Domingo, 12 de Julio de 2026

Bairro dos ingleses, a vila de fábrica que virou um recanto gradeado

BrasilO Globo, Brasil 12 de julio de 2026

Um recanto na Zona Norte que guarda histórias da cidade com um certo toque britânico está ...

Um recanto na Zona Norte que guarda histórias da cidade com um certo toque britânico está prestes a entrar no mapa oficial do Rio. São dez ruas, com amplas casas típicas do subúrbio, conhecidas na vizinhança de Del Castilho e Maria da Graça como o Bairro dos Ingleses. A origem do nome remonta ao século passado, quando técnicos britânicos vieram trabalhar na Companhia de Tecidos Nova América e se estabeleceram em terras cariocas. Um projeto de lei aprovado na Câmara Municipal no último dia 30 cria o bairro e aguarda sanção do prefeito Eduardo Cavaliere.
Majoritariamente residencial, a região conta com ruas largas e arborizadas. Segundo estimativa da associação de moradores, há cerca de 800 imóveis que pagam IPTU no perímetro, onde os terrenos são grandes, de pelo menos 500 metros quadrados. Os quintais são amplos e muitos têm piscina. Mas, em busca de segurança, o Bairro dos Ingleses também é conhecido por suas grades e cancelas que cercam quase toda a região.
A Nova América fechou e foi transformada em um shopping no início dos anos 1990. Muito antes, os ingleses que comandaram a indústria têxtil já não viviam mais no Rio. Mas muitos moradores conheceram bem a fábrica. Um dos que migraram para a região por conta do trabalho é o administrador de empresas aposentado Milton Alves Raposo, de 84 anos. Funcionário do departamento de pessoal da empresa, ele se mudou de Jacarepaguá para Maria da Graça " ou melhor, para o Bairro dos Ingleses " em 1973, com a mulher, Ducinéia, e a filha mais velha, que nasceu quatro anos antes. O filho caçula, por sua vez, já veio ao mundo no novo bairro.
Segundo ele, a fábrica oferecia o aluguel de imóveis próprios aos seus funcionários, por bons preços. Milton foi um dos beneficiados e conseguiu uma casa no Bairro dos Ingleses, destinado principalmente a quem tinha cargos de chefia e aos estrangeiros.
" Os ingleses eram os melhores técnicos têxteis que existiam e, por isso, a Nova América os contratava. Os que tinham família moravam aqui. Já os solteiros ficavam em um alojamento na entrada da fábrica " lembra Milton. " Eles já vinham (da Inglaterra) arranhando o português.
Já os operários eram direcionados para endereços em Inhaúma, em área conhecida como Cidade Jardim, lembra o morador da Rua Jacutinga.
Outra antiga conhecedora da região é Yolanda Veneroni Berthoux, hoje com 105 anos, beneficiada com o aluguel de uma casa na Pires de Carvalho à época. Anos depois, comprou um terreno e construiu a casa em que vive, na Rua Resende Costa.
Secretária do chefe
Ela foi secretária-executiva e braço direito de Adhemar Bebiano (1905-1984), presidente da fábrica e ex-dirigente do Botafogo, industrial que deu nome à antiga Estrada Velha da Pavuna. Na via foram acomodados os tecelões, por exemplo. Hoje, a idade avançada atrapalha a lucidez de Yolanda em alguns dias. Mas seu neto, o advogado Fernando Berthoux, de 59 anos " nascido em 1966, ano do único título da Inglaterra na Copa do Mundo, diga-se de passagem ", lembra com carinho das histórias que ouviu da avó, além da infância no bairro em que vive desde que nasceu.
" Os filhos e netos dos ingleses jogavam bola comigo. E todos tinham nomes da terra de seus ancestrais: Stanley, Anthony, Bryan. Todos falavam português, mas um havia nascido na Inglaterra e tinha sotaque. O bairro era muito legal " recorda-se Fernando, que lembra de brincar na rua até tarde da noite.
O futuro bairro fica entre a Avenida Dom Hélder Câmara, principal via da região, e o muro que cerca a linha férrea do metrô, no entorno da estação de Maria da Graça. Nesse trecho ficam as ruas Antônio de Freitas, Atílio Milano, Domingos de Barros, Ferreira Cardoso, Guanacás, Jacutinga, Pires de Carvalho, Resende Costa e Silva Rosa, além da Travessa Malafaia.
