Jueves, 06 de Agosto de 2026

‘Mini ipos’ dão acesso ao mercado para médias e pequenas empresas

BrasilO Globo, Brasil 6 de agosto de 2026

Pequenas e médias empresas (PMEs) começam a se movimentar para acessar o mercado de ...

Pequenas e médias empresas (PMEs) começam a se movimentar para acessar o mercado de capitais e até mesmo realizar "mini IPOs" " oferta pública inicial de ações, na sigla em inglês. O lançamento do regime de Facilitação do Acesso a Capital e de Incentivos a Listagens (Fácil) pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM), em março, reduziu as exigências e os custos. Também em março, a plataforma BEE4, único mercado regulado com foco em PMEs no país, registrou a primeira operação dentro desse modelo: a Mais Mu, fabricante de alimentos e suplementos, captou R$ 2 milhões por meio da emissão de notas comerciais.
A BEE4 já operava em um ambiente experimental da CVM, o sandbox regulatório, voltado ao desenvolvimento de regras para empresas emergentes. Nesse período, a plataforma realizou IPOs de quatro PMEs: Engravida, Mais Mu, Plamev Pet e Eletron Energia. A B3 também está autorizada a operar dentro desse regime; três empresas já emitiram papéis por meio do Fácil, e há outras dez no radar.
O Fácil permite que empresas com faturamento anual de até R$ 500 milhões realizem ofertas públicas de até R$ 300 milhões. O modelo busca reduzir a dependência de empréstimos bancários em um cenário de juros elevados. Especialistas avaliam que há espaço para as PMEs crescerem no mercado de capitais brasileiro e consideram o Fácil um avanço.
Segundo a CVM, o modelo foi desenhado com base na proporcionalidade, reconhecendo que empresas menores têm mais dificuldade para acessar o mercado por causa dos custos e da complexidade das regras.
Demanda de governança
Ricardo Hammoud, economista e professor da Fundação Getulio Vargas (FGV), afirma que o atual patamar da Taxa Selic (reduzida ontem a 14% ao ano) torna os investimentos conservadores mais atraentes. Ele lembra ainda que grandes companhias têm entrado em recuperação judicial ou extrajudicial, o que eleva o prêmio de risco que os investidores cobrariam para comprar papéis de empresas menores:
" Mas é um momento de aprendizado. Algumas empresas podem entrar, e, pouco a pouco, os investidores se acostumam com uma tomada de risco maior.
Para Beny Fard, sócio da B8 Partners e especialista em investimentos e negócios internacionais, há um universo relevante de investidores interessados em companhias menores:
" O investidor quer investir nessas empresas, desde que haja governança e transparência.
Otto Guarnieri, sócio-fundador da Mais Mu, conta que a companhia ficou grande demais para manter o modelo de crowdfunding (financiamento coletivo) e não fazia sentido vender uma fatia a um fundo de private equity que alterasse sua condução. A Mais Mu, então, escolheu emitir notas comerciais. Como já era listada na BEE4, acessou esse instrumento com custo 3% menor. Segundo Guarnieri, os recursos estão sendo usados como reforço de capital de giro para sustentar a expansão, o que melhorou o diálogo com bancos, investidores e parceiros:
" Depois dessa jornada, a Mais Mu recebeu investimento da Btomorrow Ventures, o fundo de corporate venture capital da BAT, que é um investidor estratégico global " diz Guarnieri. " Eu diria para outros empresários: não olhem para o mercado de capitais como uma captação, mas como uma jornada de amadurecimento. Quando a empresa passa a se organizar melhor, ter mais governança e conversar melhor com investidores, fica mais preparada para crescer, negociar com bancos, atrair parceiros e abrir portas.
Raphael Giovanini, superintendente de Desenvolvimento de Mercado para Emissores da B3, diz que o Fácil preenche uma lacuna entre o crowdfunding e as ofertas tradicionais. Atualmente, o financiamento coletivo permite captações de até R$ 15 milhões, enquanto as convencionais costumam começar acima de R$ 300 milhões.
Ele ressalta que o Fácil exige processos robustos de governança. As companhias precisam ser abertas, ter conselho de administração e, no caso de emissão de ações, contar com conselheiros independentes. Também devem ter um diretor de relações com investidores e apresentar balanços auditados.
Valor de R$ 300 mil
Leonardo Resende, superintendente de Relacionamento com Empresas e Estruturadores de Ofertas da B3, conta que as três primeiras operações realizadas pelo Fácil foram em renda fixa, com debêntures e notas comerciais, captando entre R$ 25 milhões e R$ 50 milhões. A B3 pretende encerrar 2026 com dez empresas nesse regime.
" Já tivemos captação de companhias de tecnologia, administração hoteleira e mídia, e temos no pipeline empresas de agronegócio, tecnologia e entretenimento " afirma Resende.
Até agora, as operações foram para investidores profissionais, mas a B3 espera atrair aqueles de varejo.
Rodrigo Fiszman, sócio e presidente do Conselho da BEE4, explica que, para PMEs, o processo do IPO custa cerca de R$ 300 mil. Ele conta que a entidade busca mostrar às empresas que entrar no mercado aberto pode reduzir o custo de capital de 20% a 30%.
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