Jueves, 16 de Julio de 2026

Operação contra créditos falsos de icms em sp envolve 750 empresas

BrasilO Globo, Brasil 16 de julio de 2026

A investigação que levou à Operação Distrato, realizada ontem pelo governo de São Paulo, ...

A investigação que levou à Operação Distrato, realizada ontem pelo governo de São Paulo, aponta que o esquema de comercialização de créditos falsos de ICMS pode ter se espalhado pelo país. Autoridades afirmam que secretarias da Fazenda de outros estados já relataram casos semelhantes e não descartam que o modelo fraudulento tenha sido empregado até em tributos federais. O prejuízo é estimado em R$ 3,8 bilhões.
" Temos outros estados, temos ainda problemas relacionados a tributos federais. É provável que esse esquema se repita " afirmou ontem o auditor da Receita estadual Ronaldo Melo Nogueira. " Vamos compartilhar essas informações com todos os estados, e essas pessoas serão responsabilizadas.
A operação, coordenada pelo Comitê Interinstitucional de Recuperação de Ativos (Cira-SP), formado por Secretaria da Fazenda e Planejamento (Sefaz-SP), Ministério Público de São Paulo (MPSP) e Procuradoria-Geral do Estado (PGE-SP), cumpriu 38 mandados de busca e apreensão em São Paulo, Campinas, Jundiaí, Ribeirão Preto, Londrina e Cambé. Entre os alvos estão escritórios de advocacia e consultorias suspeitos de intermediar a venda de créditos.
Segundo as investigações, os suspeitos ofereciam a empresas paulistas créditos tributários com deságio, apresentando-os como instrumentos legítimos de planejamento tributário. Na prática, os créditos não tinham autorização do Fisco e, em diversos casos, estavam vinculados a empresas inaptas, massas falidas e operações sem lastro econômico.
Quem realizava o golpe tinha um aparato para vender os créditos, contando até com pessoas que se passavam por auditores do estado. O golpe era tão comum que, segundo as autoridades, seria "impossível" verificar quantos escritórios aderiram a ele.
ESCRITÓRIOS NA MIRA
Do lado das empresas, que pagaram menos de 10% do que deveriam ao estado, investigadores dizem que, no primeiro momento, vão analisar casos levando em conta a "boa-fé" de que elas não sabiam que participavam do golpe.
A fraude começou a ser identificada em setembro último, quando sistemas de monitoramento da Sefaz-SP detectaram queda abrupta no recolhimento de ICMS por centenas de contribuintes. Empresas que recolhiam entre R$ 1 milhão e R$ 2 milhões por mês passaram a pagar apenas R$ 100 mil.
" Em paralelo, alguns contribuintes começaram a procurar as unidades da Secretaria da Fazenda perguntando sobre a legalidade dessas transferências de créditos. Em São Paulo, não existe qualquer previsão para transferência de crédito de ICMS sem autorização da secretaria " explicou Nogueira.
Segundo o auditor, os investigados chegaram a falsificar documentos atribuídos à administração estadual para convencer empresários de que as operações eram legais.
Após a identificação da fraude, a Sefaz-SP lavrou mais de 750 autos de infração. O valor total das autuações supera R$ 3,8 bilhões. Segundo as autoridades, o montante pode aumentar à medida que novos elementos forem analisados.
As investigações apontam que os escritórios seguiram atuando mesmo após a ação do Fisco. Segundo o auditor, passaram a enviar às empresas supostos comprovantes de pagamento de multas aplicadas pelo estado, embora os valores nunca tenham sido quitados.
" Isso prejudica o caixa do estado, mas também as próprias empresas, que perdem a possibilidade de discutir essas autuações administrativamente " disse Nogueira.
Ele explicou que alguns grupos chegaram a usar nomes de grandes companhias para dar credibilidade às operações:
" Depois que a Fazenda identificou o esquema, passaram a usar o nome de alguns dos maiores contribuintes do Brasil para dizer que essas empresas estavam quitando os autos de infração.
As autoridades afirmam que, no momento, o foco da investigação está nos intermediários responsáveis pela fraude, e não nas empresas que adquiriram créditos. A situação dos contribuintes, porém, será analisada individualmente.
" O objeto da investigação é principalmente a atuação dos escritórios de advocacia que intermediaram a aquisição desses créditos. As empresas, pelo menos neste primeiro momento, não são propriamente investigadas. Mas a documentação apreendida hoje poderá indicar eventual participação de algumas delas " afirmou o procurador do estado Alisson Julian Rhenns.
Perguntados sobre a possibilidade de prisões, os integrantes do Cira afirmaram que a prioridade era interromper as fraudes.
" Nossa principal ideia, ao deflagrar essa operação, era mostrar para a sociedade que o estado descobriu o esquema e que essas pessoas serão responsabilizadas criminalmente. Não estamos criminalizando nenhuma profissão. Estamos falando de pessoas que falsificam documentos, comercializam créditos que não existem e enganam empresas " disse Nogueira.
‘NÃO EXISTE MILAGRE’
Ao citar a postura das empresas que aderiram ao esquema, o auditor fez um alerta:
" Não existe milagre. Não existe compra de crédito com deságio milagroso. Crédito de ICMS é dinheiro. É dinheiro do estado. Vamos analisar a conduta de cada empresa, inclusive das grandes companhias, que possuem áreas de compliance e mecanismos internos de controle.
Segundo integrantes do Cira, a operação é apenas uma etapa das investigações. O material apreendido será analisado nos próximos meses e poderá dar origem a novas fases da apuração, incluindo a identificação de outros envolvidos dentro e fora de São Paulo.
Um dos alvos da investigação é o escritório do advogado Nelson Wilians Fratoni Rodrigues. Escritórios pertencentes ao empresário foram alvo de busca e apreensão, sem pedido de prisão. O advogado também é investigado pela Polícia Federal no caso das fraudes envolvendo descontos indevidos em benefícios do INSS.
Os investigadores delimitaram a apuração à atuação de três núcleos centrais: os grupos econômicos Nelson Wilians, Alpha e DMC. Segundo o relatório, os investigados eram responsáveis pela captação de clientes, elaboração de pareceres jurídicos, estruturação contratual, emissão de documentos fiscais e administração das empresas envolvidas.
"Embora os agrupamentos apresentem características próprias e fundamentos distintos para a alegada origem dos créditos, todos figuram associados a operações que resultaram na inserção de créditos de ICMS posteriormente considerados irregulares pela Administração Tributária", diz o documento da investigação.
Em nota, o escritório de Nelson Wilians afirmou que recebeu o cumprimento da medida de busca e apreensão com "serenidade, transparência e absoluto espírito colaborativo". Segundo eles, o escritório está à disposição das autoridades competentes para o esclarecimento dos fatos.
La Nación Argentina O Globo Brasil El Mercurio Chile
El Tiempo Colombia La Nación Costa Rica La Prensa Gráfica El Salvador
El Universal México El Comercio Perú El Nuevo Dia Puerto Rico
Listin Diario República
Dominicana
El País Uruguay El Nacional Venezuela