‘Tolerância zero’ para a desordem na orla da zona sul
Uma nova estratégia de ordenamento do comércio ambulante na orla do Rio foi anunciada ...
Uma nova estratégia de ordenamento do comércio ambulante na orla do Rio foi anunciada ontem. Não se trata de operação pontual, mas de política permanente de "tolerância zero", segundo o prefeito Eduardo Cavaliere. A partir do próximo dia 16, haverá fiscalização no trecho entre o Leme e o Leblon, passando por Copacabana, Ipanema e Arpoador. Com atuação 24 horas por dia, serão implementados patrulhamento ostensivo, pontos de controle de acesso, ações preventivas, apreensão de mercadorias sem comprovação de origem e combate aos depósitos clandestinos. A medida surge em meio a reclamações sobre a desordem à beira-mar. Um cenário caótico, que inclui caixas de som nas alturas de madrugada, ocupação irregular do calçadão e comércio ilegal, foi retratado em uma série de reportagens do GLOBO.
" Será uma política continuada de Tolerância Zero. Não será uma operação. O objetivo é ocupar permanentemente esses espaços para impedir que a irregularidade volte a acontecer " afirma o prefeito.
ilegalidades em série
No último domingo, O GLOBO revelou que desmoronou o "pacto de não agressão" entre o Terceiro Comando Puro (TCP) e o Comando Vermelho (CV) no calçadão e na faixa de areia de Leme e Copacabana. O cartão-postal virou palco de brigas, perseguições, revistas em celulares e até homens armados. Em jogo, o lucro com a venda de drogas e a exploração do comércio ambulante.
" A gente tem efetivo relevante de guardas municipais, mas nós estamos falando aqui de enfrentamento ao crime organizado em um dos seus braços econômicos " explica Eduardo Cavaliere.
Informações da prefeitura apontam para a existência de 22 depósitos clandestinos. Segundo o levantamento, essa estrutura movimenta cerca de R$ 100 milhões por ano. A administração municipal estima ainda que existam mil pontos de venda ilegais entre o Leme e o Leblon " e que cerca de 20% dos ambulantes irregulares identificados são estrangeiros.
" O estrangeiro em situação irregular muitas vezes evita procurar as autoridades, o que cria uma oportunidade para exploração " diz o secretário estadual de Segurança Pública, Victor Santos, também presente ao lançamento do programa. " A prefeitura está anunciando com antecedência justamente para dar oportunidade de regularização a quem quer trabalhar dentro da lei. Depois do início da fiscalização, a tolerância será zero " acrescenta.
imóveis desapropriados
Ao todo, 138 agentes da Secretaria municipal de Ordem Pública (Seop) atuarão em duplas, em turnos de 12 horas, para garantir a fiscalização permanente. Segundo a prefeitura, a principal missão das equipes será impedir a instalação de carrinhos, estruturas improvisadas e o abastecimento de mercadorias destinadas ao comércio clandestino.
Para a execução do plano, a orla terá 69 pontos de monitoramento. Cada dupla de agentes ficará responsável por um perímetro específico, controlando os acessos ao calçadão. No Leme e em Copacabana, haverá 30 pontos, distribuídos por locais como a Avenida Princesa Isabel, a Rua Miguel Lemos e a Praça do Lido. Ipanema contará com 21 pontos, o Leblon, com 15, e o Arpoador, com três.
Como parte da nova estratégia, a prefeitura publicou ontem um decreto de desapropriação de dois imóveis que estão desocupados e passarão a funcionar como depósitos públicos para equipamentos e mercadorias de trabalhadores autorizados. Os endereços ficam nas ruas Teixeira de Melo 95, em Ipanema, e Miguel Lemos 76, em Copacabana.
" O que estamos fazendo hoje é mais do que apresentar um conjunto de ações da prefeitura. Estamos apresentando uma abordagem para um problema que se consolidou ao longo dos últimos anos " ressalta Cavaliere.
Durante a apresentação do projeto, o secretário municipal de Ordem Pública, Marcus Belchior, listou atividades ilegais na orla:
" Existe cobrança por pontos de venda, exploração de ambulantes, venda e aluguel clandestinos de pontos, mercadorias sem origem comprovada e logística própria de abastecimento. Estamos falando de uma organização estruturada " diz o secretário, que, além dos agentes empregados, vai contar com monitoramento por câmeras do Centro de Operações e Resiliência (COR), drones e troca de informações com as forças estaduais de segurança.
planos para a cidade
A estratégia anunciada segue a linha de ações adotadas pela prefeitura em outros pontos da cidade. No início do ano, o município restringiu o acesso à Pedra do Arpoador entre 21h e 4h. Em maio, a prefeitura passou a utilizar drones para monitorar o entorno do Saara e da Rua Uruguaiana, no Centro. E, na semana passada, anunciou um plano de ordenamento para a região da Escadaria Selarón, na Lapa.
Anteontem, o presidente da Câmara Municipal, vereador Carlo Caiado, recebeu uma carta da Coopquiosque, associação que representa permissionários de quiosques. No documento, o grupo pede que as medidas previstas para a Zona Sul sejam estendidas à orla da Barra da Tijuca e do Recreio.
Aos 60 anos, uma vendedora, que não quis se identificar, carrega cerca de 200 biquínis para vender no calçadão de Ipanema. Sem aposentadoria, ela alega que sua única saída é vender as peças na praia, por R$ 70 cada.
" Comecei a vender biquínis quando tinha 38 anos, faz um tempinho, né? " brinca. " Já passei por muitas praias do Rio, e há cinco anos estou aqui em Ipanema. Não sei o que vai ser de mim se tiver que parar.
Ontem, além dos biquínis oferecidos pela vendedora, era possível encontrar carrocinhas de bebidas, milho-verde, açaí e cangas na calçada. Entre comerciantes brasileiros, o senegalês Cherif Sow, de 66 anos, vende itens artesanais que ele mesmo produz.
" Eu vendo pulseiras de couro, colares e esculturas de madeira e colares de pedras. Estou neste ponto desde 2013, quando cheguei ao Brasil " conta ele.
O presidente da Associação dos Moradores de Copacabana, Tony Teixeira, diz que a promessa de fiscalização será fundamental para garantir a organização no bairro.
" Os moradores estão bem felizes " garante.
* Estagiária sob a supervisão de Cláudia Meneses