Habib’s é o caso mais recente de empresa em recuperação judicial
O Grupo Gennius, dono das redes Habib’s e Ragazzo, entrou com um pedido de recuperação ...
O Grupo Gennius, dono das redes Habib’s e Ragazzo, entrou com um pedido de recuperação judicial na segunda-feira no Tribunal de Justiça de São Paulo. A rede de fast-food já havia conseguido em julho na Justiça uma medida protetiva contra a cobrança de credores. O grupo declarou ter dívidas de R$ 265 milhões, e o pedido foi deferido pelo juiz Jomar Juarez Amorim, da 1ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais do Foro Central Cível de São Paulo. O Gennius tem ainda sob sua administração as churrascarias Tendall Grill.
O caso é o mais recente de uma longa lista de grandes empresas que buscaram a Justiça para se proteger da ação de credores ou que partiram para a renegociação direta com eles. Na lista de empresas conhecidas do público estão nomes como Casas Bahia, Lojas Marabraz, Tok&Stok e a própria Americanas, que encerrou seu processo de renegociação este ano (leia mais abaixo). Sem mencionar gigantes como Braskem e Raízen que recorreram à recuperação extrajudicial, modalidade que já conta com R$ 174,5 bilhões em renegociação, de acordo com o Observatório Brasileiro de Recuperação Extrajudicial. Mas o que está por trás desse movimento?
endividamento alto
Analistas dizem que existem fatores em comum nessa sucessão de crises empresariais, embora a turbulência de cada companhia leve em conta também aspectos particulares de gestão. Assim como outras redes de varejo, o Habib’s também teve seu caixa pressionado pela taxa básica de juros em patamar elevado, o que encarece dívidas contraídas nos últimos anos. A rede também foi afetada por mudanças no comportamento do consumidor, com o delivery oferecendo descontos cada vez mais agressivos, além de um ambiente de concorrência acirrada no setor de alimentação, com gigantes como McDonald’s e Burguer King ampliando operações no Brasil.
Daniela Lubianca, advogada empresarial e sócia da Tahech Advogados, observa que as recentes recuperações judiciais pedidas por empresas de varejo repetem o padrão de endividamento acumulado, impacto de juros altos, mudança de comportamento do consumidor, pressão de custos e necessidade de se adaptar aos novos canais de venda.
" No caso específico de alimentação fora do lar, existe uma dificuldade pois é um negócio de margem relativamente apertada e bastante sensível a custos de alimentos, mão de obra, aluguel, energia e logística. Existe um limite para o repasse desses custos ao cardápio, porque o consumidor compara preços com muita facilidade e pode substituir uma refeição fora de casa por outras alternativas " avalia.
O advogado Pedro Abrão Jr, especialista em direito empresarial, avalia que, além dos juros altos, que impactam o caixa da rede Habib's, uma recuperação desse porte resulta da combinação entre dívida cara, pressão sobre margens, mudança de mercado e dificuldade de ajustar a estrutura com a velocidade necessária:
" O delivery mudou profundamente o setor, mas é simplista dizer que, sozinho, causou a crise. O consumidor está muito seletivo, compara preço em tempo real e reorganiza o orçamento quando alimentação, moradia, crédito e serviços ficam mais caros.
O Habib’s está presente em 17 estados, em todas as regiões do país. O produto carro-chefe continua sendo a Bib’sfiha.
No pedido à Justiça, o valor da dívida é descrito em R$ 265 milhões, mas o grupo disse que seu endividamento bancário supera os R$ 300 milhões. A diferença é técnica; o valor adicional é referente a cessões de recebíveis (valores a receber) e investimentos (travas bancárias) que por lei e entendimento judicial não se submetem aos efeitos da recuperação judicial.
Franqueados ficam de fora
O juiz determinou que os credores não suspendam ou interrompam a execução de contratos vigentes, mas indeferiu o pedido de "quebra das travas bancárias", mantendo a retenção de valores dados em garantia aos bancos.
O pedido cita os impactos da pandemia, quando o grupo investiu na abertura de lojas físicas em shoppings e grandes centros urbanos, a mudança nos hábitos de consumo, com a popularização das plataformas de delivery de restaurantes, o que reduziu a presença de clientes em lojas físicas, e o comportamento dos juros.
Em nota, o grupo confirmou o pedido e informou: "As operações seguem funcionando normalmente, mantendo o atendimento aos clientes, a rotina e a qualidade de suas unidades". Empresas franqueadas não integram o processo e também seguem operando normalmente.