Exportadores de carne preveem queda de 35% nas vendas para a china
A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) prevê que o volume ...
A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) prevê que o volume de vendas do produto para a China deve encolher 35% este ano em relação a 2025. A retração é resultado da política de Pequim de cota anual de 1,106 milhão de toneladas do produto com tarifa de importação de 12% para a carne brasileira. Alcançado esse patamar, é adotada alíquota adicional de 55%, o que leva a carga total a 67% e inviabiliza negócios. A expectativa da entidade é que os embarques para a China fiquem entre 850 mil e 900 mil toneladas, ante 1,65 milhão de toneladas no ano passado.
" A China estabeleceu salvaguarda que reduziu em 35% o volume em relação ao que exportamos ao mercado chinês no ano passado. Parte das cargas embarcadas em 2025 foi internalizada pela China neste ano e entrou no cálculo da cota de 2026 " diz Roberto Perosa, presidente da Abiec.
Algumas indústrias deram férias coletivas, outras reduziram custos ou ajustaram a produção. Há quem tenha conseguido direcionar o produto a outros mercados. Grandes frigoríficos, como a JBS, deram férias coletivas em julho, em duas unidades do Mato Grosso, para ajustar a produção.
" Não existe receita única. Outros mercados devem crescer, e seguimos trabalhando na diversificação, especialmente na Ásia, mas hoje não existe outro país capaz de absorver sozinho o volume que deixou de ser destinado à China " afirma o presidente da Abiec.
Sem substituto agora
Entre janeiro e julho, as vendas de carne bovina para o Chile cresceram mais de 50%, enquanto para os EUA a alta foi de quase 10%. Segundo Perosa, uma renegociação ou redistribuição da cota não está na mesa no momento. A China definiu cotas para compra de carne bovina, incluindo, além do Brasil, Austrália, Nova Zelândia, Uruguai, Argentina e EUA. Analistas explicam que a criação de gado na China tem custo elevado e não consegue competir em preço com países que são grandes exportadores. Ao congelar volumes de importação, Pequim busca proteger a rentabilidade e a subsistência de produtores locais. Perosa reforça que o setor acompanha, mas que as conversas são entre governos.
As empresas ampliam as vendas para EUA, Chile, México, União Europeia, Oriente Médio e Sudeste Asiático, ajustam o mix de cortes e calibram abates e estoques.
" A diversificação ajuda, mas nenhum mercado tem capacidade de substituir a China em quantidade de compras no curto prazo " diz Jackson Campos, especialista em comércio exterior.
Em julho, os embarques para a China caíram 47% em relação a igual mês do ano anterior. Assim, o setor pode reduzir o ritmo de abate em unidades mais expostas ao mercado chinês, além de elevar pressão sobre margens, levar à revisão de compras de gado e redirecionamento de cortes.
O CEO Global da JBS, Gilberto Tomazoni, disse em teleconferência de resultados que o mercado de carne bovina no Brasil está complexo no momento devido às cotas da China. A expectativa do executivo é que o Brasil retome a produção destinada à China em outubro, com embarques recomeçando em novembro:
" Dado o tempo de trânsito comercial, o impacto financeiro dessas vendas será sentido principalmente em 2027. Sempre otimizamos dinamicamente nossa alocação de mercado para maximizar o valor, mas não há outro mercado no mundo que consiga absorver sozinho o volume de 150 mil toneladas que costumávamos enviar para a China nesse período, que será de restrição.
Tomazoni disse que o abate de gado no país caiu 20% no primeiro mês da restrição, mas o preço do boi gordo ainda não recuou na mesma proporção. Ele avalia que os preços devem cair nos próximos meses para recalibrar margens da indústria:
" O momento atual é desafiador devido à ausência temporária do mercado chinês e às restrições regulatórias europeias (que começam em 3 de setembro), mas acreditamos que o mercado voltará a uma situação saudável muito em breve.
A Minerva e a MBRF informaram que estão em período de silêncio, por conta da divulgação do balanço, e não podem comentar.
Governo mantém diálogo
Para analistas do Bradesco, a redução do ritmo dos frigoríficos que vendem para a China deve durar até a primeira semana de outubro. No quarto trimestre, frigoríficos devem voltar a ter ritmo acelerado pela necessidade de retomar a produção com antecedência para que os embarques para a China ocorram em meados de novembro. Com o tempo de trânsito até a China, as cargas chegariam em janeiro e passariam a ser contabilizadas na cota de 2027.
O Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) afirmou que mantém diálogo permanente com autoridades chinesas. Disse que desde que a China comunicou a intenção de adotar a medida para importações de carne bovina, o governo vem mantendo interlocução e apresentou alternativas e propostas para mitigar efeitos sobre o comércio bilateral.
Segundo o Mapa, o Brasil ficou com a maior cota entre os exportadores, de 1,106 milhão de toneladas. A brasileira é mais de duas vezes superior à segunda maior cota definida pela China.
"No fim de julho, o governo brasileiro formalizou às autoridades chinesas sua preocupação com o ritmo de utilização da cota", disse a pasta, acrescentando que reforçou para que fosse ampliada a cota deste ano para preservar a estabilidade do comércio bilateral.