Sábado, 05 de Septiembre de 2026

Vida que segue

BrasilO Globo, Brasil 5 de septiembre de 2026

gustavo poli

gustavo poli
Meu avô se chamava João. Um dia, eu devia ter sete anos, andávamos perto da casa dele na Rua Almirante Guilhem, no Leblon, quando ele avistou um sujeito magro de calça jeans e camisa de mangas curtas.
" Saldanha! Esse aqui quer seguir o seu caminho!
Foi a única vez que encontrei João Saldanha ao vivo. Nunca esqueci. Eu lia a coluna dele no Jornal do Brasil desde bem pequeno e o acompanhava no rádio e na TV. Ele, obviamente, nunca soube, mas fez parte de minha vida até morrer em 1990, cobrindo sua última Copa.
Na semana passada, estava na fila de autógrafos da biografia de Carlos Lacerda, escrita por um dos melhores repórteres que conheci (Mário Magalhães) quando encontrei outro João. João Máximo, editor, jornalista, escritor, figura mais do que doce no alto de seus 91 anos (que parecem 60). João conheceu Saldanha de perto. Mais que conhecer " escreveu seu perfil biográfico. Quando soube que eu não tinha lido o livro, ele, com sua habitual gentileza, disse que me mandaria pelo correio.
Chegou na segunda-feira num pacote cuidadosamente embrulhado. Abri pensando no livro como objeto, no cuidado de empacotar, caminhar até a agência e enviar. Era um João enviando a vida de outro João para que um neto de João (e pai de ainda outro João) lesse.
A palavra escrita é um artefato de permanência. A revolução digital nos tirou algum tato, alguma materialidade. Há alguma diferença entre folhear e deslizar um dedo por uma tela " algo que a textura comunica, talvez a realidade. A vida de Saldanha reduzida e estendida naquele objeto viajou por mãos e escaninhos até chegar aqui.
Na terça eu já tinha lido as 141 páginas e revivido um pouco da história do futebol. O livro mostra que homem e lenda são inseparáveis no "carioca de Alegrete" registrado no Uruguai. Quanto de verdade havia nas muitas histórias de Saldanha? Uma vez, quando eu começava aqui no Globo, outro grande repórter esportivo, Paulo Julio Clement, tragicamente falecido naquele voo da Chapecoense, me puxou para dizer:
" Menino, guarda uma coisa: a versão é sempre melhor que o fato.
As muitas versões de Saldanha sempre se misturaram com os fatos " fosse desembarcando com os aliados na Normandia, marchando com Mao Tsé-Tung, delirando na miopia de Pelé, escalando suas feras, escrevendo, militando. Antes da Copa, Saldanha voltou a ficar em voga por conta da Série sobre a seleção de 1970 na Netflix. Numa coincidência curiosa, ele foi interpretado na série por Rodrigo Santoro, o mesmo ator que fez, no cinema, seu parceiro de praia e paixões nos anos 1940, Heleno de Freitas.
Hoje, as palavras viajam por outros caminhos. Vão mais rápido, chegam mais longe, permanecem menos. A crônica esportiva se transfigurou. Colunas como essa que o leitor agora examina estão se desmaterializando. Em breve, serão bichos obsoletos, relíquias, gramofones, orelhões. O Saldanha de hoje talvez fosse um personagem impossível. Ou um cruzamento de Casimiro com Felipão.
Agradeço ao mestre João Máximo pelo presente. Esse talvez seja o lamento de quem está sendo ultrapassado pelos anos. De quem preza o livro como objeto, a coluna de jornal como possibilidade. A palavra oral e a performance retomaram o centro do palco. Somos cada vez mais fugazes " e hipnotizáveis. A nostalgia é sagrada " mas é meio inútil ser contra a translação. Como diria Saldanha... vida que segue.
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