Lunes, 07 de Septiembre de 2026

Despesas financeiras das empresas sobem 12% no 2º trimestre, um gasto de r$ 99 bi

BrasilO Globo, Brasil 7 de septiembre de 2026

A conta dos juros altos

A conta dos juros altos
A temporada de balanços do segundo trimestre de 2026 revelou o peso dos juros de 14% e da desaceleração da economia no desempenho das empresas brasileiras de capital aberto. Um levantamento feito pela consultoria Elos Ayta a pedido do GLOBO mostra que as despesas financeiras de 268 empresas listadas na B3, com exceção de Petrobras e Casas Bahia, subiram 12,09% no período, consumindo R$ 99,4 bilhões do caixa " R$ 10,7 bilhões a mais do que no mesmo trimestre do ano passado " para pagamento das dívidas.
Como consequência direta, o lucro líquido consolidado desse conjunto de empresas cresceu apenas 3,9% no trimestre passado, de R$ 48,9 bilhões para R$ 50,8 bilhões, na comparação com o mesmo período de 2025.
O CEO da Elos Ayta, Einar Rivero, observa que, embora as companhias tenham tido um bom desempenho operacional, com gestores mais cautelosos, buscando eficiência na operação e na alocação de capital sem elevar o endividamento, os juros altos impediram que o sucesso das operações se traduzisse em lucros líquidos robustos para os acionistas.
" O lucro Ebit (que é o ganho obtido pelas empresas antes de se descontar o pagamento de juros das dívidas e os impostos) subiu quase 25%, totalizando R$ 123,9 bilhões. Mas quando se considera o que as empresas pagaram de juros e impostos, um desembolso de R$ 99,4 bilhões, o lucro líquido cai para R$ 50,8 bilhões. É um crescimento no lucro de apenas R$ 1,9 bilhão na comparação anual " explica Rivero.
No trimestre passado, a Casas Bahia ilustrou a face mais dramática do aperto monetário sobre o desempenho das empresas, ao registrar um prejuízo líquido contábil de R$ 10,1 bilhões. Embora R$ 9,1 bilhões desse total correspondam a efeitos não recorrentes sem impacto direto no caixa (como impostos diferidos), o prejuízo ajustado da varejista, de quase R$ 1 bilhão, aumentou 76% frente ao ano anterior. Por conta desse prejuízo contábil, a empresa ficou fora do levantamento da Elos Ayta, para não distorcer os números médios dos resultados.
Busca por reduzir dívidas
A Casas Bahia passa por um profundo plano de reestruturação que já levou ao fechamento de 298 lojas e a um pedido de recuperação judicial para renegociar dívidas de R$ 17,3 bilhões. Além desse valor, porém, a empresa tem mais R$ 11 bilhões em débitos com bancos, fundos de investimento e impostos, que também precisam de negociação.
"A empresa foi impactada pelo ambiente macroeconômico desafiador, marcado por patamares elevados de taxas de juros, restrição de crédito, aumento do custo financeiro e pressão sobre o consumo e o capital de giro", informou a Casas Bahia na sua petição à Justiça de recuperação judicial, seguindo o caminho de varejistas como Marabraz, Americanas e Polishop.
Segundo analistas, o modelo de operação da Casas Bahia é muito dependente de capital de giro, financiamento de estoques e do crédito direto ao consumidor (CDC) para viabilizar as vendas parceladas. A elevação dos juros encareceu muito o custo financeiro da empresa e, ao mesmo tempo, contraiu a demanda na ponta final, pelo encarecimento do crédito às famílias.
A Petrobras foi outro ponto fora da curva, mas pelo lado positivo " e também foi excluída do levantamento para não distorcer a média. Beneficiada diretamente pela escalada do preço do petróleo tipo Brent no mercado internacional, com o prolongamento das tensões geopolíticas entre Irã e Estados Unidos, a estatal reportou um lucro líquido extraordinário de R$ 52,4 bilhões, um salto de 96,8% frente ao segundo trimestre do ano anterior.
A percepção de que os juros altos "machucam mais do que qualquer outra coisa" levou as empresas, nos últimos quatro trimestres, a buscarem a redução de suas dívidas. De acordo com levantamento da XP, entre 135 companhias acompanhadas por seus analistas, houve melhora do nível médio de alavancagem, que caiu de 1,7 vez para 1,4 vez (considerando a dívida líquida sobre o lucro antes de juros e impostos).
Por outro lado, para as companhias que estão muito endividadas, o custo do serviço da dívida seguiu corroendo o lucro líquido e fazendo, inclusive, com que empresas que atuam no mesmo setor tivessem desempenhos distintos.
