‘Precisamos encontrar um jeito de não nos destruirmos’
Entrevista
Entrevista
Há pelo menos 50 anos Jill Tarter dedica sua vida a buscar sinais de civilização avançada fora da Terra. Especialista em radioastronomia, ela fundou em 1984 o Instituto SETI (sigla em inglês para Busca por Inteligência Extraterreste), que analisa sinais captados por grandes redes de radiotelescópios. Tarter virá ao Brasil para o Rio Innovation Week, onde dará uma palestra em 4 de agosto. Ela conversou com o GLOBO sobre seu trabalho, o impacto da inteligência artificial na ciência e a crescente presença de bilionários no setor espacial.
Você dedicou a carreira a uma pergunta que talvez nunca veja respondida. Isso lhe ensinou uma relação diferente com o tempo?
A busca por vida além da Terra me ensinou a valorizar a passagem do tempo. Temos uma tecnologia com pouco mais de cem anos. Como espécie, existimos há alguns milhares de anos em uma galáxia com cerca de 10 bilhões de anos. Em termos cósmicos, esse período de investigação foi curto. Talvez seja necessário desenvolver uma física completamente nova. Pode ser que ainda não tenhamos amadurecido o suficiente para criar instrumentos capazes de detectar as evidências que existem por aí. Mas isso não significa que devemos abandonar essa procura.
O Paradoxo de Fermi diz que as civilizações destroem a si mesmas antes de serem ouvidas. Chegaremos ao fim antes que outras civilizações possam nos descobrir?
Essa é uma das razões pelas quais trabalho com o SETI. Se tivermos sucesso, talvez descubramos que alguma civilização conseguiu atravessar a fase de adolescência tecnológica. Se detectarmos alguma coisa, é provável que os primeiros sinais venham das civilizações mais antigas, mais brilhantes e mais tecnologicamente avançadas. O simples fato de saber que outra espécie conseguiu superar esse desafio já seria uma enorme fonte de inspiração. Precisamos encontrar um jeito de não nos destruirmos.
Como a IA está transformando a astronomia?
O potencial é enorme. Fico admirada com a quantidade e a diversidade de informações quando olho para a IA, mas já vi demonstrações de como ela pode inventar informações. Por isso, acredito que sempre será necessário um ser humano. Mas o que mais me impressiona é a velocidade com que isso está acontecendo. Hoje conseguimos integrar dados provenientes de um número enorme de fontes diferentes, o que permite identificar relações entre conjuntos de informações que, à primeira vista, pareciam completamente desconectados.
A corrida pela IA está tirando recursos de outros campos da ciência?
Ao longo da História, sempre tivemos que recorrer a diferentes fontes de financiamento para a pesquisa científica. A diferença talvez seja apenas a escala. Hoje há muito mais dinheiro circulando nessa área.
Qual é o risco de a ciência depender de bilionários para ser financiada?
Provavelmente você só seguirá esse caminho quando não houver outra alternativa. Ou seja, quando as fontes tradicionais de financiamento deixarem de existir. Os bilionários sempre estiveram presentes na História da ciência e viabilizaram descobertas importantes. Mas esse não é o modelo ideal porque, em geral, eles querem mudar o mundo, e querem fazer isso amanhã.
Como enxerga a maneira como o governo americano vem explorando a ideia de OVNIs?
Quanto à ideia de tornar os dados públicos, acho excelente. Já em relação a tomar cloroquina e algumas das outras sugestões que ele fez... nem tanto. O fato de uma pessoa carismática, que se comunica bem e aparece na televisão, afirmar alguma coisa não significa que ela esteja certa. Não busque respostas com celebridades. Converse com cientistas que realmente entendem a natureza dos dados que foram coletados.
Jill Tarter, astrônoma