País se prepara para leiloar áreas em novas fronteiras
20 anos da descoberta
20 anos da descoberta
De olho na necessidade de repor reservas, a diretoria da Agência Nacional do Petróleo (ANP) aprovou a indicação de 86 blocos nas bacias da Foz do Amazonas, Barreirinhas e Pará-Maranhão, na Margem Equatorial, para possível inclusão nos editais futuros de leilões. Já na Bacia de Pelotas, no litoral da região Sul, mais de 200 blocos já foram avaliados, diz Artur Watt, diretor-geral da ANP.
" Para que esses blocos possam ser efetivamente incorporados ao edital (de leilão) deverão passar por etapas como análise ambiental, a emissão de Manifestação Conjunta dos Ministérios de Minas e Energia (MME) e do Meio Ambiente e do Clima (MMA), bem como a realização de audiência pública. É necessário garantir a reposição contínua das reservas, já que o petróleo deverá permanecer na matriz energética global pelos próximos anos.
Watt lembra que a exploração de petróleo não é um fenômeno isolado. Para ele, descobertas feitas em outras partes do mundo levam à revisão de modelos geológicos e de suas bacias. Foi o caso da Margem Equatorial, após as descobertas feitas na Guiana e Suriname, assim como os resultados obtidos na Namíbia, na costa da África, que deram uma nova perspectiva para Pelotas:
"A reposição de reservas depende da continuidade da atividade exploratória e da capacidade de identificar novas oportunidades em diferentes províncias petrolíferas.
poço concluído em agosto
Às vésperas de concluir seu primeiro poço na Bacia da Foz do Amazonas, previsto para o mês de agosto, a Petrobras espera ao todo perfurar 15 poços na Margem Equatorial com um investimento estimado de R$ 13 bilhões até 2030.
" A conclusão da perfuração na Bacia da Foz do Amazonas está estimada para agosto e já iniciamos o processo de licenciamento ambiental para os demais blocos. Na Bacia de Pelotas, estamos em fase inicial de estudos. A expectativa é concluir a captação dos dados sísmicos até 2028 " diz Sylvia Anjos, diretora de Exploração e Produção da Petrobras.
Para Pedro Rodrigues, sócio da CBIE, é preciso acelerar a pesquisa e aproveitar o momento de preço alto do petróleo de forma a evitar o erro no início do pré-sal, quando o país perdeu anos discutindo o modelo que iria extrair o petróleo, com a suspensão da agenda de leilões:
" Perdemos investimentos e oportunidades após a descoberta do pré-sal. Hoje poderíamos ter mais produção e mais empresas. O mesmo não pode ocorrer com a Margem Equatorial. Suriname e Guiana estão bem mais adiantados, e o Brasil ainda não concluiu seu primeiro poço em águas ultraprofundas na região.
Marcus D’Elia, sócio da Leggio Consultoria, especializada em petróleo, gás e renováveis, lembra que o próprio atraso no pré-sal também impactou o início das novas áreas exploratórias, como a Margem Equatorial e Pelotas, no litoral da Região Sul. Ele lembra que, se no pré-sal a exploração era vista apenas pelo fator econômico, hoje se observa ainda preocupação socioambiental com a atividade.
" Ou seja, a exploração vai ter seus limites definidos também em função das questões ambientais. Se esses novos campos não entrarem em produção, efetivamente vai haver um declínio na produção. Substituir o pré-sal é um desafio.
Claudio Pinho, professor do curso de pós-graduação em Transição Energética Justa da Mackenzie Rio, destaca a importância da busca de um portfólio diversificado e uma maior agilidade do governo.
"A licença ambiental para a Petrobras perfurar um poço pioneiro na Margem Equatorial durou mais de 10 anos e mesmo assim a licença veio para somente um poço. O importante é que os esforços caminhem com exigências previsíveis.
risco é voltar a importar
Assim,lembra Telmo Ghiorzi, presidente executivo da Associação Brasileira das Empresas de Bens e Serviços de Petróleo (Abespetro), o Brasil corre o risco de voltar a ser importador de petróleo na próxima década caso não avance na exploração de novas fronteiras. Segundo ele, o Brasil ainda não está construindo um caminho para compensar a queda do pré-sal.
" Não podemos ter a sensação de que estamos protegidos, já que nos próximos anos será necessário ampliar a produção para manter a autossuficiência. Esse desafio está diretamente ligado à demora na exploração de novas fronteiras, principalmente em razão de impasses entre as áreas ambiental e energética " diz ele.
700 mil empregos
Segundo a Abespetro, existem cerca de 1.400 blocos exploratórios no Brasil que podem deixar de atrair investimentos por causa das incertezas em torno do licenciamento ambiental.
" Esse é um dos principais dilemas do cenário energético atual. E o Brasil já começa a sentir os efeitos desses impasses. Entre 2018 e 2024 nenhum novo poço exploratório foi perfurado no país, em contraste com o movimento observado em países como Noruega, Suriname e nações africanas, onde a atividade exploratória ganhou impulso com a alta do petróleo. Hoje, a cadeia de exploração e produção gera mais de 700 mil empregos diretos e indiretos, o maior patamar desde o auge do setor, em 2010. Não podemos deixar isso se desfazer.
Leandro Ribeiro, sócio-líder de Oil&Gas da consultoria EY, lembra que o desafio é encontrar o equilíbrio entre desenvolver novas fronteiras de petróleo e atender às expectativas sociais e ambientais:
" O equilíbrio precisa acontecer com responsabilidade, segurança e respeito ao meio ambiente. O principal legado do pré-sal foi transformar o Brasil em uma potência do petróleo. A Margem Equatorial e a Bacia de Pelotas podem ser as próximas grandes áreas produtoras do país e ajudar a manter o Brasil entre os principais produtores mundiais de petróleo nas próximas décadas, mas ainda existe muita incerteza em função dessas áreas terem sido pouco exploradas.