S, o assessor tem margem para abrir mão de parte de sua comissão e oferecer um preço melhor ao cliente, mas isso raramente acontece sem que o investidor peça:
" O cliente que não demanda tempo do assessor paga mais do que aquele que demanda, e deveria ser o contrário.
A recomendação é ligar diretamente para o assessor, solicitar uma melhora nas taxas e, se possível, comparar com concorrentes. Quem investir em mais de uma corretora pode usar uma como parâmetro para negociar com a outra. Afinal, o papel do assessor, diz Siqueira, é muito mais de relacionamento que de produto:
" Justamente por isso, há um espaço para negociação que o cliente frequentemente não explora.