Neguinho da beija-flor, agora num musical antirracista
Quando pingou o ponto final no seu meio século de sucesso na Sapucaí, Neguinho da Beija-Flor " a ...
Quando pingou o ponto final no seu meio século de sucesso na Sapucaí, Neguinho da Beija-Flor " a voz dos 15 títulos da escola de Nilópolis " não se achava "isso tudo que as pessoas falam", como ele mesmo define. "Não sou bonito e sempre impliquei com minha voz", comenta, para surpresa de quem ouve o absurdo. Mas o ato final na Avenida foi com o título (como na estreia, em 1976) que transformou o artista do samba num personagem teatral. Literalmente: "O Neguinho da Beija-Flor " musical" estreia dia 10 agora no Teatro João Caetano, iniciando caminhada que passará por seis capitais, para contar, com o tempero da dramaturgia, a vida iniciada na pobreza das valas onde ele catava rãs e muçuns, na Baixada Fluminense dos anos 1950, até o estrelato mundial.
O intérprete será interpretado por Izak Dahora (com ele na foto). Os dois protagonizaram encontro emocionante na ensolarada manhã de quinta-feira, no quiosque que tem uma estátua de Neguinho, no calçadão de Copacabana, e falaram da importância da peça " produção de Luiz Antônio Pilar com texto de Aydano André Motta, da turma da coluna na luta contra o racismo. "É um espetáculo negro e antirracista", atesta Dahora. "A trajetória do Neguinho é teatral e vitoriosa, o que é muito importante como exemplo", comenta ele, que está há dois anos mergulhado na obra do cantor que vai encarnar no palco.
A batalha contra o preconceito é antiga para o grande intérprete do samba, mas ele enxerga ao mesmo tempo avanços dos negros e o recrudescimento dos racistas. "Antes, nós nos escondíamos; agora, frequentamos os mesmos ambientes que eles, os restaurantes caros, a primeira classe dos aviões. E aí vem a reação, as máscaras estão caindo", constata, contando que, dia desses, ao entrar numa churrascaria com a filha caçula, Luiza Flor, notou olhares reprovadores de brancos numa mesa. "Fui lá e falei: a gente tem a mesma condição que vocês. Tem que ser assim. Vamos em frente", convoca ele, morador de Copacabana que, desde a retirada da Passarela, viaja o mundo com agenda lotada de shows.
Neguinho esteve num ensaio do musical e se emocionou profundamente ao ver a vida retratada no palco. "Às vezes me belisco sem acreditar que é real", confessa, encantado. Mas é tudo verdade. Sorte nossa.