Na era da influência das redes, confiança é ativo fundamental
Na era da inteligência artificial (IA) e da fragmentação da atenção, é preciso um toque ...
Na era da inteligência artificial (IA) e da fragmentação da atenção, é preciso um toque humano para navegar por tanta complexidade. Ontem, o Globo Summit mostrou como intuição, espontaneidade e confiança são ativos fundamentais para que pessoas, marcas e empresas possam extrair o melhor da nova era da influência nas redes " o encontro, que reuniu jornalistas, personalidades e especialistas, foi no São Paulo Beyond Business (SP2B), festival paulistano de tecnologia, inovação e criatividade, que vai até domingo.
" A influência nunca foi tão valiosa e, ao mesmo tempo, tão desafiadora de construir. Com o Summit Globo, reunimos diferentes visões para discutir como marcas, criadores, empresas e a própria comunicação estão buscando alternativas para seguir relevantes e gerando impacto na vida das pessoas. Vivemos um momento em que produzir conteúdo ficou mais fácil, mas conquistar confiança ficou mais difícil " afirmou Manzar Feres, diretora geral de Negócios da Globo.
Drauzio critica meta
A abertura ficou por conta do apresentador William Bonner, que fez uma reflexão sobre a influência como dever ético. Ele argumentou que a influência real atravessa uma crise de identidade, sendo frequentemente confundida com o "barulho" das redes digitais e métricas superficiais de engajamento. Para Bonner, a verdadeira influência não se pauta pela captura da atenção a qualquer custo ou pela manipulação intencional que fragiliza a verdade. Concluiu dizendo que todo poder de fala carrega dever ético proporcional.
O tema se estendeu ao painel que contou com o médico Drauzio Varella, Marie Santini, fundadora e diretora do Netlab (Laboratório de Estudos de Internet e Redes Sociais da UFRJ), e Pamela Vaiano, diretora de Comunicação do Itaú, com mediação da apresentadora Poliana Abritta. Marie Santini explicou que a confiança está sendo "instrumentalizada", com criminosos altamente organizados pirateando a imagem de autoridades e marcas respeitadas para validar golpes.
Durante o painel, Drauzio descreveu sua experiência ao lidar com os vídeos falsos com sua imagem que povoam as plataformas da Meta.
" Minha experiência pessoal de lidar com essa gente é muito decepcionante. Quando começaram a aparecer as primeiras propagandas de falsos remédios, a primeira coisa que você faz é tentar entrar em contato com a plataforma. Primeiro, não se dignaram a responder. Estou falando especificamente da Meta, que é uma empresa imoral " disse.
O GLOBO procurou a Meta, que se posicionou por nota. "Não permitimos atividades fraudulentas e removemos anúncios enganosos assim que identificados. Estamos sempre intensificando nossos esforços utilizando tecnologia de reconhecimento facial e detecção, aplicando políticas rigorosas e oferecendo ferramentas de segurança e alertas. Além do trabalho de identificação e remoção, iniciamos ações judiciais contra anunciantes fraudulentos que usam imagens de figuras públicas indevidamente", diz.
Um estudo do NetLab analisou anúncios e descobriu que 76% da publicidade sobre saúde era desinformação, golpe ou fraude. Desse total, 21% usavam indevidamente a imagem de Drauzio.
Os debatedores afirmaram que o problema é sistêmico e não pode ser resolvido apenas educando o usuário. Para a retomada da confiança, propõem uma estratégia que envolve regulação estatal, responsabilidade corporativa e o fortalecimento do jornalismo profissional como "ponte segura" para a sociedade.
No painel que discutiu a brasilidade na era da influência, Felipe Nunes, sócio-fundador da Quaest, disse que, ao realizar pesquisas, as médias não explicam mais o Brasil:
" O Brasil é explicado pela variância. E se tem uma coisa que conecta o Brasil é a variância, é ser capaz de colocar diferentes características.
No último painel, Silvio Meira, cientista e professor, enfatizou que, para liderar e influenciar no novo cenário, é imperativo o ato de pensar. Já Elisama Santos, psicanalista e escritora, afirmou que a influência eficaz no futuro depende de encontros que a máquina não pode mimetizar: o toque, o brilho no olhar, o tom de voz embargado e o acolhimento. Os dois propõem mais humanidade na nova era tecnológica. É o que pensa também Manzar Feres:
" A gente entende a tecnologia como um meio e não como um fim em si mesma. Ela transforma o modo de consumir, não a natureza do que gera valor, que continua sendo a criatividade, a curadoria e o talento das pessoas.