Martes, 14 de Julio de 2026

Fiocruz vai fechar alojamento devido à violência

BrasilO Globo, Brasil 14 de julio de 2026

A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) vai desativar o alojamento estudantil que fica no Centro de ...

A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) vai desativar o alojamento estudantil que fica no Centro de Referência Professor Hélio Fraga (CRPHF), em Curicica, na Zona Sudoeste, em razão do agravamento da violência armada na região. Segundo a instituição, 35 estudantes de programas de pós-graduação de diferentes unidades da Fiocruz vivem hoje na moradia. Os beneficiários, porém, se mobilizam para que o espaço seja mantido.
" O alojamento fica próximo a comunidades, e escutamos muitos tiros à noite. Também já recebemos comunicados de toque de recolher repassados pelo WhatsApp. Ficamos perto do Morro Dois Irmãos, e, em alguns momentos, os confrontos se intensificam. Porém, o problema de violência que acontece na região não é uma exclusividade de lá; é uma questão que afeta o Rio como todo " afirma um dos estudantes, antes de desmentir rumores de que a milícia teria dado ordem para que deixassem o local: " Isso nunca aconteceu. Nunca recebemos ameaça de ninguém.
Em nota, a fundação diz que, ao longo dos últimos meses, "tem acompanhado o agravamento do cenário de violência urbana armada no território onde está localizado o alojamento" e que, "considerando o consequente aumento do risco à vida e à integridade física" dos estudantes, "foi instaurado um plano de desocupação gradual".
Como alternativa, a Fiocruz concederá um auxílio mensal de R$ 800 para custeio de moradia dos estudantes que terão que deixar o local. O benefício terá duração inicial de 12 meses e poderá ser prorrogado por igual período, desde que o estudante mantenha matrícula ativa.
‘Decisão repentina’
O alojamento abriga estudantes de mestrado, doutorado e especialização, de áreas como epidemiologia, biologia e comunicação e saúde. Os residentes são de diversas partes do Brasil e de outros países, como Chile, Colômbia, Guiné-Bissau e Moçambique. Eles reclamam que a decisão da Fiocruz foi "unilateral e repentina", pegando os moradores de surpresa e os deixando preocupados com a continuidade de suas pesquisas na instituição. Além disso, consideram o valor do auxílio-moradia insuficiente para pagar um aluguel na cidade. A principal demanda é que o alojamento seja mantido, mesmo que em outra região.
Os estudantes contam que a medida foi anunciada após eles solicitarem melhorias na infraestrutura e na segurança do alojamento. Uma das sugestões foi o fechamento de um buraco no muro que dá passagem para uma área de mata nos fundos do terreno, o que torna o local vulnerável à invasão de criminosos.
No dia 2 de junho, a Fiocruz enviou um e-mail convocando para uma reunião remota, que foi realizada na segunda-feira da semana passada, dia 6, quando foi comunicado o encerramento do alojamento.
Dois dias após a decisão, os estudantes enviaram uma carta à vice-presidência e aos setores de coordenação da fundação solicitando a suspensão da descontinuidade do alojamento estudantil até que fossem "discutidas e implementadas alternativas viáveis, construídas de forma coletiva". No texto, os pesquisadores argumentam que a decisão foi apresentada "sem consulta prévia aos estudantes" e que a medida "gerou intenso sofrimento, crises de ansiedade e pânico" entre os moradores.
"Entre nós, há estudantes negros, indígenas, LGBTQIA+ e integrantes de outros grupos historicamente sub-representados na educação superior. Nós não possuímos familiares ou qualquer rede de apoio no Rio de Janeiro e dependemos do alojamento para dar continuidade às atividades acadêmicas e de pesquisa, não dispondo de condições financeiras para custear moradia na cidade", diz trecho da carta.
Na última sexta-feira, uma nova reunião foi realizada entre estudantes e a Fiocruz, que manteve a decisão. Segundo os estudantes, o encontro foi "acalorado" e sem respostas concretas aos questionamentos.
cursos de especialização
O Professor Hélio Fraga é uma unidade voltada para o diagnóstico, a pesquisa e o controle da tuberculose e outras doenças respiratórias. O centro oferece cursos de especialização e atendimento ambulatorial, além dos serviços de laboratório e farmácia. De acordo com a Fiocruz, apenas o alojamento será desativado.
Historicamente dominada por grupos milicianos, a região de Curicica tornou-se reduto da guerra de expansão do Comando Vermelho (CV), que tem buscado recuperar territórios. O principal campus da Fiocruz, em Manguinhos, na Zona Norte, também sofre com a violência na vizinhança, onde ficam o Complexo da Maré e a Favela de Manguinhos.
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