Ia leva quem trabalha com programação a viver ‘ligado’
Matt Van Horn, empreendedor e pai de quatro filhos, nunca mais desliga o laptop. Ele ...
Matt Van Horn, empreendedor e pai de quatro filhos, nunca mais desliga o laptop. Ele mantém mais de meia dúzia de agentes de inteligência artificial funcionando o tempo todo no Claude Code, da Anthropic. A cada cerca de dez minutos, eles o procuram para perguntar qual deve ser a próxima tarefa. O computador permanece ligado durante os treinos de futebol dos filhos, enquanto Matt os leva para a escola e até mesmo no hotel durante as férias. Quando ele vai dormir, um dos agentes assume a função de monitorar os demais.
Matt Van Horn é um dos muitos fundadores de startups cuja rotina de trabalho foi transformada pela inteligência artificial. No desenvolvimento de sua empresa mais recente, ele recorreu a agentes de IA para colaborar em centenas de projetos no GitHub (plataforma usada por programadores para armazenar, gerenciar e compartilhar trabalhos). Mas ele e muitos outros entusiastas da tecnologia também passaram a trabalhar jornadas ainda mais longas, movidos pela ansiedade de que a inteligência artificial possa avançar sem eles.
Depois de cerca de 15 minutos de conversa, Van Horn observa que a maioria de seus agentes de IA provavelmente já está aguardando a próxima instrução.
" Disseram que a IA faria o trabalho por nós, mas nunca trabalhei tanto na vida. A diferença é que agora produzo cem vezes mais.
ANSIEDADE PERMANENTE
O setor de tecnologia vendeu a inteligência artificial como uma grande força de libertação, capaz de achatar hierarquias, eliminar tarefas repetitivas e liberar as pessoas para atividades de maior valor intelectual. Mas entrevistas com mais de uma dúzia de entusiastas da IA " entre fundadores de empresas, funcionários, investidores e consultores de carreira " revelam um cenário mais complexo: os "arquitetos da utopia" prometida pela IA simplesmente não conseguem parar de trabalhar. E isso tem alimentado uma onda de ansiedade constante.
Engenheiros trabalham até as quatro horas da manhã para demonstrar um nível de produtividade compatível com o dos agentes de IA que colocam em operação.
Startups criaram programas internos de apoio psicológico para que funcionários possam desabafar sobre o esgotamento ou contar com a ajuda de um autodenominado "embaixador de IA", responsável por ensiná-los a utilizar melhor a tecnologia.
Em São Francisco, na Califórnia, caminhadas voltadas à saúde mental acontecem enquanto pequenos aviões que sobrevoam a cidade exibem faixas com mensagens pedindo que empresas não deixem de contratar seres humanos. As noites de sexta-feira também passaram a incluir cada vez mais as chamadas festas touch grass (tocar a grama, em tradução livre)" encontros criados deliberadamente para que as pessoas não falem sobre IA, já que o tema tomou conta de praticamente todos os outros ambientes.
" As empresas da Fortune 500 (lista anual com as 500 maiores corporações dos EUA) estão tendo um ataque de pânico coletivo " diz May Habib, diretora-presidente da Writer, plataforma de IA generativa para empresas, durante conferência em São Francisco. " Há estresse, ansiedade e dificuldade para tomar decisões diante da velocidade com que esse mercado evolui.
Por enquanto, essa ansiedade permanente é mais comum entre programadores. Mas, à medida que a IA amplia a variedade de tarefas que consegue executar, profissionais de outros setores percebem que perderam os momentos de descanso mental que atividades menos complexas proporcionavam.
" Tenho visto muitas pessoas sofrendo de esgotamento, porque agora todo o tempo delas é dedicado a tarefas de altíssimo nível. Os chefes dizem: ""Você não precisa mais cuidar da parte administrativa, então quero que passe oito horas por dia pensando em estratégia", e isso é simplesmente exaustivo " afirma o consultor de carreira especializado em tecnologia Kyle Elliott.