Mercado freia projeções de alta da inflação e dos juros
Após uma sequência de 15 semanas de alta, o mercado financeiro freou as projeções para a inflação. ...
Após uma sequência de 15 semanas de alta, o mercado financeiro freou as projeções para a inflação. Segundo o Boletim Focus, divulgado ontem pelo Banco Central (BC), a estimativa para o IPCA de 2026 permaneceu em 5,33%, ainda bem acima do centro da meta de inflação de 3% e do teto de 4,5%. A previsão para a taxa básica de juros também ficou estável em relação à pesquisa anterior, em 14% no final do ano, encerrando uma sequência de três elevações seguidas.
Para André Valério, economista sênior do Inter, apesar de ainda haver muitas incertezas está à vista uma normalização dos preços do petróleo, diante de um acordo sobre a guerra no Irã, de forma que será possível observar pressões menores da inflação:
" A inflação de alimentos já deu sinais de perda de força, e estamos entrando em período de sazonalidade de baixa dos alimentos, entre julho e setembro, tipicamente. Com isso, nossa expectativa é ver o IPCA retornar à normalidade vista no segundo semestre do ano passado, pré-período de sazonalidade de alta, entre dezembro e fevereiro. O IPCA-15 da última semana já indica isso.
PICO DAS PRESSÕES
Segundo Valério, apesar da expectativa de aceleração dos preços dos alimentos no fim deste ano e início de 2027 por causa do El Niño, o nível dos reservatórios das hidrelétricas acima das expectativas e a manutenção da bandeira tarifária amarela nas contas de luz podem contribuir para uma trajetória da inflação melhor. Ele avalia que o pico das pressões pode ter ficado para trás, e o IPCA deve ficar em 5,2% em 2026 e cair para 3,8% em 2027.
" No curto prazo, esperamos a estabilidade das expectativas, mas vemos potencial de recuo tanto nas projeções de IPCA quanto de Selic " disse Valério, acrescentando que discorda da visão de boa parte do mercado de que o Copom vai entregar o último corte de Selic do ano na reunião de agosto. " Com o cenário prospectivo de inflação melhorando, vemos condições para o Copom entregar cortes de 25 pontos base em todas as reuniões até o fim de 2026, o que levaria a Selic a 13,25%.
Para o economista, as divulgações do IPCA de junho e do IPCA-15 de julho serão determinantes. Ele também destaca que o bônus de Itaipu deve provocar uma deflação em agosto, compensada por uma inflação maior em setembro. Ainda assim, a expectativa é que três leituras consecutivas mais fracas do IPCA reduzam a pressão sobre o Copom e permitam a continuidade do ciclo de cortes da Selic.
Gustavo Sung, economista-chefe da Suno Research, tem uma visão mais pessimista sobre os juros. Para ele, embora a tendência seja de que as projeções de inflação sigam no patamar de 5,3%, há uma desancoragem adicional das expectativas em relação à meta, uma vez que a perspectiva continua sendo de alta do IPCA de 2027. No Boletim Focus divulgado ontem, as projeções para a inflação de 2027 subiram pela sexta semana consecutiva, chegando a 4,17%.
Embora Sung acredite que deve haver mais leituras estáveis nas próximas divulgações do Focus, ele ainda observa uma deterioração do cenário inflacionário, com uma Selic alta:
" Esse cenário mais desafiador para a inflação aqui no Brasil necessita de uma política monetária restritiva, com menos espaço para corte de juros. A gente precisa compreender a divulgação dos próximos dados para fazer uma melhor avaliação do cenário, mas devemos encerrar o ano com Selic entre 14% e 13,75%. Não há muito mais espaço para corte.