Três dias e 60 países: como é a audiência do tarifaço de trump
O projeto do Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR, na sigla em ...
O projeto do Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês), chefiado por Jamieson Greer, para impor sobretaxas deu início ontem a três dias de audiências. O objetivo é discutir a investigação aberta em março sobre as políticas de proibição de produtos ligados ao trabalho forçado adotadas por 60 países. Representantes de empresas, entidades e outros grupos interessados apresentarão seus argumentos ao USTR.
A apuração baseou-se em uma lei que autoriza a aplicação de tarifas contra nações que imponham barreiras injustas ao comércio americano. Esse fundamento é considerado mais sólido do que o uso de poderes de emergência (Ieepa, na sigla em inglês), como fez o presidente Donald Trump em 2025 ao impor seu tarifaço global " a medida foi considerada ilegal pela Suprema Corte dos EUA em fevereiro deste ano.
No início de junho, o USTR concluiu que todas as economias investigadas deixaram de "adotar e aplicar de forma efetiva uma proibição à importação de produtos relacionados ao trabalho forçado". Por isso, recomendou a adoção de uma tarifa adicional de 10% ou 12,5% sobre produtos desses países.
Também nesta semana, outra audiência no USTR analisa políticas e práticas do Brasil, como desmatamento e Pix.
O primeiro dia
O USTR ouviu ontem um painel de autoridades governamentais de México, Chile, Equador, Guatemala, Guiana, Honduras e Peru.
Na defesa das tarifas, falaram representantes das associações americanas de tubulações e produtos de aço. Para as entidades, as sobretaxas são necessárias para conter o que classificam como uma enxurrada de produtos siderúrgicos, impulsionada, em parte, por padrões trabalhistas considerados insuficientes e pela ausência de proibições à importação de produtos fabricados com trabalho forçado.
Já o Instituto Americano de Petróleo (API, na sigla em inglês) pediu a retirada das tarifas sobre insumos industriais considerados essenciais para a indústria de óleo e gás. Segundo o API, esses produtos não têm qualquer relação com trabalho forçado e não podem ser obtidos no mercado americano, "seja porque não são produzidos nos Estados Unidos, seja porque não existem em quantidade suficiente para atender à indústria".
Mais tarde, um ex-integrante do USTR argumentou que essas investigações distorcem a finalidade original da Seção 301 da Lei de Comércio de 1974.
" Altos integrantes do governo descreveram o objetivo dessas investigações não como uma forma de enfrentar "atos, políticas e práticas" que prejudiquem o comércio dos Estados Unidos, mas sim de restabelecer as tarifas definidas pelos decretos de emergência do Ieepa, consideradas ilegais " afirmou Ed Gresser, hoje vice-presidente e diretor de Comércio e Mercados Globais do Progressive Policy Institute.
Outro argumento de Gresser é que o relatório do USTR não comprova que as economias listadas importam produtos fabricados com trabalho forçado nem que prejudicam o comércio americano. Por isso, disse, as tarifas "são inadequadas e não deveriam ser mantidas".
O segundo dia
A Coalizão pelo Comércio Justo em Frutos do Mar defenderá hoje a aplicação de uma tarifa mais elevada sobre produtos pesqueiros provenientes do Vietnã, especialmente os ligados à indústria de processamento. Segundo a entidade, esse segmento é particularmente vulnerável ao uso de trabalho forçado e infantil.
Devem participar ainda representantes de Índia, Jordânia e Paquistão. Organizações de direitos humanos, entre elas a China Labor Watch, também falarão.
O terceiro dia
As audiências terminarão amanhã, com depoimentos de associações dos setores têxtil e de calçados dos EUA.
Também participarão representantes dos governos da Coreia do Sul, Sri Lanka, Vietnã e África do Sul, contestando as conclusões do USTR sobre uso de trabalho forçado.
Até a fabricante francesa de panelas Le Creuset vai depor. Em documento enviado ao USTR, ela destacou que emprega quase 800 pessoas nos EUA, embora não fabrique no país. Segundo a empresa, seus produtos "não representam qualquer risco para a indústria manufatureira americana, uma vez que não existe produção doméstica comparável de panelas premium de ferro fundido esmaltado capaz de atender à demanda".