Raphael Figueredo, estrategista de ações da XP, cita o caso das construtoras Cury e Direcional, especializadas em habitação popular e média renda. A Cury teve lucro de R$ 311 milhões no período (alta anual de 16,5%), e a Direcional, de R$ 202 milhões (alta de 9,7%).
Já a MRV&CO, que também atende famílias de baixa e média renda, teve o resultado afetado, entre outros fatores, por uma despesa financeira líquida de R$ 393,2 milhões, 60% a mais do que no mesmo período de 2025 " e amargou prejuízo de R$ 626 milhões.
Pior no setor doméstico
No setor bancário, Figueredo cita o Itaú, considerado "um relógio suíço" pela previsibilidade dos lucros, e o Banco do Brasil, que precisou aumentar suas provisões contra possíveis perdas por conta de uma maior pressão na carteira de crédito voltada ao agronegócio, setor que vem sofrendo com juros altos. No BB, a inadimplência do agro chegou a 6,3%, o dobro do registrado no crédito para pessoas jurídicas no banco, de 3,18%.
O Itaú registrou um lucro líquido recorrente de R$ 12,4 bilhões no segundo trimestre, enquanto o BB reportou lucro líquido ajustado de R$ 3,9 bilhões.
Além do impacto negativo dos juros altos, Figueredo destaca que a desaceleração da economia brasileira está ocorrendo mais rapidamente do que o projetado inicialmente pela XP e deve atingir o pico já no terceiro trimestre, não nos últimos três meses do ano. O Produto Interno Bruto (PIB) cresceu apenas 0,5% no segundo trimestre. Isso influencia a decisão de investimentos das empresas, o que desacelera ainda mais a economia brasileira.
" Ao perceberem os sinais de desaceleração econômica, os gestores tomam a decisão de ter uma posição mais defensiva para resguardar o caixa e segurar investimentos. Isso amplia ainda mais o ritmo de desaceleração na economia real " explica o estrategista.
Bruno Henriques, chefe de análise do BTG Pactual, observa que o impacto da Selic, atualmente em 14% ao ano, sobre o endividamento das companhias ficou explícito na baixa conversão do resultado operacional em lucro líquido. Os setores dependentes do consumo doméstico, como o varejo clássico (sem alimentos) e os serviços básicos (energia, saneamento e utilidade pública), foram os que apresentaram a maior concentração de empresas com resultados abaixo do esperado pelo BTG, explica. O lucro líquido das companhias de serviços cresceu apenas 2,5%, enquanto o segmento de saúde e educação registrou queda de 8,5%.
" Com a atividade econômica doméstica desacelerando, os setores domésticos e mais alavancados continuam sob pressão " diz Henriques.
Ajuste é necessário
Não deve haver alívio nos próximos meses, aponta um relatório da MB Associados. Segundo a consultoria, a economia brasileira passa por um momento de desaceleração e perda de tração, pressionada pelo efeito dos juros altos e pelo esgotamento dos estímulos fiscais do governo.
O economista-chefe da MB Associados, Sergio Vale, lembra que, nos últimos três anos, a taxa real de juros no Brasil esteve muito alta, oscilando entre 7% e 10% ao ano, ficando entre as maiores do mundo.
" Isso não acontecia há 20 anos. Por isso, vemos as empresas e as pessoas sofrendo, com recuperações judiciais e inadimplência " diz Vale.
Ele avalia que o ciclo de pedidos de recuperações judiciais ainda não acabou. Vale vê desaceleração da economia no terceiro e no quarto trimestres, com o PIB encerrando 2026 em 1,8%, abaixo dos 2% esperados no início do ano. Para o economista, a Selic chegará a 13,75% no fim deste ano e cairá a 12% em 2027.
Mas, segundo Vale, o Banco Central pode acelerar o ritmo de cortes na Selic se a economia desacelerar com mais força. Também há uma chance de os juros recuarem se o próximo governo fizer um ajuste fiscal já no primeiro ano de mandato:
" Um ajuste fiscal abre espaço para a queda de juros, como já vimos em outros ajustes feitos no país, nos governos de Fernando Henrique Cardoso e de Michel Temer, quando a Selic chegou a cair a 6%.
Os juros são o instrumento do BC para levar a inflação de volta ao centro da meta, de 3%. O desequilíbrio fiscal, no entanto, representa um entrave para a queda da Selic.
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