O hábito de brincar até tarde na rua foi sendo minado por conta da violência na cidade. Atualmente, uma das queixas dos moradores é a de furto de cabos, retrato comum nos bairros da área. Mas, em outubro de 2024, a prefeitura autorizou que oito ruas fossem fechadas, com controle de acesso. Placas nos postes informam o número do decreto que permitiu a instalação das grades, que já foram colocadas em cinco desses locais, inclusive na Rua Pires de Carvalho, onde uma guarita vermelha, inspirada nas cabines telefônicas londrinas, fica na entrada da via.
Atualmente, no entanto, apenas o acesso da Rua Domingos de Barros para o metrô, onde só passam pedestres, é fechado diariamente à noite. Só moradores podem acessá-lo, com o auxílio de uma tag, nesses horários de restrição.
Os demais pontos com grades contam com cancelas para carros, mas só funcionarão plenamente quando todo o bairro for cercado. Hoje, esse processo é comandado por integrantes da Associação dos Moradores e Amigos do Bairro dos Ingleses (Amabi), que está nos trâmites de abertura de um CNPJ.
Essa e outras melhorias, como a instalação de 32 câmeras de monitoramento (já há 16 em funcionamento), são possíveis graças a uma "caixinha" da associação, que arrecada voluntariamente R$ 50 de cada família. Cerca de 200 pessoas contribuem com a quantia mensalmente.
Sem área de lazer
O fechamento da região, no entanto, foi a semente de um projeto que culminou na proposta de criação do Bairro dos Ingleses. Quem é apontado como um articulador disso é o coronel da Polícia Militar Sérgio Lessa, de 80 anos, que trabalhou na Coordenadoria Militar da Assembleia Legislativa do Rio no passado.
Na Casa, conheceu o deputado Pedro Fernandes (1924-2005), pai da vereadora Rosa Fernandes (PSD), que acabou apresentando na Câmara o projeto da criação do novo bairro.
" A vantagem de se tornar um novo bairro é poder ser mais visto pelo poder público. Por exemplo, não temos área de lazer: para fazer alguma coisa, é preciso sair do bairro (dos Ingleses) " avalia o taxista Zeca Domingues, presidente da Amabi. " Se mandar alguém para Maria da Graça, as pessoas não vêm para cá, vão para o outro lado (da estação).
Além de Zeca, a Amabi tem como integrantes engajados nos projetos envolvendo o novo bairro os diretores Paulo Thomé, Rosemberg Pinto e Fátima Lessa. Sérgio Lessa, marido de Fátima, não quer cargo, mas explica que atua como um "relações-públicas" da associação.
Uma creche e uma escola de ensino fundamental estão instaladas no bairro. Um dos acessos da estação do metrô de Maria da Graça, na Rua Antônio de Freitas, também ficará sob a jurisdição dos Ingleses. Mas o Shopping Nova América, por exemplo, fica fora, ainda em Del Castilho.
DO INGLÊS AO ARGENTINO
Arquiteta e urbanista, Leila Marques, presidente em exercício do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Brasil (CAU-BR), pondera que a criação de um bairro não resolve problemas, mas pode ser uma mera alteração cartográfica caso os dados do novo recorte territorial não sejam incorporados na definição de políticas públicas.
" Criar um novo bairro não é apenas reconhecer uma identidade local: é criar uma nova unidade de planejamento urbano. A partir desse momento, a cidade passa a enxergar aquele território de forma própria, produzindo indicadores específicos, orientando investimentos e qualificando a gestão pública " observa.
Em outubro do ano passado, a prefeitura sancionou a criação de outro bairro, o Argentino, que antes ficava no limbo entre Brás de Pina, Vila da Penha e Vista Alegre, também na Zona Norte. Dados do Instituto Pereira Passos, do município, já dão conta de que o Argentino é o segundo menor bairro do Rio, com 752 moradores. Fica à frente apenas de Grumari, que tem 184. A renda média no bairro criado no ano passado é de R$ 6,2 mil por mês, maior do que em regiões como Catete, na Zona Sul, e Méier, na Zona Norte.
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